Tata Tancredo: como o papa negro da umbanda levou Iemanjá ao Réveillon de Copacabana e abriu caminhos contra a intolerância

Tata Tancredo: como o papa negro da umbanda levou Iemanjá ao Réveillon de Copacabana e abriu caminhos contra a intolerância
Getting your Trinity Audio player ready...

Tata Tancredo ocupa um lugar singular na história das religiões de matriz africana no Brasil. Entre o fim da década de 1940 e o início dos anos 1970, o sacerdote nascido em Cantagalo articulou rituais, fundou federações, compôs sambas e transformou a homenagem a Iemanjá em um acontecimento de massa que viria a se converter no Réveillon de Copacabana, hoje listado como o maior do planeta em registros internacionais. Sua trajetória conecta devoção, política, cultura popular e resistência a preconceitos que persistiam mesmo após a garantia constitucional de liberdade de culto.

Índice

O ponto de partida: quem foi Tata Tancredo

Tancredo da Silva Pinto nasceu em 1904 em uma família de ex-escravizados que já preservava práticas religiosas de origem africana. Ainda jovem, mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro, onde se consolidou como uma das principais lideranças umbandistas do século XX. O título “Tata”, pronunciado com acento tônico na última sílaba, é utilizado em linhagens de matriz banto para designar sacerdotes e reforça seu papel de guia espiritual. A força de sua atuação rendeu o apelido de “papa negro da umbanda”, expressão que sintetiza a autoridade alcançada entre terreiros e federações.

O contexto em que ele despontou era de vigilância estatal. O Código Penal de 1890 enquadrava como crime práticas tidas como “espiritismo ou magia”. Mesmo com a Constituição de 1946 reconhecendo a liberdade religiosa, a repressão policial e os estigmas sociais contra cultos afro-brasileiros continuaram. Nesse ambiente, Tata Tancredo empenhou-se em buscar legitimidade jurídica para os terreiros, articulando associações e federações que dessem voz organizada aos adeptos. Entre as entidades das quais participou estão a Confederação Espírita Umbandista do Brasil (1950) e a Congregação Espírita Umbandista do Brasil (1968).

A articulação de Tata Tancredo e o nascimento do rito Flores de Iemanjá

Em 2 de fevereiro, devotos de Iemanjá celebram a rainha do mar, orixá ligada à fertilidade, à maternidade e à proteção. No catolicismo popular, a mesma data é consagrada a Nossa Senhora dos Navegantes, o que ilustra o sincretismo religioso brasileiro. No entanto, foi na virada do ano que a homenagem à divindade alcançou dimensão nacional graças à iniciativa de Tata Tancredo.

Na passagem de 1949 para 1950, um pequeno grupo liderado pelo sacerdote vestiu-se de branco, levou tambores, fios de contas e oferendas até a praia de Copacabana e lançou flores ao mar poucos minutos antes da meia-noite. O evento ficou conhecido como “Flores de Iemanjá”. Até então, rituais semelhantes ocorriam em praias cariocas como Caju, Ramos e Ilha do Governador, mas nunca tinham sido articulados na orla mais célebre do Rio. A presença em Copacabana, bairro associado à elite, tornou-se estratégica: colocava o povo de terreiro em um espaço público de grande visibilidade.

A prática repetiu-se anualmente e ganhou corpo. Ao longo das décadas de 1950 e 1960, centenas de terreiros de todas as zonas da cidade passaram a organizar caravanas rumo à praia. Também aderiram lideranças vindas de São Paulo e Minas Gerais, bem como autoridades civis e policiais. O rito cresceu ao ponto de reunir mais de 800 casas religiosas e de atrair moradores abastados que, curiosos, desciam dos prédios para receber passes, deixar flores ou pular ondas. A festa deixou de ser percebida como estritamente umbandista e candomblecista para assumir caráter plural, abrindo caminho para os espetáculos musicais e o espetáculo pirotécnico que marcam o Réveillon.

Tata Tancredo, liberdade religiosa e ocupação do espaço público

Ao levar um ritual afro-brasileiro ao coração turístico da capital fluminense, Tata Tancredo atribuiu significado político à celebração. A ocupação da areia de Copacabana por milhares de fiéis em trajes brancos funcionava como afirmação identitária em meio ao racismo estrutural que marginalizava práticas de origem africana. Nas palavras de pesquisadores que investigam sua trajetória, a estratégia converteu a festa em uma “tática de luta” por reconhecimento.

