Literatura brasileira no exterior: dados, obstáculos e avanços que explicam seu ritmo de internacionalização

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A literatura brasileira no exterior ainda não alcançou a mesma projeção conquistada pelo cinema e pela música do país. O contraste aparece em feiras internacionais, estatísticas de traduções e na rotina de agentes que tentam vender direitos autorais além-fronteiras. Este artigo detalha os fatores que sustentam essa diferença, apresenta dados oficiais de programas de incentivo, mostra o papel de editoras e agentes e relembra autores que já romperam barreiras linguísticas.
- Panorama atual da literatura brasileira no exterior
- Programas de incentivo à tradução: estrutura, valores e alcance
- Agentes literários e editoras: como atuam para levar a literatura brasileira ao exterior
- Casos de autores brasileiros que venceram a barreira linguística
- Desafios logísticos, financeiros e de visibilidade
- Perspectivas e próximos passos
Panorama atual da literatura brasileira no exterior
A expressão “literatura brasileira no exterior” resume um cenário marcado por avanços pontuais e uma presença ainda modesta nas grandes cadeias de tradução. De 1886 a 1994, apenas 164 títulos de 80 autores nacionais chegaram ao inglês, média de uma obra e meia por ano. A demanda cresceu nas últimas três décadas, mas continua inferior à visibilidade obtida por filmes brasileiros premiados internacionalmente ou por canções tocadas em rádios e serviços de streaming de vários países.
A falta de familiaridade de mercados hegemônicos com o português segue como barreira principal. Editoras estrangeiras priorizam idiomas de maior circulação, e o português, falado majoritariamente no Brasil e em Portugal, não figura entre os mais traduzidos. Diante desse quadro, iniciativas oficiais e privadas tentam reforçar a presença nacional em feiras especializadas, com resultados progressivos, porém aquém do esperado por profissionais do setor.
Programas de incentivo à tradução: estrutura, valores e alcance
O principal instrumento público para apoiar a literatura brasileira no exterior é o Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros, criado em 1991. O orçamento atual de aproximadamente R$ 2 milhões é compartilhado pela Fundação Biblioteca Nacional, ligada ao Ministério da Cultura, e pelo Instituto Guimarães Rosa, vinculado ao Ministério das Relações Exteriores.
O edital oferece subsídio de até US$ 6.000 para traduções inéditas e de até US$ 3.000 para reedições, além de contemplar publicações em outros países de língua portuguesa. Desde 1991, 1.595 obras receberam apoio, distribuídas por 51 idiomas, o que corresponde a uma média anual de 47 projetos. Para efeito comparativo, o Instituto Goethe, da Alemanha, registrou 7.000 traduções em 50 anos (média de 140 anuais), enquanto o Instituto Francês apoiou 26.000 livros desde 1990 (742 por ano).
O programa realiza seleção anual; em 2025 aprovou 133 projetos, incluindo oito edições estrangeiras de Machado de Assis, traduções de Conceição Evaristo em três países e uma versão iraniana de Carla Madeira. O diretor do Instituto Guimarães Rosa, embaixador Marco Antonio Nakata, destaca que a bolsa é “a coisa menos burocrática possível” e atribui eventuais limitações ao tamanho da equipe e dos recursos financeiros disponíveis. Mesmo elogiando a iniciativa, editoras solicitam frequência maior e orçamentos mais robustos.
Agentes literários e editoras: como atuam para levar a literatura brasileira ao exterior
A engrenagem da literatura brasileira no exterior depende de um número restrito de profissionais com credibilidade internacional. Entre eles estão Lucia Riff, fundadora da Agência Riff; Gustavo Faraon, da Dublinense; Marianna Teixeira Soares, da MTS Agência; e o publisher Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, que criou uma divisão interna de vendas de direitos logo após fundar a casa editorial.
