Suposta operação russa em Angola: acusação detalha rede de desinformação e tentativa de interferir nas eleições
Uma investigação conduzida pelo Serviço de Investigação Criminal de Angola sustenta que uma operação russa em Angola atuou para financiar protestos, espalhar desinformação e influenciar a eleição presidencial marcada para o próximo ano. Dois cidadãos russos — o consultor político Igor Ratchin e o tradutor Lev Lakshtanov — aguardam julgamento em Luanda, ao lado dos angolanos Amor Carlos Tomé e Francisco “Buka Tanda” Oliveira. O processo inclui acusações que vão de terrorismo a espionagem e enquadra, ainda, a atuação de uma alegada rede clandestina chamada Africa Politology, descrita pelos promotores como herdeira do extinto Grupo Wagner.
- Quem são os acusados na operação russa em Angola
- Como a suposta operação russa em Angola teria sido montada
- Pagamentos, desinformação e protestos ligados à operação russa em Angola
- Reação das defesas e questionamentos à denúncia
- Contexto geopolítico: Rússia, Angola e os interesses por trás da operação russa em Angola
- Próximos passos do processo judicial
Quem são os acusados na operação russa em Angola
Igor Ratchin é apontado como o principal articulador da suposta célula. Segundo a acusação, ele já trabalhou em campanhas eleitorais regionais na Rússia que resultaram em vitórias de seus clientes, experiência que teria sido usada para estruturar ações em território angolano. Lev Lakshtanov, tradutor radicado em Angola desde a era soviética, teria oferecido suporte linguístico e logístico.
No plano local aparecem dois colaboradores. O jornalista esportivo Amor Carlos Tomé, funcionário da Televisão Pública de Angola (TPA), é acusado de coletar informações sobre o cenário político e ajudar a publicar conteúdos favoráveis à suposta rede. Já Francisco Oliveira, militante juvenil da União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita) e fluente em russo após estudar engenharia química em Moscou entre 2015 e 2019, teria apresentado líderes políticos a Ratchin e Lakshtanov.
Todos os réus negam participação na Africa Politology ou vínculo com o Grupo Wagner, organização paramilitar criada por Yevgeny Prigozhin — empresário morto em 2023 e peça central na incursão militar russa na Ucrânia até liderar um motim contra Moscou.
Como a suposta operação russa em Angola teria sido montada
De acordo com os promotores, o primeiro grupo ligado à operação russa em Angola chegou a Luanda em 2024, alegando interesse em abrir uma “Casa Russa” cultural — projeto que jamais saiu do papel. Entre os recém-chegados estava Maxim Shugalei, operador político sancionado pela União Europeia por supervisionar campanhas de desinformação em diversos países africanos. Ele viajou acompanhado do tradutor Samer Suaifan, que reconheceu conhecer os réus, enquanto Shugalei negou relação direta.
O Ministério Público afirma que, entre 2024 e 2025, a rede realizou múltiplos pagamentos a jornalistas e analistas locais. A finalidade, aponta a denúncia, era disseminar textos favoráveis à Rússia, criticar projetos patrocinados pelo Ocidente e reduzir a confiança da população angolana no governo de João Lourenço. As transações totalizariam mais de US$ 24 mil, quantia considerada pelos investigadores suficiente para impulsionar publicações em sites e redes sociais.
Entre os exemplos listados está uma página no Facebook que imitava o portal “Angola 24 Horas” e se definia como satírica. Ali foram veiculadas postagens alertando que o país poderia ser “arrastado” para o conflito na Ucrânia e sugerindo que o Corredor do Lobito — ferrovia apoiada por capitais ocidentais para escoar minerais da África Central — entregaria a empresas estrangeiras “acesso quase total” aos recursos de Angola. Textos idênticos apareceram depois no site “Lil Pasta News”. A publicação adiantou que os artigos chegaram por intermédio de terceiros e que não houve pagamento registrado.
Pagamentos, desinformação e protestos ligados à operação russa em Angola
A promotoria conecta as ações on-line ao cenário de instabilidade observado em julho do ano passado. Na ocasião, uma greve de taxistas em Luanda escalonou para os protestos mais violentos registrados desde o fim da guerra civil entre MPLA e Unita, em 2002. Segundo dados oficiais, 29 pessoas morreram e mais de 1.200 foram presas. O dossiê obtido pela BBC sustenta que Ratchin e Lakshtanov orquestraram os atos, citando anotações recuperadas dos celulares dos réus e fotografias feitas durante as manifestações.
