Comando Vermelho: investigações revelam conexão entre facção e altos cargos da política fluminense

Comando Vermelho está no centro de uma investigação que, pela primeira vez, alcança figuras de destaque nos três poderes do Estado do Rio de Janeiro. Nos últimos quatro meses, o presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), Rodrigo Bacellar, o deputado estadual TH Joias e o desembargador Macário Ramos Júdice Neto foram presos por suspeita de beneficiar diretamente os negócios da facção.

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O avanço do Comando Vermelho sobre as instituições fluminenses

Historicamente, apurações sobre o crime organizado no Rio se concentravam em agentes de menor escalão, como policiais acusados de vazar operações. A atual ofensiva da Polícia Federal, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, altera esse padrão ao atingir um presidente de parlamento estadual, um magistrado de segunda instância e um parlamentar em exercício. A movimentação sugere, segundo o sociólogo Daniel Hirata, que o poder da facção se estendeu além dos limites das comunidades dominadas e passou a influenciar decisões de segurança pública, indicações em cargos estratégicos e até processos judiciais.

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Deflagração das prisões e o papel do Comando Vermelho

A cadeia de eventos teve origem na Operação Zargun, em setembro, quando a Polícia Federal prendeu Tiego Raimundo de Oliveira Santos, conhecido como TH Joias. Criado no Morro do Fubá, ele ganhou notoriedade vendendo joias a celebridades, mas, segundo os investigadores, também lavava dinheiro, intermediava compras de armas e drones e mantinha reuniões com a cúpula do Comando Vermelho. O parlamentar assumira a cadeira na Alerj poucos meses antes, como segundo suplente do MDB.

Mensagens apreendidas no celular de TH Joias indicaram que Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj, sabia da ação policial previamente e o alertou. Em consequência, Bacellar foi preso em dezembro, acusado de tentar obstruir a investigação ao orientar o colega a retirar objetos de sua residência. Dias depois, a própria Alerj revogou a custódia, mas o STF impôs medidas cautelares: afastamento da presidência, uso de tornozeleira eletrônica e entrega de passaportes. A situação se agravou em março, quando o Tribunal Superior Eleitoral cassou o mandato de Bacellar por abuso de poder nas eleições de 2022; três dias após o julgamento, ele voltou a ser detido por ordem de Moraes, no âmbito do mesmo inquérito.

Trajetórias políticas e conexões de poder

Rodrigo Bacellar, eleito deputado pela primeira vez em 2018, ascendeu rapidamente. Relatou o processo que culminou no impeachment do ex-governador Wilson Witzel e, já na gestão do governador Cláudio Castro, ocupou a Secretaria de Governo, indicando aliados para postos estratégicos. Sua influência chegou ao ponto de intervir, segundo investigações, na nomeação do chefe da Polícia Civil após condicionar a liberação de recursos do fundo estadual.

TH Joias, apesar de já ter sido investigado em 2017 por suposta lavagem de dinheiro para o Terceiro Comando Puro, rival do CV, conquistou mais de 15 mil votos em 2022. Em 2024, assumiu mandato após a morte de Otoni de Paula Pai e a permanência de Rafael Picciani no Executivo estadual. Mesmo sob suspeita, transitava com facilidade por cerimônias oficiais até ser apontado como integrante relevante da facção.

O desembargador Macário Ramos Júdice Neto, relator do processo da Operação Zargun no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, seria, segundo a Polícia Federal, a fonte do vazamento que beneficiou o deputado. O magistrado já havia enfrentado processo administrativo, há quase duas décadas, por suspeita de venda de sentenças, mas foi reintegrado após prescrição do caso. A investigação atual descobriu trocas de mensagens afetuosas entre ele e Bacellar, além da nomeação de sua esposa para cargo comissionado na Alerj.

Interferência no Executivo e possíveis ramificações do Comando Vermelho

A relação entre Bacellar e o governador Cláudio Castro é considerada peça-chave para compreender a extensão da infiltração. Documentos do STF mencionam que o deputado geria indicações na Polícia Militar e na Polícia Civil, setores sensíveis para o combate ao tráfico. A proximidade ficou evidente quando, na ausência temporária de Castro, Bacellar demitiu o então secretário de Transportes, alterando a correlação de forças internas.

Outro elo investigado é Alessandro Pitombeiro Carracena, ex-subsecretário estadual de Defesa do Consumidor, preso durante a Operação Zargun sob acusação de transmitir informações operacionais ao CV. O relatório também menciona tentativas da facção de influenciar Gutemberg Fonseca, titular da mesma secretaria. Segundo os investigadores, embora Fonseca tenha recebido pedidos de ajuda em reuniões, ele não atendeu às demandas dos traficantes.

Antecedentes de corrupção e criminalidade na política fluminense

O Rio de Janeiro acumula histórico de escândalos que ligam autoridades a grupos armados. A CPI das Milícias, de 2009, revelou vereadores e deputados cooptados por paramilitares. O Estado registrou a prisão de cinco ex-governadores por corrupção ou irregularidades administrativas. Casos individuais – como da ex-deputada Flordelis, acusada de mandar matar o marido; do ex-vereador Jairinho, investigado pela morte do enteado Henry Borel; e de Chiquinho Brazão, suspeito de envolvimento na morte da vereadora Marielle Franco – ilustram a recorrência de parlamentares alvos de acusações graves, ainda que, até esta investigação, nenhum tivesse sido apontado por vínculos diretos com o Comando Vermelho.

Na esfera municipal, episódios recentes reforçam a tendência. Em uma cidade da Baixada Fluminense, Marcos Aquino, vereador mais votado, foi preso portando arma irregular e medicamentos controlados enquanto acompanhava a captura do irmão, integrante do CV que teria movimentado mais de R$ 30 milhões em 2025. Outro parlamentar local, Ernane Aleixo, foi detido sob suspeita de fornecer suporte logístico ao Terceiro Comando Puro.

Próximos passos das investigações sobre o Comando Vermelho

A Polícia Federal continua analisando documentos e mensagens obtidos em celulares apreendidos. O sociólogo Daniel Hirata avalia que as apurações podem alcançar outros escalões do poder estadual, uma vez que os indícios apontam para uma rede que envolve vazamento de informações, nomeações estratégicas e possíveis financiamentos ilícitos de campanhas. No Judiciário, o Superior Tribunal de Justiça deverá julgar pedidos de extensão de medidas cautelares contra magistrados e servidores que possam ter participado do vazamento.

Enquanto isso, a Alerj aguarda a posse definitiva de um novo presidente após o afastamento de Bacellar, decisão que influenciará a pauta legislativa e a condução de processos disciplinares. No Executivo, secretarias de Segurança Pública e Defesa do Consumidor revisam procedimentos internos para detectar possíveis pontos de infiltração. Já no plano eleitoral, a cassação de Bacellar reabre discussão sobre critérios de inelegibilidade e filtros de antecedentes criminais para candidaturas, tema que tende a ganhar força até o próximo ciclo de eleições estaduais em 2026.

Com prisões já efetuadas, mandados em aberto e análise continuada de provas digitais, a investigação que liga políticos de alto escalão ao Comando Vermelho permanece em curso e deverá ter novos desdobramentos conforme o Supremo Tribunal Federal avalia os relatórios parciais apresentados pela Polícia Federal.

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