La Chola Poblete leva pop queer-andino ao Masp em primeira mostra individual no Brasil

La Chola Poblete, artista trans andina de 37 anos reconhecida por revisitar o pop art argentino, estreia sua primeira exposição individual no Brasil no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp). As obras, que ocupam diferentes pisos da instituição, integram o calendário que o museu dedica à produção latino-americana ao longo do ano.

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A estreia de La Chola Poblete no Masp

A mostra marca a chegada do trabalho de Poblete a um dos museus mais visitados do país. No prédio localizado na avenida Paulista, a artista apresenta aquarelas de grandes dimensões, fotografias em escala humana e instalações que dialogam com questões de identidade, ancestralidade indígena e vivências LGBTQIA+. A opção do Masp por concentrar seu programa anual na arte da região fornece o contexto para a inclusão da criadora, que nasceu em Guaymallén, cidade do deserto andino próxima à fronteira com o Chile, e construiu sua carreira problematizando a narrativa hegemônica que associa a identidade argentina exclusivamente à capital Buenos Aires e a uma herança europeia.

As aquarelas pop e o simbolismo queer-andino de La Chola Poblete

No conjunto de aquarelas exibido, cores vivas e figuras híbridas aparecem lado a lado. A Virgem Maria é pintada em tons de lilás, cor que a artista relaciona à delicadeza e à espiritualidade, enquanto relicários indígenas, travestis nuas que choram e seres amorfos com pênis e seios dividem o mesmo espaço pictórico. A coexistência de símbolos religiosos, personagens marginalizados e referências ao corpo sublinha a intenção de Poblete de reformular o pop art argentino a partir de uma vivência queer e indígena — proposta declarada no texto “Manifesto do Pop Andino”.

Esse estatuto de manifesto ecoa o legado do movimento pop argentino, efervescente desde a década de 1960. Ao enxertar elementos da cultura de massa em narrativas pessoais e ancestrais, a artista amplia o olhar sobre quem participa do cânone latino-americano. Na seleção paulistana, cada aquarela funciona como um painel de leitura imediata, estratégia que a própria criadora assume como parte de seu método: afastar-se de produções conceituais de difícil acesso e oferecer ao público códigos visuais reconhecíveis, herdados de sua infância em um bairro pobre.

A fotografia do açougue e a crítica sociopolítica

Entre as obras mais comentadas da exposição figura uma fotografia de dimensões monumentais em que Poblete aparece nua dentro de um açougue. Seu corpo, posicionado entre cortes de boi e de porco, é observado por um homem branco ­engravatado que, na cena, parece avaliar mais um produto à venda. O registro concentra dois comentários factuais: a repressão exercida por grupos mórmons sobre jovens LGBTQIA+ em Guaymallén — ambiente onde a artista cresceu — e o aumento do preço da carne na Argentina, fenômeno agravado pela crescente exportação do produto para os Estados Unidos após acordo comercial costurado entre o presidente conservador Javier Milei e o ex-mandatário norte-americano Donald Trump.

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O tom de ironia desse trabalho remete diretamente à obra “El Pago de la Deuda Externa Argentina con Maíz, ‘el Oro Latinoamericano’”, de Marta Minujín. Na ação performática da década de 1980, a pioneira da pop art argentina ofereceu espigas de milho a Andy Warhol como modo de discutir soberania econômica diante da influência norte-americana. A analogia evidencia como Poblete atualiza um gesto histórico: trocar mercadorias simbólicas (milho ou carne) para questionar estruturas de poder.

Diálogo entre La Chola Poblete e Marta Minujín

O encontro de gerações surge de forma explícita na exposição. Fotografia recente mostra Minujín, hoje com 83 anos, abraçada a Poblete, sublinhando a amizade das duas artistas. Segundo relato da autora mais jovem, a veterana enxerga na produção de sua colega a continuidade do pop art. O reconhecimento valida a inserção de Poblete em uma linhagem que começou nos anos 1960 e que reposicionou a Argentina no circuito internacional das artes visuais.

Além da referência conceitual, a adoção de estratégias pop se manifesta em escolhas formais: uso de imagens de circulação massiva, apropriação de símbolos religiosos e reconfiguração de estereótipos visuais. O próprio nome artístico, “Chola”, corresponde a uma injúria racial direcionada a mulheres de ascendência indígena, muitas vezes relegadas a trabalhos campesinos ou domésticos. Ao incorporar o termo, a artista o ressignifica e converte ofensiva em assinatura profissional, reforçando a dimensão política de sua trajetória.

“Il Martirio de Chola” e outras obras emblemáticas

Em “Il Martirio de Chola”, Poblete posa de perfil, evocando retratos de indígenas pintados por artistas europeus no século XIX. Vestindo indumentária típica, a autora questiona a representação histórica dessas populações e a prática de utilizar trajes tradicionais como simples ornamentos decorativos. A reverberação desse tema ecoa na curadoria de Leandro Muniz, que destaca como a exposição amplia o debate sobre a presença indígena na arte argentina, frequentemente omitida nos discursos oficiais.

Manifesto do Pop Andino: voz e estratégia de La Chola Poblete

O “Manifesto do Pop Andino” articula referências clássicas da história da arte para fundamentar a perspectiva de artistas queer latino-americanos e de ascendência indígena. Ao explorar essas conexões, Poblete amplia a noção de pop art para além do eixo euro-norte-americano, abrindo espaço para narrativas que antes permaneciam periféricas. O vínculo com o curador assistente Leandro Muniz reforça esse direcionamento: ambos evidenciam a necessidade de confrontar leituras hegemônicas que ignoram o passado negro e indígena na formação cultural da Argentina.

Exposições paralelas: Sandra Gamarra Heshiki e o coletivo Silät

A mesma programação latino-americana do Masp inclui, no primeiro andar do edifício projetado por Lina Bo Bardi, a mostra de Sandra Gamarra Heshiki. A artista peruana replica pinturas coloniais para destacar como a história, repetida por séculos, reflete apenas parcela da realidade. Em outro piso, tecidos produzidos por Claudia Alarcón e pelo coletivo Silät, composto por tecedeiras da etnia Wichí, expandem o recorte geográfico. Feitas à mão, sem tear, a partir de fios de chaguar — planta típica do norte argentino —, as peças trazem desenhos geométricos tingidos com pigmentos naturais e, em alguns casos, anilinas que garantem tons mais vibrantes.

Os motivos representados nos tecidos variam entre composições abstratas e cenas cotidianas, como plantas, porteiras de madeira e trilhas abertas em meio à mata ou à areia. Esses percursos materializam a ideia coletiva de “abrir novos caminhos”, conforme descreve Alarcón. A inserção do Silät no Masp acompanha o crescente interesse de museus internacionais pela arte têxtil, fenômeno atestado pela participação do grupo na Bienal de Veneza, sob curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico da própria instituição paulistana.

Serviço: datas, horários e valores

A exposição que reúne as obras de La Chola Poblete, Sandra Gamarra Heshiki e do coletivo Silät permanece em cartaz até 2 de agosto. O Masp funciona às terças-feiras das 10h às 20h; quartas, quintas, sábados e domingos das 10h às 18h; e sextas-feiras das 10h às 21h. Localizado na avenida Paulista, número 1578, o museu fixa o preço de entrada em R$ 85.

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