Ishmael Reed: chegada de “Mumbo Jumbo” ao Brasil revela a obra do autor que desafia o tokenismo literário

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Ishmael Reed, poeta, ensaísta, compositor, dramaturgo e romancista com mais de seis décadas de atuação, ganha novo foco no mercado editorial brasileiro com a primeira edição nacional de “Mumbo Jumbo”. O romance, lançado originalmente em 1972 e hoje reconhecido como peça canônica da literatura norte-americana, chega às livrarias por R$ 79,90, em volume de 320 páginas, publicado pela editora Zain com tradução de João Vitor Schmidt e texto crítico de Vinícius Portella.
- Quem é Ishmael Reed: trajetória de um polímata literário
- Ishmael Reed e a batalha contra o tokenismo
- Ishmael Reed: do fracasso comercial ao reconhecimento canônico
- Enredo de “Mumbo Jumbo”: o surto de Jes Grew e a pulsão de vida
- Influências literárias e estética expandida
- Polêmicas públicas: Baldwin, beats, The Wire e Hamilton
- Edição brasileira: detalhes de publicação e perspectivas
Quem é Ishmael Reed: trajetória de um polímata literário
Nascido há 87 anos, Ishmael Reed construiu uma carreira que ultrapassa as fronteiras de um único gênero. Autor de mais de 30 livros, ele domina formas diversas — poesia, ensaio, dramaturgia, romance e composição musical — e aprendeu a escrever em iorubá, japonês e hindi. Esse perfil multifacetado sustenta a reputação de um criador disposto a experimentar estruturas narrativas e linguagens para questionar narrativas hegemônicas.
Desde que despontou na cena literária norte-americana, em meados dos anos 1960, Reed assumiu postura crítica em relação ao que considera o aspecto mais cruel da cultura dos Estados Unidos: o uso simbólico de artistas negros para legitimar espaços ainda marcados pela segregação. Essa prática, que o escritor batizou de “tokenismo”, tornou-se eixo de sua obra e de suas intervenções públicas.
Ishmael Reed e a batalha contra o tokenismo
A crítica de Reed ao tokenismo se materializa em exemplos concretos mencionados pelo próprio autor. Ele sustenta que o sucesso de escritores negros pode ser, em parte, condicionado pela integração desses autores a círculos literários formados majoritariamente por intelectuais brancos. Reed cita James Baldwin como caso emblemático: reconhece o talento do colega, mas observa que o apoio da Partisan Review — revista modernista sediada em Manhattan e comandada por uma elite intelectual branca — teria contribuído decisivamente para a projeção do romancista.
Segundo Reed, a inclusão pontual de um artista negro em espaços de prestígio não altera as estruturas que mantêm a desigualdade. Ao contrário, apenas empresta aparência de diversidade a sistemas que continuam excludentes. Esse raciocínio percorre toda a produção de Reed e ecoa em entrevistas, palestras e artigos, consolidando sua imagem de “mestre da controvérsia”.
Ishmael Reed: do fracasso comercial ao reconhecimento canônico
O ápice dessa trajetória crítica é “Mumbo Jumbo”, terceira incursão de Reed no romance. Ao ser lançado em 1972, o livro não obteve vendas expressivas e foi rotulado como “fracasso comercial”. A avaliação do mercado, porém, mudaria décadas depois. O respeitado crítico Harold Bloom passou a classificar a obra como integrante do cânone literário dos Estados Unidos, posição que reforçou a relevância de Reed para a história da prosa norte-americana.
O reconhecimento tardio contrasta com a recepção inicial e comprova a distância que muitas vezes separa inovação artística e consagração institucional. A recente edição brasileira traz ao leitor nacional a oportunidade de acompanhar esse percurso de reavaliação crítica, situando “Mumbo Jumbo” entre os textos centrais da ficção do século XX.
Enredo de “Mumbo Jumbo”: o surto de Jes Grew e a pulsão de vida
Classificar “Mumbo Jumbo” dentro de um único rótulo é tarefa difícil. A narrativa combina ambientação pulp, cosmogonias africanas, teologia e teorias da conspiração, tudo temperado por uma escrita anárquica que alterna erudição e humor. O ponto de partida é Jes Grew, um surto epidêmico que afeta inicialmente comunidades negras nos Estados Unidos. Quem contrai a “doença” não adoece no sentido convencional; pelo contrário, entrega-se a uma dança frenética e a um estado coletivo de transe que celebra a vitalidade.
