Grammy 2026 pode transformar premiação em tribuna política com Bad Bunny e Billie Eilish

|
Getting your Trinity Audio player ready... |
O Grammy de 2026, agendado para a noite deste domingo às 22h, promete extrapolar o universo musical e se converter em um momento de forte simbolismo político. Entre artistas com múltiplas indicações, como o porto-riquenho Bad Bunny e a norte-americana Billie Eilish, desenha-se um cenário no qual a entrega de estatuetas pode servir de megafone para críticas à atual administração dos Estados Unidos e, em especial, às recentes operações do ICE, órgão responsável pela imigração.
- O que está em jogo no Grammy 2026
- Bad Bunny chega ao Grammy com seis indicações e discurso crítico
- Billie Eilish e a expectativa de novo protesto no Grammy
- Lady Gaga, Kendrick Lamar e outros favoritos ao Grammy deste ano
- Categoria álbum do ano: como o Grammy pode influenciar o debate político
- Artista revelação e representatividade global no Grammy 2026
- Horário e onde assistir ao Grammy
O que está em jogo no Grammy 2026
Maior premiação da indústria fonográfica, o Grammy chega à sua 68ª edição cercado por uma dualidade: reconhecer a excelência artística e, simultaneamente, conviver com manifestações políticas que tendem a repercutir muito além do palco. Neste ano, a tensão é alimentada, de um lado, pelo empenho da organização em valorizar produções fora do eixo tradicional dos Estados Unidos e, de outro, pela expectativa de discursos que questionem políticas governamentais voltadas a imigração e direitos civis. Esse embate está cristalizado na disputa entre Bad Bunny, com seis nomeações, e nomes consagrados do mainstream norte-americano, como Lady Gaga, que disputa em sete categorias.
A direção do evento sinalizou essa abertura ao listar, pela primeira vez, um álbum cantado integralmente em espanhol — “Debí Tirar Más Fotos”, de Bad Bunny — nas três categorias de maior prestígio: álbum, canção e gravação do ano. A medida soou, para muitos observadores, como um gesto público de oposição às políticas anti-imigração do presidente Donald Trump, mencionado com frequência pelos artistas envolvidos.
Bad Bunny chega ao Grammy com seis indicações e discurso crítico
Bad Bunny, artista mais reproduzido do planeta no Spotify, consolidou-se no panorama internacional ao celebrar suas raízes porto-riquenhas. O disco “Debí Tirar Más Fotos” funciona como carta de amor a Porto Rico, ao mesmo tempo em que ecoa a condição de território sob jurisdição dos Estados Unidos. Desde o lançamento, o cantor vem travando um confronto verbal com a Casa Branca, posicionando-se contra operações do ICE que resultam em detenções violentas de imigrantes. A recusa em levar a turnê aos Estados Unidos, motivada pelo receio de que fãs latinos sofressem repressão, ampliou o alcance político de sua postura e gerou cadeia de solidariedade entre atores e músicos.
No Grammy, especialistas indicam que Bad Bunny surge como favorito ao cobiçado prêmio de álbum do ano. A vitória, caso se confirme, não apenas reforçará a presença de obras em espanhol nas categorias principais, mas também concederá ao artista o microfone ideal para reiterar críticas ao governo. A inédita conquista em língua não inglesa pode reverberar como demonstração explícita de que a academia valoriza diversidade cultural e resiste a pressões políticas.
Billie Eilish e a expectativa de novo protesto no Grammy
A cantora Billie Eilish, de 24 anos, concorre em gravação e canção do ano com “Wildflower”, parceria autoral com o irmão e produtor Finneas O’Connell. Há poucas semanas, ela recebeu um troféu de justiça ambiental no MLK Jr. Beloved Community Awards, usando o momento para relacionar mortes de manifestantes à falta de prioridade governamental na proteção ambiental. A repercussão desse discurso aumentou quando a artista, seguida por 125 milhões de pessoas no Instagram, ironizou colegas da indústria que permanecem calados sobre casos envolvendo o ICE.
Esses antecedentes indicam alta probabilidade de que Eilish repita o tom contestador caso suba ao palco do Grammy. Ao lado de Bad Bunny, ela simboliza a ala jovem da música global que não hesita em converter premiações em arenas de debate social. Especialistas enxergam aí a possibilidade de o evento atrair audiência adicional, interessada não apenas em performances, mas também nas declarações políticas que eventualmente surgirem.
