Por que as focas dão tapas na própria barriga? Entenda a função do gesto nos oceanos

Focas dão tapas na própria barriga em cenas que parecem divertidas aos olhos humanos, mas o ato reúne funções vitais para a espécie. Observações de campo e estudo publicado na revista Marine Mammal Science indicam que o comportamento atua como forma de comunicação acústica, exibição de vigor, mecanismo de resfriamento corporal e até método de higiene durante a troca anual de pelagem.
- Comunicação subaquática: quando as focas dão tapas na própria barriga
- Força e dominância: o tapa na barriga das focas como exibição de vigor
- Termorregulação: como o tapa na barriga das focas evita superaquecimento
- Higiene e muda catastrófica: alívio para pele e pelagem
- Aprendizado em cativeiro: quando o gesto vira reforço positivo
- Frequência, variações individuais e fatores ambientais
Comunicação subaquática: quando as focas dão tapas na própria barriga
O oceano é um ambiente ruidoso, repleto de sons de correntes, estalos de crustáceos e vocalizações de outros mamíferos marinhos. Nesse cenário, gestos capazes de gerar vibrações fortes ganham valor estratégico. Ao bater a nadadeira contra o tórax, a foca produz um som de alta frequência que se propaga bem debaixo d’água. A mensagem chega a indivíduos distantes e cumpre três funções descritas pelos pesquisadores: marcar presença na colônia, indicar disposição para interação social e coordenar movimentos coletivos durante caçadas.
O registro em vídeo feito pelo mergulhador Ben Burville, da Universidade de Newcastle, foi fundamental para comprovar a eficiência acústica dessa batida. Os cientistas analisaram as filmagens e mediram a intensidade do ruído, confirmando que o som atravessa o barulho ambiente e funciona como sinal sonoro inequívoco dentro do grupo.
Força e dominância: o tapa na barriga das focas como exibição de vigor
Em muitas sociedades animais, ações ruidosas substituem combates físicos perigosos. No caso dos pinípedes, o impacto produzido pelo próprio corpo cumpre papel semelhante ao famoso “bater no peito” dos gorilas. Como o movimento exige coordenação muscular e reserva de energia, ele se converte em evidência direta de força genética. Machos que executam batidas mais altas tendem a intimidar competidores de menor porte e atrair fêmeas durante a época reprodutiva, reduzindo a necessidade de confrontos que poderiam causar ferimentos graves.
O estudo publicado na Marine Mammal Science classificou o gesto como uma exibição de dominância. A equipe observou que o tapa é mais frequente em períodos de disputa territorial, variando segundo sexo e estação do ano. Dessa forma, além de comunicação, o comportamento ajuda a estruturar a hierarquia interna das colônias.
Termorregulação: como o tapa na barriga das focas evita superaquecimento
Focas apresentam uma espessa camada de gordura, fundamental para sobreviver em águas frias. Contudo, esse isolamento térmico se torna um problema quando o animal permanece fora d’água ou em dias ensolarados. Nesses momentos, o tapa na barriga das focas funciona como solução simples e eficiente de resfriamento.
Ao percutir a pele úmida, a vibração estimula a circulação sanguínea superficial e favorece a evaporação da umidade, dissipando calor. Assim, o gesto ajuda o sangue que circula logo abaixo da derme a trocar temperatura com o meio externo, evitando estresse térmico. O efeito lembra um sistema de ventilação improvisado, indispensável para espécies que não suam e não dispõem de glândulas específicas para perder calor.
Higiene e muda catastrófica: alívio para pele e pelagem
Todos os anos, focas passam por um processo intenso de troca de pelos, conhecido como muda catastrófica. A pelagem antiga se solta em grandes placas, deixando a camada de pele exposta e sensível. A coceira resultante leva o animal a se autopercutir com ainda mais frequência. O impacto ajuda a desprender pelos mortos, remover parasitas e eliminar fragmentos de algas grudados no corpo.
Como não possuem membros articulados capazes de alcançar todo o dorso, as focas utilizam a nadadeira frontal como principal ferramenta de higiene. O tapa na barriga, portanto, multiplica-se nesse período, acelerando a renovação do isolamento térmico natural e diminuindo irritações cutâneas.
Aprendizado em cativeiro: quando o gesto vira reforço positivo
Em ambientes controlados, como aquários e centros de reabilitação, cuidadores costumam oferecer alimento após comportamentos considerados “fofos” pelo público. A foca, animal pertencente à subordem Caniformia e reconhecida pela inteligência, aprende rapidamente essa associação. O resultado é a frequência aumentada do tapa na barriga em troca de peixes. Nesse contexto, o movimento deixa de ser apenas instinto e ganha função instrumental: provocar humanos para receber recompensa.
Apesar dessa adaptação, cientistas frisam que, na natureza, o gesto preserva seus propósitos originais. A utilidade social, térmica e higroscópica continua sendo a motivação dominante fora do cativeiro.
Frequência, variações individuais e fatores ambientais
Pesquisadores de biologia marinha identificaram que a intensidade e a incidência dos tapas variam de acordo com gênero, idade, ambiente e estação. Machos adultos durante a temporada de acasalamento apresentam picos de atividade, enquanto juvenis recorrem ao gesto principalmente para coordenação em caçadas coletivas. Em regiões com temperatura da água mais elevada, o comportamento de termorregulação surge com maior constância, demonstrando a flexibilidade adaptativa do ato.
As observações também indicam que colônias instaladas em áreas de tráfego humano ou industrial amplificam a batida para superar ruídos externos. Assim, o mesmo gesto cumpre papéis delicadamente ajustados às condições sonoras e climáticas de cada habitat.
O conjunto de evidências reunidas na Marine Mammal Science consolida o tapa na barriga como estratégia multifuncional de sobrevivência das focas, crucial para comunicação, defesa de território, controle de temperatura e manutenção da saúde dérmica.

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