Selic em 15% ao ano: setor produtivo reage à quinta manutenção consecutiva do Copom

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O Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu manter a Selic em 15% ao ano pela quinta reunião consecutiva. A determinação, anunciada na noite desta quarta-feira, provocou forte reação de representantes da indústria, da construção civil, do comércio e de entidades de trabalhadores, que enxergam a manutenção dos juros como fator de encarecimento do crédito, restrição à atividade econômica e ameaça ao nível de emprego.
Selic em 15% ao ano: o que foi decidido pelo Copom
O Copom optou por preservar a taxa básica de juros no patamar de 15% ao ano, nível mais elevado desde 2006. O órgão justificou a decisão citando inflação ainda acima do objetivo oficial, incertezas fiscais internas e riscos externos. Com o resultado, o ciclo de estabilidade iniciado quatro encontros atrás completa cinco reuniões sem alteração, apesar da desaceleração recente da atividade econômica observada por diversos segmentos produtivos.
A expectativa predominante no mercado financeiro já apontava para a continuidade do patamar atual. Mesmo assim, setores empresariais organizados e centrais trabalhistas defenderam que já há espaço para o início de uma flexibilização monetária, alegando que as projeções de inflação apresentadas pelo próprio Banco Central indicam convergência ao centro da meta nos próximos anos.
Reação da indústria à Selic em 15% ao ano
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) classificou o nível dos juros como “insustentável” para quem produz bens e serviços no país. Na avaliação da entidade, o custo financeiro imposto pela Selic atual ignora a trajetória de desaceleração dos preços ao consumidor. O presidente da CNI, Ricardo Alban, enfatizou que a manutenção prolongada da taxa básica amplia a desaceleração do crescimento e, portanto, deveria ser revertida já na próxima reunião do Copom.
Para fundamentar a posição, a CNI ressaltou que a inflação oficial — medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — fechou 2025 em 4,26%, abaixo do teto de 4,5% definido para o período. O boletim Focus, publicação semanal que compila projeções do mercado, aponta ainda inflação de 4% para 2026, convergindo gradualmente para 3% nos anos seguintes. Mesmo diante desse cenário, a taxa real de juros permanece próxima de 10,5% ao ano, aproximadamente 5,5 pontos percentuais acima da taxa neutra estimada pela própria autoridade monetária.
Com base nesses números, a confederação argumenta que a política atual representa um descompasso entre o custo do dinheiro e a necessidade de dinamizar a produção industrial. Segundo a entidade, o resultado final costuma refletir-se em menor disposição das empresas para investir, contratar ou expandir capacidade.
Construção civil projeta impactos do juro Selic em 15% ao ano
O segmento de construção civil expressou preocupação semelhante. Para Renato Correia, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a taxa em vigor restringe o crédito imobiliário, reduz a demanda por novos empreendimentos e dificulta a viabilização de projetos de longo prazo. A cadeia da construção, destaca o dirigente, depende de financiamento abundante e acessível tanto para incorporadoras como para compradores finais; juros elevados comprimem essa disponibilidade e tornam o financiamento menos atrativo.
Correia acrescentou que a política monetária contracionista afeta não apenas a entrega de obras, mas também a geração de vagas formais em toda a cadeia de fornecedores — que engloba fabricantes de materiais, transportadores e prestadores de serviços técnicos. A CBIC calcula que a desaceleração da atividade ocasionada pelo custo do capital pode ter reflexos prolongados sobre emprego e renda nos centros urbanos.
Perspectiva do comércio e análise de riscos
A Associação Comercial de São Paulo (ACSP) adotou tom mais moderado, interpretando a decisão como demonstração de cautela. O economista da entidade, Ulisses Ruiz de Gamboa, reconheceu que a atividade econômica dá sinais de enfraquecimento, mas relembrou que a inflação e suas expectativas “ainda se mantêm acima da meta”. Segundo ele, o conteúdo do comunicado do Copom divulgado após a reunião será determinante para indicar se o início do ciclo de cortes é plausível já no curto prazo.
Mesmo sem condenar frontalmente a manutenção da Selic, a ACSP observa que varejistas sentem o impacto da fraca demanda à medida que consumidores enfrentam crédito caro e renda real limitada. Para o setor, a combinação de juros altos e ritmo econômico lento impõe desafios adicionais ao planejamento de estoques, prazos de pagamento e expansão de lojas.
Centrais sindicais apontam efeitos da Selic no emprego
Entre as organizações de trabalhadores, o posicionamento foi mais contundente. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) avaliou que a decisão mantém o Brasil em posição de destaque no ranking de maiores juros reais do mundo, penalizando a população ao encarecer o crédito e reduzir o consumo. Juvandia Moreira, presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), afirmou que o custo elevado do dinheiro resulta em queda de contratações e fragilização do mercado de trabalho.
A entidade enfatizou cálculo segundo o qual cada ponto percentual acrescido à Selic eleva em cerca de R$ 50 bilhões a despesa do governo com o serviço da dívida pública, pressionando o orçamento em áreas sociais sensíveis. Na mesma linha, a Força Sindical classificou a decisão como “irresponsabilidade social”. O presidente Miguel Torres acusou o Banco Central de favorecer a especulação financeira em detrimento do setor produtivo, observando que famílias endividadas sofrem com encarecimento de parcelas e retração das oportunidades de geração de renda.
Expectativas de inflação e taxa real de juros
Conforme destacado pela CNI, a deflação parcial observada nas últimas medições do IPCA e as projeções do Focus sugerem trajetória de preços em direção ao centro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. Ainda assim, o juro real — diferença entre a Selic nominal e a inflação projetada — permanece acima de 10%. Esse patamar, segundo as entidades produtivas, supera em mais de 5 pontos percentuais a taxa real considerada neutra pelo próprio Banco Central, ou seja, aquela que não estimula nem contrai a atividade econômica.
O contraste entre inflação em queda e juros estacionados alimenta o debate sobre a postura do Copom. Para o setor produtivo, o custo do capital deveria já refletir a melhora nas perspectivas de preços, abrindo espaço para retomada de investimentos. Nas palavras de lideranças industriais e sindicais, adiantar o ciclo de redução seria medida capaz de reaquecer a produção, destravar crédito e aliviar pressões sobre o orçamento público.
Apesar das críticas, a autoridade monetária optou por preservar o aperto. Assim, a próxima reunião do Copom, ainda sem data informada no comunicado, passa a ser observada como momento-chave para verificar se os avanços no combate à inflação serão suficientes para inaugurar uma trajetória de cortes na Selic.

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