Lady Gaga, Kendrick Lamar e outros favoritos ao Grammy deste ano
Embora o debate político seja protagonizado por Bad Bunny e Billie Eilish, outros artistas com trajetória de engajamento também integram a lista de indicados. Lady Gaga, que contabiliza sete nomeações, é antiga crítica de Donald Trump. Durante show recente em Tóquio, manifestou tristeza pelo “estado em que se encontra o país”, mencionando perseguições e mortes. Seu álbum “Mayhem” marca retorno a batidas dançantes combinadas a temáticas sombrias, enquanto a faixa “Abracadabra” desponta como forte candidata em gravação do ano.
O rapper Kendrick Lamar lidera o ranking de indicações, com nove no total. Vencedor, na edição anterior, das categorias gravação e canção do ano, ele apresenta agora o álbum “GNX”, descrito como retomada de linguagem mais bruta para abordar conflitos pessoais e sociais, incluindo a conhecida rixa com Drake. Lamar foi responsável por exibir bandeiras da Palestina no show do Super Bowl passado, em contexto de crescente tensão entre Estados Unidos e Oriente Médio, o que o coloca no centro de possíveis manifestações políticas novamente.
Na mesma esteira, a rapper Doechii concorre com “Anxiety”; Rosé, ex-integrante do Blackpink, disputa espaço com “Apt.” em parceria com Bruno Mars; e Sabrina Carpenter busca consolidar o sucesso viral de “Manchild”. Ainda correm por fora Justin Bieber (“Swag”), Leon Thomas (“Mutt”) e a própria Carpenter com o álbum “Mans Best Friend”, todos na briga por álbum do ano.
Categoria álbum do ano: como o Grammy pode influenciar o debate político
A escolha do álbum do ano tem peso simbólico particular, pois confere à obra vencedora a plataforma mais ampla da noite. Se a academia optar por “Debí Tirar Más Fotos”, a mensagem subjacente será de valorização de produções latinas, de resistência cultural e, inevitavelmente, de contestação às políticas anti-imigração. Uma conquista de Lady Gaga ou Kendrick Lamar, entretanto, também traria à tona vozes críticas por outros caminhos: Gaga fala abertamente sobre perseguição e violência, enquanto Lamar apresenta narrativa social em letras contundentes.
A disputa expõe, assim, duas faces do Grammy: a celebração do mérito artístico e a capacidade de refletir tensões sociopolíticas contemporâneas. Em um ambiente de polarização, a premiação pode acabar funcionando como termômetro de aceitação ou rejeição a determinadas pautas, principalmente as que envolvem direitos civis, imigração e igualdade racial.
Artista revelação e representatividade global no Grammy 2026
Outra estatueta cercada de expectativa é a de artista revelação. A britânica Lola Young despontava como favorita quando os indicados foram anunciados, mas o cenário mudou com a ascensão meteórica de Olivia Dean, igualmente britânica, que acumulou três sucessos nas rádios e plataformas digitais. Comparada a Adele pelo tom romântico, Dean reforça o poder da cena pop do Reino Unido, enquanto Young enfrenta repercussões de um incidente de saúde que a levou a cancelar agendas, inclusive apresentação prevista no Lollapalooza de São Paulo.
Em categorias técnicas e de gênero, muitas atenções se voltam para nomes que mantêm relação próxima com o rock alternativo e o pop contemporâneo. Hayley Williams, fora do Paramore, apresenta disco solo bem avaliado; Miley Cyrus colhe elogios com “Something Beautiful”; e Chappell Roan, eleita artista revelação no ano anterior, tenta converter o prestígio em vitória na categoria de performance pop solo.
O caráter internacional da cerimônia ganha reforço com a presença de dois brasileiros: Caetano Veloso e Maria Bethânia concorrem juntos em melhor álbum de música pop global, graças ao registro ao vivo de sua mais recente turnê. Na mesma categoria, medem forças com o nigeriano Burna Boy e o senegalês Youssou N’Dour, ampliando a latitude cultural representada na noite.
Horário e onde assistir ao Grammy
Com previsão de início às 22h, o Grammy será transmitido no Brasil pelo canal TNT e pela plataforma de streaming HBO Max. O palco não deve somente premiar talentos; tudo indica que servirá, também, de arena para pronunciamentos sobre imigração, meio ambiente e direitos humanos, temas que dominam o noticiário e ressoam entre artistas indicados e público.

Conteúdo Relacionado