Esse fenômeno fictício desponta no mesmo contexto do ragtime e do jazz. O romance situa-se na década de 1920, momento em que forças puritanas reagem ao que percebem como ameaça moral e, simultaneamente, fetichizam manifestações da cultura negra. Ao acompanhar o embate entre repressão e efervescência cultural, Reed discute apropriação, racismo e o medo do “outro” que atravessa a história norte-americana.
Influências literárias e estética expandida
Ao comentar sua formação, Reed cita influências díspares: James Baldwin, pela conjunção de talento e representatividade; Dante Alighieri, cuja “Divina Comédia” lhe apresentou as possibilidades de um escritor que coloca personagens vivos no inferno; James Joyce, autor estudado por Reed; e Nathanael West, admirado pelas sátiras não lineares. Ele também menciona W.H. Auden, de quem derivou a concisão; George Orwell, modelo de clareza de prosa; e W.B. Yeats, cuja “Renascença Celta” inspirou Reed a formular o manifesto neo-hudu, versão pan-africana de resgate folclórico.
O resultado dessa colagem de referências é classificado por leitores e críticos como “pós-moderno”, “afro-diásporico” e “multicultural”. Reed, porém, alcançou essas categorias antes de tais termos se popularizarem nas academias e no mercado editorial, o que reforça a ideia de pioneirismo. A própria obra recebeu comparações com processos musicais: é “metafísica” como “A Love Supreme”, de John Coltrane, e “encantada” como “A Tábua de Esmeraldas”, de Jorge Ben Jor.
Polêmicas públicas: Baldwin, beats, The Wire e Hamilton
O caráter contestador de Reed não se limita às páginas dos romances. Ele declara que “há mais cópias de Baldwin na literatura americana do que imitadores de Elvis em Las Vegas”, sugerindo que a indústria editorial repete fórmulas ligadas ao nome do autor de “Notas de um Filho Nativo”. Sobre o movimento beat, Reed descreve seus representantes como racistas e misóginos, desafiando a aura libertária que geralmente acompanha Jack Kerouac e Allen Ginsberg.
Em outra frente, Reed diverge de David Simon, criador da série da HBO “The Wire”. Para o escritor, a produção televisiva reforça estereótipos sobre a população negra em grau comparável às campanhas de propaganda fascista contra judeus nos anos 1930 e 1940. O autor também rechaça “Hamilton”, musical de Lin-Manuel Miranda sobre um dos pais fundadores dos Estados Unidos. Amparado em pesquisas historiográficas recentes, Reed argumenta que Alexander Hamilton possuía escravos e fomentou massacres indígenas, o que contradiz a imagem de herói abolicionista projetada no palco.
Essa postura crítica culminou em comparações incisivas feitas pelo próprio escritor: “Você conseguiria imaginar atores judeus nos teatros de Berlim interpretando Goering, Goebbels, Eichmann ou Hitler?”, questionou, evidenciando o desconforto que sente ao ver atores negros representando defensores da escravidão.
Edição brasileira: detalhes de publicação e perspectivas
A chegada de “Mumbo Jumbo” em português marca etapa importante para leitores, pesquisadores e cursos de literatura comparada no país. A edição da Zain apresenta capa inédita, tradução de João Vitor Schmidt e ensaio crítico de Vinícius Portella, que contextualiza o romance dentro da produção de Ishmael Reed. Com preço de capa de R$ 79,90 e 320 páginas, o volume oferece ao público a chance de acessar a narrativa sem recorrer a importações ou a edições em língua inglesa.
Além de ampliar o repertório de ficção norte-americana disponível no mercado nacional, a publicação também retoma debates sobre apropriação cultural, representatividade e estratégias de mercado — temas que Reed expõe desde os anos 1960. O lançamento converge, portanto, com discussões atuais no cenário literário brasileiro, em busca de vozes que tensionem cânones estabelecidos.
O leitor que se debruçar sobre “Mumbo Jumbo” encontrará um romance que mistura humor, erudição, crítica social e invencionices narrativas. Verá, ainda, como Reed converteu sua denúncia do tokenismo em uma poética capaz de subverter categorias fixas de gênero literário. Com isso, o livro solidifica o lugar do autor no panorama internacional e oferece novos caminhos de investigação para a historiografia literária.
Com a obra agora disponível em português, o próximo passo é acompanhar a recepção entre pesquisadores, clubes de leitura e cursos universitários que discutem literatura afro-diásporica. A publicação serve, também, como convite para explorar o restante do catálogo de Ishmael Reed, cuja diversidade de gêneros e idiomas continua desafiando classificações convencionais.

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