Ativistas de direitos humanos e parte da imprensa local contestam essa conclusão. Para eles, os protestos tiveram origem no descontentamento popular com o alto custo de vida; quase 40% dos angolanos vivem com menos de US$ 3 diários, de acordo com o Banco Mundial. A Human Rights Watch, por exemplo, sublinha que as marchas refletiram queixas internas e não ordens externas.
Apesar dos contrapontos, o Ministério Público defende que a propagação de conteúdos alarmistas na internet, o financiamento de reportagens e os contatos políticos formam um conjunto coerente voltado a minar a imagem do Executivo e favorecer candidatos mais alinhados a Moscou.
Reação das defesas e questionamentos à denúncia
Os advogados dos quatro acusados classificam a peça acusatória como carente de “fatos concretos”. Eles alegam que:
• Não há comprovação de que Ratchin tenha encomendado artigos ou efetuado pagamentos.
• Lakshtanov limitou-se a tarefas de tradução e nunca fez parte de células de influência.
• Oliveira e Tomé teriam participado apenas de iniciativas culturais, como a planejada Casa Russa.
• A denúncia contém erros, como a citação de Shugalei em Angola na mesma data em que ele estava detido no Chade.
Especialistas independentes também apontam lacunas. O jurista Rui Verde, ligado ao Centro de Estudos Africanos da Universidade de Oxford, observa que o desafio será provar que as condutas listadas obedecem a um roteiro deliberado de subversão, e não a iniciativas isoladas ou fortuitas.
Contexto geopolítico: Rússia, Angola e os interesses por trás da operação russa em Angola
Angola desponta como o segundo maior produtor de petróleo da África Subsaariana e relevante exportador de diamantes, fatores que historicamente atraem potências externas. Durante a Guerra Fria, Moscou manteve forte presença militar e econômica no país. Nos últimos anos, contudo, o presidente João Lourenço aproximou-se de parceiros ocidentais. Empresas russas como a mineradora de diamantes Alrosa e o banco VTB deixaram o território após sanções internacionais ligadas à guerra na Ucrânia.
Nesse cenário de afastamento, analistas veem na operação russa em Angola um eventual esforço para reaproximar Luanda de Moscou. Alex Vines, diretor do programa África do European Council on Foreign Relations, interpreta a denúncia como indício de preocupação do Kremlin com a rota pró-Ocidente adotada por Lourenço. Para a acusação, a estratégia envolveria tanto a difusão de mensagens simpáticas à Rússia quanto o apoio financeiro a figuras dispostas a rever alianças externas.
Entre os políticos citados na investigação estão o general Higino Carneiro, peso pesado do MPLA, e o líder da Unita, Adalberto Costa Júnior. Promotores afirmam que Carneiro teria recebido oferta de até US$ 15 milhões em recursos de campanha, além de consultoria estratégica e segurança. Nem Carneiro nem Costa Júnior confirmaram qualquer reunião; representantes da Unita qualificam as alegações como “falsas” e politicamente motivadas.
Próximos passos do processo judicial
Ratchin, Lakshtanov, Tomé e Oliveira enfrentam, respectivamente, 11, 11, 9 e 5 acusações que incluem terrorismo, espionagem e tráfico de influência. Se condenados, podem cumprir pena em Angola ou ser transferidos para a Rússia, decisão que depende de acerto diplomático ainda incerto. Fontes próximas à chancelaria russa afirmam que Moscou não demonstra urgência em intervir, argumentando que os acusados não executavam “tarefas oficiais do Estado”.
O julgamento, aguardado há oito meses, deverá começar assim que o tribunal concluir a fase de instrução, momento em que serão apreciadas as contestações sobre supostas inconsistências temporais e documentais. Até lá, permanecem válidos os principais pontos de suspeita: pagamentos rastreados, textos publicados e reuniões políticas mencionadas pelo Ministério Público.
A próxima data de relevância no processo é a audiência preliminar prevista para o início do segundo semestre, quando a corte decidirá se aceita integralmente a denúncia ou se elimina acusações por falta de prova, definindo o rumo de uma operação russa em Angola que já repercute muito além das fronteiras do país.

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