Além do famoso réveillon, o sacerdote articulou outros eventos de grande escala, como a gira de umbanda realizada no Estádio do Maracanã em maio de 1965, que recebeu cerca de 40 mil participantes. Essas iniciativas mostravam ao poder público e à sociedade a força numérica e cultural dos terreiros, reforçando a demanda por respeito e igualdade de direitos.

No plano institucional, Tata Tancredo também atuou na elaboração de documentos enviados a organismos internacionais. Em 1956, ao lado de outras lideranças, apresentou à Organização das Nações Unidas um relatório descrevendo o cenário de intolerância religiosa no Brasil, internacionalizando a pauta dos adeptos.

Samba, carnaval e a influência cultural de Tata Tancredo

A presença do líder religioso ultrapassou os limites dos terreiros. Morador do morro de São Carlos, no bairro do Estácio, ele integrou o grupo conhecido como “os bambas do Estácio”, núcleo responsável pelo nascimento do samba moderno. Em 1928, participou da criação do bloco Deixa Falar, considerado a primeira escola de samba do país. No pós-guerra, ajudou a fundar a Federação Brasileira das Escolas de Samba (1947) e compôs sambas que entraram para a história.

Entre suas criações musicais está “General da Banda”, parceria com Sátiro de Melo e José Alcides que dominou o Carnaval de 1950 na voz de Blecaute. Parte dos direitos autorais gerados pela canção financiou a Confederação Espírita Umbandista do Brasil, revelando como o universo do samba e da religiosidade se retroalimentavam em sua trajetória.

Seu envolvimento com o carnaval carioca segue repercutindo: na próxima temporada, a escola de samba Estácio de Sá, agremiação da Série Ouro, levará à Marquês de Sapucaí o enredo “Tata Tancredo – O Papa Negro no Terreiro do Estácio”, concebido com a consultoria de historiadores que pesquisam o sacerdote há mais de uma década.

Reconhecimento contemporâneo do legado de Tata Tancredo

O debate sobre a origem do Réveillon de Copacabana voltou a ganhar fôlego recentemente, quando a prefeitura do Rio instalou um palco com programação gospel na festa da virada e parte das lideranças de religiões de matriz africana criticou a iniciativa. Elas argumentaram que a história do evento remete à luta de Tata Tancredo contra a intolerância, pedindo coerência com essa memória.

Diante da repercussão, o poder municipal anunciou a intenção de erguer uma estátua em homenagem ao sacerdote. A medida ainda depende de definições administrativas, mas evidencia o reconhecimento tardio da influência exercida pelo líder umbandista na cultura da cidade.

Paralelamente, pesquisadores continuam a registrar sua trajetória. Teses de mestrado e doutorado analisam desde sua defesa da umbanda omolocô — vertente que combina elementos de tradições africanas centro-ocidentais, práticas indígenas, catolicismo popular e kardecismo — até sua resistência ao processo de “desafricanização” observado entre as décadas de 1940 e 1960. Obras de sua autoria, como “Origens da Umbanda” (1970) e “Negro e Branco na Cultura Religiosa Afrobrasileira” (1976), seguem sendo referência para estudiosos da área.

Hoje, o Réveillon de Copacabana recebe aproximadamente cinco milhões de pessoas em toda a cidade, metade concentrada na famosa praia, segundo registros do Guinness World Records. Embora o evento tenha se transformado em espetáculo turístico global, suas raízes permanecem vinculadas à noite em que um pequeno grupo, liderado por Tata Tancredo, decidiu lançar flores a Iemanjá em 1949. A próxima homenagem pública prometida ao sacerdote — a instalação de uma estátua — será acompanhada de perto pelos praticantes de umbanda e candomblé, que veem no reconhecimento oficial mais um passo na longa história de combate à intolerância religiosa iniciada por ele.

zairasilva

Olá! Eu sou a Zaira Silva — apaixonada por marketing digital, criação de conteúdo e tudo que envolve compartilhar conhecimento de forma simples e acessível. Gosto de transformar temas complexos em conteúdos claros, úteis e bem organizados. Se você também acredita no poder da informação bem feita, estamos no mesmo caminho. ✨📚No tempo livre, Zaira gosta de viajar e fotografar paisagens urbanas e naturais, combinando sua curiosidade tecnológica com um olhar artístico. Acompanhe suas publicações para se manter atualizado com insights práticos e interessantes sobre o mundo da tecnologia.

Conteúdo Relacionado

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Go up

Usamos cookies para garantir que oferecemos a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você está satisfeito com ele. OK