Exibidores alertam que cota de tela, sem novos estímulos, pode comprometer a sustentabilidade das salas de cinema

Exibidores alertam que cota de tela, sem novos estímulos, pode comprometer a sustentabilidade das salas de cinema
Getting your Trinity Audio player ready...

O debate sobre a cota de tela dominou a programação do Fórum de Tiradentes e expôs a apreensão de donos de salas de cinema diante de uma obrigação legal que, na prática, não vem acompanhada de políticas de estímulo compatíveis. Exibidores relatam que se veem obrigados a programar longas-metragens nacionais que, apesar de numericamente abundantes, não encontram público suficiente para cobrir custos de operação, colocando em risco a saúde financeira dos complexos de exibição.

Índice

Entenda o que é a cota de tela e por que o mecanismo preocupa os exibidores

A cota de tela é uma regra que determina um número mínimo de dias ou sessões destinados a filmes brasileiros em salas comerciais. O instrumento existe para garantir espaço ao cinema nacional em um mercado dominado por lançamentos estrangeiros. No entanto, proprietários de cinemas presentes em Tiradentes afirmaram que, sem ações complementares de formação de público, comunicação e apoio ao lançamento, a exigência transformou-se em um desafio operacional. Com salas esvaziadas, ingressos não vendidos e despesas fixas que não se alteram, o mecanismo que deveria fortalecer o setor acaba gerando desequilíbrios.

A produção de filmes cresce, mas a exibição patina mesmo com a cota de tela

Nos últimos anos, políticas de fomento direcionadas à produção ampliaram significativamente o volume de longas nacionais concluídos. Segundo exibidores, essa expansão criou um fluxo constante de obras à procura de espaço. Entretanto, a mesma intensidade não foi percebida na etapa de exibição. A cota de tela, concebida para ser a válvula de escoamento desse crescimento, mostrou-se insuficiente. Salas recebem mais solicitações do que conseguem acomodar e, mesmo quando atendem à exigência legal, não obtêm retorno financeiro porque parte das produções chega sem campanha de divulgação, sem material promocional mínimo e sem orçamento para distribuição.

Relatos do Cine Glauber Rocha revelam obstáculos cotidianos da cota de tela

Um caso simbólico foi apresentado por Cláudio Marques, responsável pelo Cine Glauber Rocha, localizado no centro histórico de Salvador. O gestor contou que o cinema foi procurado para exibir “A Queda do Céu”, longa dirigido por Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha. Apesar da relevância simbólica — exibir a obra de um descendente do diretor que dá nome ao espaço —, Marques anteviu dificuldades de audiência. Para ele, o impasse ilustra a rotina de centenas de ligações que recebe de realizadores independêntes em busca de uma vaga na grade. Segundo o diretor, grande parte dos filmes não foi planejada pensando no circuito comercial: carece de trailer, de investimento em lançamento e, em algumas situações, nunca teve uma sessão pública sequer.

Formação de público e impacto do streaming desafiam a cota de tela

Além da carência de verbas para divulgação, exibidores atribuem a baixa frequência de espectadores a mudanças de hábito intensificadas pela pandemia e pelo avanço das plataformas de streaming. Consumidores passaram a escolher conteúdos em casa e, diante dessa conveniência, só comparecem ao cinema quando percebem valor ampliado na experiência — seja por ação de marketing robusta, seja por forte repercussão midiática. Sem esses elementos, mesmo títulos nacionais premiados correm o risco de sessões vazias, minando o objetivo de valorização implícito na cota de tela.

Políticas de apoio apontadas pelo Ministério da Cultura

Representantes do poder público presentes no encontro admitiram a lacuna e mencionaram programações federais que, em tese, podem suprir parte dos gargalos. André Virgens, da Secretaria do Audiovisual, citou a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) como fonte de recursos para iniciativas de gestão de salas e circuitos alternativos. Outro programa destacado foi a Política Nacional Cultura Viva, responsável pelo cadastro de mais de dez mil pontos de cultura, muitos já atuando como cineclubes e potenciais exibidores em diferentes regiões do país. A convergência dessas iniciativas, na avaliação da pasta, poderia expandir a capilaridade do cinema brasileiro, reduzindo a dependência exclusiva das salas comerciais de maior porte.

Festivais e mostras: elo essencial entre produção e público

Embora não façam parte da rotina comercial tradicional, festivais e mostras desempenham papel estratégico no escoamento de longas que dificilmente chegariam a um circuito regular. Josiane Osório, que preside o Fórum Nacional dos Organizadores de Eventos Audiovisuais Brasileiros, defendeu a retomada de linhas de apoio específicas para esses eventos. Ela argumenta que, em um ambiente de oferta inflacionada, programações curatoriais ajudam a dar visibilidade a obras sem apelo de massa, mas relevantes para a diversidade cultural. A diretora de formação e inovação audiovisual do Ministério da Cultura, Milena Evangelista, confirmou que a PNAB reserva até 10% de seus recursos para ações continuadas — faixa que pode incluir festivais —, caso os estados optem por essa alocação.

Por que exibidores veem risco de “tiro no pé” sem incentivos adicionais

Para os donos de salas comerciais, o cerne da preocupação é econômico. Custos de aluguel, manutenção, salários e sistemas de projeção permanecem constantes, independentemente de a sessão receber dez ou duzentas pessoas. Quando a grade é ocupada por filmes que atraem público reduzido, a margem de lucro encolhe. Sem subsídios diretos à bilheteria ou campanhas de conscientização que despertem interesse genuíno do espectador, a regra pode levar exibidores a adotar estratégias defensivas, como reduzir o número de telas dedicadas a produções nacionais ou encurtar o período de exibição, contrariando o espírito da lei.

Possíveis caminhos apontados no Fórum de Tiradentes

Entre as soluções sugeridas, ganharam destaque: (1) estímulos à formação de público desde a educação básica, (2) financiamento a campanhas de marketing de lançamentos brasileiros, (3) parcerias entre produtoras, distribuidoras e operadores de cinema para compartilhar riscos e (4) ativação de circuitos comunitários pelo Cultura Viva, ampliando o alcance territorial das obras. A soma dessas ações poderia criar um ecossistema mais equilibrado, no qual a cota de tela cumpra o objetivo de promover a cinematografia nacional sem comprometer a sustentabilidade financeira das salas.

Agenda imediata: adesão dos estados à PNAB e definição de repasses

O próximo passo concreto citado pelos representantes do Ministério da Cultura é a adesão dos governos estaduais ao programa de ações continuadas da Política Nacional Aldir Blanc. Ao firmar compromisso, cada unidade da federação poderá direcionar até um décimo dos recursos a linhas permanentes de exibição, festivais ou formação de plateia. A efetividade desse dispositivo dependerá da rapidez com que as administrações locais formalizem sua participação e da definição dos critérios de distribuição, fatores que serão observados atentamente pelos exibidores ao longo do primeiro semestre.

zairasilva

Olá! Eu sou a Zaira Silva — apaixonada por marketing digital, criação de conteúdo e tudo que envolve compartilhar conhecimento de forma simples e acessível. Gosto de transformar temas complexos em conteúdos claros, úteis e bem organizados. Se você também acredita no poder da informação bem feita, estamos no mesmo caminho. ✨📚No tempo livre, Zaira gosta de viajar e fotografar paisagens urbanas e naturais, combinando sua curiosidade tecnológica com um olhar artístico. Acompanhe suas publicações para se manter atualizado com insights práticos e interessantes sobre o mundo da tecnologia.

Conteúdo Relacionado

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Go up

Usamos cookies para garantir que oferecemos a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você está satisfeito com ele. OK