Dilema dos nódulos polimetálicos: mineração de US$ 5 bilhões pode afetar produção de oxigênio no fundo do mar

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nódulos polimetálicos se tornaram o centro de um impasse global: enquanto prometem os metais essenciais para a transição energética, estudos recentes indicam que essas rochas submarinas também geram oxigênio em grande profundidade. O início da mineração comercial em 2027 coloca ciência, indústria e reguladores diante de um dilema ambiental que envolve cifras estimadas em US$ 5 bilhões.
- O que são nódulos polimetálicos e por que interessam ao mercado
- Descoberta do oxigênio sombrio: como os nódulos polimetálicos surpreenderam a ciência
- A corrida de 2027: cronograma, empresas e metas de produção
- Efeitos ecológicos possíveis: interrupção do oxigênio sombrio e plumas de sedimentos
- Regulação em formação: papel da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos
- Transição energética em xeque: bateria limpa ou oceano preservado?
- Próximo passo: definição final do Código de Mineração da ISA até 2027
O que são nódulos polimetálicos e por que interessam ao mercado
Formados ao longo de milhões de anos no leito oceânico, os nódulos polimetálicos lembram pedaços de carvão, mas concentram quatro metais críticos: níquel, cobalto, manganês e cobre. A combinação desses elementos é vital para a fabricação de baterias de íons de lítio, que alimentam veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia renovável. Com a demanda por tecnologias de baixo carbono em crescimento acelerado, as reservas continentais desses metais enfrentam limites sociais, ambientais e geopolíticos. Minerar no fundo do mar, especialmente na Zona Clarion-Clipperton (CCZ) no Pacífico, desponta como uma alternativa potencialmente mais barata e menos invasiva em relação ao desmatamento de florestas ou a extração em regiões já afetadas por conflitos.
Estimativas de mercado apontam que a primeira leva de exploração na CCZ pode movimentar mais de US$ 5 bilhões, valor que atrai empresas como a The Metals Company (TMC) e magnetiza investidores interessados em integrar cadeias de suprimento consideradas mais sustentáveis. A extensão da área de interesse soma cerca de 4,5 milhões de km² entre o Havaí e o México, região descrita como a maior reserva conhecida desses nódulos.
Descoberta do oxigênio sombrio: como os nódulos polimetálicos surpreenderam a ciência
Até recentemente, a biologia marinha defendia que a produção de oxigênio dependia exclusivamente da luz solar e, por isso, ocorria apenas em zonas iluminadas. Esse paradigma foi abalado por pesquisas conduzidas por universidades norte-americanas, entre elas a Northwestern, e publicadas em revistas como Nature Geoscience. Os estudos apontam que os nódulos polimetálicos atuam como “geobaterias”: por meio de eletrólise natural, eles quebram moléculas de água do mar e liberam oxigênio a cerca de 4.000 metros de profundidade, em um ambiente de escuridão permanente.
Os cientistas batizaram o fenômeno de “oxigênio sombrio”. Gráficos de voltagem obtidos em experimentos de campo demonstram que os nódulos geram corrente elétrica suficiente para sustentar o processo. Ao confirmar a existência desse “pulmão” independente do Sol, os pesquisadores alteraram a compreensão sobre ciclos biogeoquímicos e sobre a própria resiliência da vida marinha nas porções mais profundas do oceano.
A corrida de 2027: cronograma, empresas e metas de produção
O ano de 2027 passou a figurar como o marco oficial para o início da mineração em grande escala no fundo do mar. Companhias como a TMC estruturaram planos piloto, embarcações de coleta e sistemas de separação mineral especificamente voltados para a CCZ. O argumento corporativo enfatiza que a eletrificação global exigirá volumes inéditos de níquel, cobalto, manganês e cobre. Segundo as projeções empresariais, a cada tonelada de nódulos extraída torna-se possível fornecer insumos suficientes para baterias capazes de equipar milhares de veículos elétricos.
O potencial econômico estimulou uma corrida reminiscentes das antigas febres do ouro. Contudo, diferentemente das buscas terrestres, o novo “ouro negro do mar” encontra-se a profundidades abissais e depende de tecnologia subaquática complexa. Escavadeiras robotizadas e correias transportadoras submarinas fazem parte do protótipo de produção apresentado por mineradoras, que também planejam barcaças para desidratar e estocar o material antes de levá-lo ao continente.
Efeitos ecológicos possíveis: interrupção do oxigênio sombrio e plumas de sedimentos
O mesmo objeto de interesse econômico — os nódulos polimetálicos — sustenta a produção de oxigênio na escuridão oceânica. Pesquisas publicadas em 2025 e 2026 alertam que a remoção dessas rochas implica retirar a fonte de energia de comunidades bentônicas que dependem da eletrólise natural. Além da perda direta das “geobaterias”, o processo de mineração pode gerar plumas de sedimentos finos, capazes de cobrir organismos que habitam o fundo e prejudicar trocas gasosas indispensáveis para a vida marinha local.
Os impactos são classificados como “potencialmente irreversíveis” pelos autores dos estudos. Franz Geiger, um dos responsáveis pela pesquisa que evidenciou o oxigênio sombrio, comunicou publicamente a necessidade de reavaliar métodos de extração antes que a atividade comece. Embora exista consenso sobre a urgência de reduzir as emissões de dióxido de carbono na superfície, parte da comunidade científica teme que o benefício climático seja anulado se a mineração submersa comprometer a produção de oxigênio e a biodiversidade em zonas até então intactas.
Regulação em formação: papel da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos
A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) tem a responsabilidade de redigir o Código de Mineração que regerá toda atividade comercial abaixo da zona econômica exclusiva dos países. O texto ainda está em elaboração, mas a contagem regressiva até 2027 pressiona diplomatas e técnicos a definir parâmetros de impacto, limites de extração e mecanismos de fiscalização.
Organizações acadêmicas defendem uma moratória temporária, alegando que as lacunas científicas sobre o oxigênio sombrio e sobre a dinâmica do ecossistema abissal inviabilizam um licenciamento seguro no curto prazo. Do lado empresarial, investidores e fornecedores de tecnologia argumentam que a postergação ameaça o abastecimento futuro de metais essenciais e, por consequência, a própria viabilidade da transição energética. O resultado é um cenário de incerteza regulatória em que cada novo dado científico pode alterar prazos e exigências.
Transição energética em xeque: bateria limpa ou oceano preservado?
O dilema central emerge na convergência de dois objetivos considerados sustentáveis: reduzir a concentração de CO₂ na atmosfera e proteger ecossistemas pouco conhecidos. Para os defensores da mineração profunda, extrair metais no oceano evita o desmatamento de florestas tropicais, como ocorre em parte das operações de níquel na Indonésia, e limita problemas de direitos humanos relatados em minas terrestres de cobalto, especialmente na África. Para opositores, a ausência de conhecimento completo sobre o papel dos nódulos polimetálicos na produção de oxigênio exige precaução máxima.
Independentemente da posição, os fatos convergem em um ponto: a janela decisória é curta. As empresas contam com contratos preliminares e navios em fase de adaptação; os cientistas, com séries históricas ainda modestas sobre a magnitude e a variabilidade do oxigênio sombrio; a ISA, com prazos formais para publicar regulamentos.
Próximo passo: definição final do Código de Mineração da ISA até 2027
O futuro da CCZ e dos ecossistemas abissais depende da versão final do Código de Mineração que a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos pretende concluir antes do início previsto das atividades comerciais em 2027.

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