Morte de frei Sérgio Görgen: entenda a trajetória do frade que se tornou símbolo da luta camponesa

Morte de frei Sérgio Görgen: entenda a trajetória do frade que se tornou símbolo da luta camponesa
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O falecimento de frei Sérgio Görgen, ocorrido aos 70 anos, encerra a história de um dos personagens mais influentes na organização social do campo brasileiro. Sobrevivente do Massacre da Fazenda Santa Elmira em 1989, fundador do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) em 1996, ex-deputado estadual e frade franciscano, ele deixa um legado que atravessa dimensões políticas, espirituais e literárias, marcado pela defesa intransigente da soberania alimentar e da dignidade das famílias camponesas.

Índice

Quem foi frei Sérgio Görgen e sua trajetória franciscana

Nascido no Rio Grande do Sul, frei Sérgio Görgen ingressou na Ordem dos Frades Menores, ramo franciscano da Igreja Católica, adotando o carisma de São Francisco de Assis como norte para a vida missionária. A convivência com comunidades rurais logo transformou a vocação religiosa em compromisso social. O frade combinou atividades pastorais com ações de formação política, incentivando pequenos produtores a se organizarem para reivindicar direitos básicos, como o acesso à terra, a assistência técnica e o crédito rural.

Ao longo de décadas, a atuação espiritual esteve sempre ligada à prática concreta. Encontros de base, celebrações religiosas em acampamentos e retiros formativos foram ferramentas usadas para fortalecer tanto a fé quanto a consciência de classe do público agricultor. Essa fusão entre religiosidade e organização social diferenciou Görgen no cenário dos movimentos populares.

Do Massacre da Fazenda Santa Elmira à fundação do MPA: marcos da vida de frei Sérgio Görgen

O primeiro grande ponto de inflexão na trajetória de frei Sérgio Görgen ocorreu em 1989, quando ele escapou com vida do Massacre da Fazenda Santa Elmira. A ação violenta, que vitimou trabalhadores rurais durante uma ocupação por reforma agrária, evidenciou a gravidade dos conflitos fundiários no país. A experiência endureceu sua determinação em buscar novas formas de mobilização social.

Sete anos depois, em 1996, as secas prolongadas e o isolamento político vivenciado pelos agricultores familiares impulsionaram a criação do Movimento dos Pequenos Agricultores. O MPA nasceu como resposta à carência de representatividade específica para produtores de menor escala, distintos tanto dos assalariados rurais quanto do agronegócio. Görgen foi um de seus idealizadores, orientando a entidade em três eixos estruturantes: fortalecimento da produção agroecológica, combate à fome e defesa da reforma agrária.

Durante as duas primeiras décadas de funcionamento, o movimento consolidou núcleos em vários estados, articulando feiras de produtos da agricultura familiar, campanhas de doação de alimentos e debates públicos sobre políticas agrícolas. A presença constante do frade nas bases garantiu coesão interna e legitimidade externa à organização.

Atuação parlamentar e conexão com o PT: legado político de frei Sérgio Görgen

Além do trabalho nas comunidades, frei Sérgio Görgen assumiu mandato como deputado estadual no Rio Grande do Sul, trazendo para a arena legislativa a pauta dos agricultores camponeses. Em 2000 filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT), alinhando-se a um projeto político que incluía a reforma agrária entre suas prioridades.

Na Assembleia gaúcha, concentrou esforços em propostas que visavam garantir linhas de crédito específicas para pequenos produtores, ampliar a assistência técnica pública e regulamentar mercados institucionais para a aquisição de alimentos da agricultura familiar. Embora não tenha alcançado todas as metas, a passagem pelo parlamento serviu para inserir definitivamente os temas camponeses no debate estadual.

A proximidade com lideranças nacionais do PT reforçou sua presença em lutas de alcance federal. Anos depois, já fora do mandato, ele prestou apoio espiritual ao então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a prisão do líder petista em Curitiba, reconhecendo publicamente a importância da solidariedade camponesa na resistência política.

Soberania alimentar, agroecologia e combate à fome: causas defendidas por frei Sérgio Görgen

O conceito de soberania alimentar foi central na produção intelectual de frei Sérgio Görgen. Para o frade, garantir que cada povo pudesse determinar suas estratégias de produção, distribuição e consumo de alimentos era condição para a justiça social. Essa visão transpareceu em títulos como “Trincheiras da Resistência Camponesa” e “A Gente Não Quer Só Comida”, obras em que ele denunciou a exploração do trabalho rural e apresentou caminhos para um modelo agroecológico, voltado ao abastecimento interno.