Esses agentes participam regularmente de eventos como a Feira do Livro de Frankfurt, principal ponto de negociação de direitos autorais do mundo. Além do esforço individual, existe o projeto Brazilian Publishers, gerido pela Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Apex-Brasil, que subsidia a participação de editoras em feiras internacionais. Em 2024, o Brazilian Publishers apoiou 131 presenças em eventos fora do país, embora não custeie passagens aéreas nem hospedagem. Para aderir, a editora precisa estar em dia com a mensalidade de R$ 500 e se inscrever por ordem de chegada.
Apesar das facilidades, cinco editores de casas relevantes relataram preferência por atuar de forma independente, alegando não se identificar com a curadoria do estande oficial brasileiro. Essa escolha resulta em custos próprios de logística, mas permite estratégias personalizadas de apresentação de catálogos a parceiros estrangeiros.
Casos de autores brasileiros que venceram a barreira linguística
Alguns exemplos recentes indicam que a literatura brasileira no exterior pode alcançar repercussão ampla quando encontra combinação de tradução qualificada, agente dedicado e interesse de mercado.
• Marcelo Rubens Paiva: o romance “Ainda Estou Aqui” ganhou sete contratos de tradução após a história ser adaptada para o cinema e conquistar o Oscar sob direção de Walter Salles. Na Itália, a obra saiu pela La Nuova Frontiera, editora que foca literatura em português e espanhol.
• Itamar Vieira Junior: “Torto Arado” foi indicado ao Booker Internacional e já soma edições em 33 idiomas, distribuídos em 55 países. O autor é representado pela agência global Wylie, situação rara entre escritores brasileiros.
• Stênio Gardel: “A Palavra que Resta” recebeu o National Book Award dos Estados Unidos, na categoria de literatura traduzida. A versão em inglês, assinada por Bruna Dantas Lobato e publicada pela New Vessel Press, abriu portas em outros seis mercados.
• Clássicos consagrados: Jorge Amado, Clarice Lispector e Paulo Coelho continuam a figurar entre os brasileiros mais traduzidos, refletindo pontas de sucesso anteriores que pontualmente furaram a bolha de idiomas estrangeiros.
Desafios logísticos, financeiros e de visibilidade
A literatura brasileira no exterior enfrenta gargalos que vão além da tradução. Editor Lorenzo Ribaldi, da La Nuova Frontiera, relatou dificuldade para custear viagens de autores a lançamentos e festivais literários europeus. Para ele, a presença do escritor é cada vez mais decisiva na promoção do livro, mas a passagem do Brasil à Europa encarece o processo. O Instituto Guimarães Rosa oferece ajuda para deslocamento de artistas, porém a procura varia e nem todos os organizadores de eventos conhecem o mecanismo.
Outro ponto é a concentração de apoios em poucos agentes. Como observa Marianna Teixeira Soares, ainda não existe uma rede densa de profissionais brasileiros treinados para negociar direitos no exterior. Além disso, a literatura requer etapas mais longas de construção de público em comparação com cinema ou música, cujos conteúdos podem ser consumidos de forma quase instantânea via streaming.
A conjuntura internacional também pesa. Países anglófonos historicamente filtram grande parte do que circula no mercado editorial mundial. Apesar disso, editores notam leve expansão do interesse por vozes de países emergentes, reflexo de um cenário cultural mais multipolar.
Perspectivas e próximos passos
A literatura brasileira no exterior dispõe atualmente de um conjunto de programas de tradução, agentes experientes e casos de destaque que indicam potencial de crescimento. O principal edital federal aprovou 133 projetos para 2025, sinalizando nova leva de títulos que em breve chegarão a livrarias estrangeiras. A participação nacional na Feira do Livro de Frankfurt também seguirá como vitrine estratégica para negociações de direitos.
Se mantidas as bolsas de tradução, ampliados os recursos para viagens de autores e fortalecida a rede de agentes, os números tendem a evoluir. Até lá, iniciativas pontuais continuarão sustentando o processo de internacionalização, enquanto leitores estrangeiros conhecem gradualmente a produção literária do Brasil.

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