A militância concreta replicou o pensamento teórico. O MPA, sob sua orientação, organizou greves de fome, marchas e acampamentos em frente a sedes de governos estaduais e ministérios, cobrando políticas públicas contra a insegurança alimentar. Em períodos de estiagem, as caravanas lideradas pelo movimento distribuíram alimentos e sementes crioulas, mantendo viva a prática de solidariedade defendida pelo religioso.

Ao estabelecer vínculos entre fé, produção de alimentos saudáveis e direitos econômicos, Görgen ajudou a popularizar o termo “agroecologia” entre agricultores de base, autoridades e consumidores urbanos. O tema ganhou espaço na agenda nacional, impulsionando feiras e programas institucionais que valorizam sistemas de cultivo sem agrotóxicos.

Repercussão nacional e homenagens após a morte de frei Sérgio Görgen

A notícia da morte de frei Sérgio Görgen repercutiu em diversas esferas do poder público e nos movimentos sociais. Organizações do campo, como o próprio MPA, destacaram a lacuna que se abre na representação dos agricultores familiares, mas enfatizaram que o legado de mobilização permanecerá. Mensagens vindas de ministérios, parlamentares e lideranças religiosas convergiram em reconhecer a coerência entre discurso e prática na trajetória do frade.

No âmbito federal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recordou as visitas que recebeu do religioso durante a reclusão em Curitiba, ressaltando o papel da espiritualidade como fonte de esperança em momentos de adversidade. Já a pasta responsável pelas Relações Institucionais sublinhou o empenho de Görgen na promoção da agroecologia como estratégia de desenvolvimento rural, associando sua figura à busca permanente por justiça social no campo.

Entre as bases camponesas, vigílias e celebrações litúrgicas foram convocadas para rememorar a vida do frade, reiterando o compromisso com as metas que ele abraçou: reforma agrária, alimentação saudável e renda digna para quem cultiva a terra. A continuidade dessas ações deverá incluir a ampliação de projetos de feiras livres, a defesa das sementes tradicionais e o diálogo permanente com o poder público.

Produção literária e influência intelectual de frei Sérgio Görgen no movimento camponês

Embora reconhecido principalmente pela liderança de massa, frei Sérgio Görgen deixou contribuição expressiva na literatura política brasileira. Seus livros foram utilizados em cursos de formação de agentes pastorais e em disciplinas universitárias dedicadas aos estudos agrários. As publicações combinam relatos de campo, reflexões teológicas e análises socioeconômicas, oferecendo material de referência para pesquisadores e militantes.

O impacto dessas obras ultrapassou o meio acadêmico. Trechos circulavam em jornais de sindicatos rurais, cartilhas de movimentos populares e pauta de seminários nacionais voltados à agricultura familiar. Dessa forma, a dimensão intelectual de Görgen complementou sua atuação presencial, criando um repertório teórico que orientou debates sobre produção, mercado e poder no campo.

Perspectivas para o Movimento dos Pequenos Agricultores após a morte de frei Sérgio Görgen

Sem a presença física de um de seus fundadores, o MPA enfrenta o desafio de manter coesos mais de 20 anos de acumulação política. A organização planeja congressos estaduais para reavaliar diretrizes, fortalecer coordenações regionais e definir novas estratégias de mobilização. Entre as prioridades estão a ampliação de projetos de compra pública de alimentos da agricultura familiar e a defesa de políticas de crédito diferenciadas para pequenos produtores.

Internamente, a entidade destaca que a memória de frei Sérgio Görgen funcionará como eixo de unidade, lembrando que a luta camponesa é histórica e coletiva. Em nível nacional, a ausência do frade reforça o protagonismo de novas lideranças, que deverão negociar com governos e parlamentares a continuidade das pautas de soberania alimentar, reforma agrária e agroecologia.

Com a morte de frei Sérgio Görgen, o Brasil perde um articulador fundamental entre fé, política e produção de alimentos. O próximo passo para o Movimento dos Pequenos Agricultores será o congresso interno já anunciado pela direção nacional, ocasião em que o legado do frade deverá orientar as linhas estratégicas para os próximos anos.

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