Guerra no Líbano: brasileiros descrevem fuga, destruição e incerteza em meio aos bombardeios
guerra no Líbano impôs, em menos de três semanas, um cenário de deslocamento em massa, infraestrutura destruída e insegurança permanente que atinge diretamente os cerca de 22 mil brasileiros radicados no país, segundo o Ministério das Relações Exteriores. Entre eles, relatos de medo, raiva e incerteza ilustram o cotidiano marcado por bombardeios contínuos entre Israel e o grupo político-militar Hezbollah.
- Êxodo civil: como a guerra no Líbano esvaziou o sul do país
- Brasileiros em foco: histórias de Hussein Melhem e Aly Bawab no coração da guerra no Líbano
- Infraestrutura arruinada: pontes, edifícios e serviços paralisados pela guerra no Líbano
- Dinâmica militar: Israel, Hezbollah e a escalada recente da guerra no Líbano
- Raízes do conflito: retrospecto histórico entre Israel e Hezbollah na guerra no Líbano
- Impactos humanitários e próximos passos no cenário da guerra no Líbano
Êxodo civil: como a guerra no Líbano esvaziou o sul do país
O sul libanês, região fronteiriça com Israel, tornou-se o epicentro da guerra no Líbano. Desde o início dos confrontos de 2 de março, mais de 1 milhão de pessoas abandonaram suas casas. As ruas antes movimentadas agora exibem filas de famílias sob chuva e frio intenso, tentando alcançar áreas consideradas menos perigosas. O conflito já soma cerca de 1.000 mortos e 2.500 feridos, números que refletem a intensidade dos ataques relatados pela população local.
O êxodo não se restringe aos moradores permanentes. Brasileiros que estavam a passeio ou em visita familiar também se viram obrigados a deixar casas, hotéis ou vilarejos apressadamente. Para muitos, a fuga ocorreu com poucos pertences, diante de explosões que transformam a madrugada em horas de medo coletivo.
Brasileiros em foco: histórias de Hussein Melhem e Aly Bawab no coração da guerra no Líbano
Hussein Melhem, 45 anos, libanês naturalizado brasileiro, residia em Tiro, cidade costeira do sul. Na madrugada de 2 de março, os estalos de mísseis sobrevoando o prédio despertaram sua família. Sem tempo para reunir bens, ele deixou o imóvel danificado e iniciou uma busca por abrigo. Hoje, encontra-se em uma casa cedida por conhecidos, mas precisará desocupá-la em poucos dias ou arcar com alugueis que chegaram a US$ 2 mil, valor incompatível com sua renda de padeiro.
A padaria de Melhem, fonte de sustento familiar, permanece fechada. A região ficou praticamente sem circulação de veículos após o bombardeio de 12 pontes que conectavam Tiro a outras cidades. Com três filhas de 17, 15 e 7 anos, ele descreve ruas repletas de barracas improvisadas, crianças molhadas pela chuva e adultos que já consumiram todas as economias.
Outro relato é o de Aly Bawab, 58 anos, brasileiro-libanês que vive em Manaus (AM). Ele desembarcou no Líbano em 28 de fevereiro, data que coincidiu com ataques de Israel e Estados Unidos ao Irã. Sua família, também oriunda do sul, testemunhou um edifício ruir após impacto de míssil israelense. Diante da destruição, Bawab migrou para Beirute, mas a capital também sofre bombardeios diários e sobrevoo de caças que quebram a barreira do som para gerar explosões aéreas intimidadoras.
Cercado por três filhos, ele busca manter serenidade para não criar pânico, embora descreva tremores involuntários do corpo a cada detonação próxima. Amigos perderam parentes e alguns continuam presos em vilarejos isolados, sem rotas seguras para a evacuação.
Infraestrutura arruinada: pontes, edifícios e serviços paralisados pela guerra no Líbano
A ofensiva afetou estradas, escolas, plantações e comércios. Os 12 viadutos atingidos no início de março interromperam a principal ligação terrestre entre o sul e o restante do país, forçando longos desvios ou a travessia por rotas secundárias sob risco constante de novos ataques. Edifícios residenciais não escapam: Bawab relatou a queda de dois apartamentos em Beirute, enquanto Melhem teve a casa própria bombardeada em Tiro.
A economia local sofre reflexo imediato. Padarias, lojas e pequenas indústrias encerraram atividades, seja por danos estruturais, seja pela fuga de mão de obra. Colheitas foram suspensas, conforme observação da historiadora Beatriz Bissio, ampliando a pressão sobre o abastecimento interno. O aluguel dispara em bairros considerados relativamente protegidos, fator que acentua a sensação de impotência compartilhada por deslocados.
Dinâmica militar: Israel, Hezbollah e a escalada recente da guerra no Líbano
Do ponto de vista militar, Israel informa ter destruído 2.000 alvos no território libanês desde 2 de março e ter eliminado 570 combatentes do Hezbollah. As Forças de Defesa de Israel (IDF) qualificam as ações como “operações terrestres direcionadas”, alegando caráter preventivo contra lançamentos de foguetes.
O Hezbollah, por sua vez, divulga boletins diários de ofensivas. Em 20 de março, o grupo citou 39 operações, entre elas o disparo de míssil contra um tanque Merkava na vila de Taybeh. A organização xiita afirma agir em retaliação aos ataques israelenses dos últimos meses e em resposta ao assassinato do líder supremo iraniano Ali Khamenei, evento que serviu de estopim para a fase atual do conflito.
Raízes do conflito: retrospecto histórico entre Israel e Hezbollah na guerra no Líbano
O confronto entre Israel e Hezbollah tem origem na década de 1980, quando o grupo se formou como milícia de resistência à ocupação israelense no sul do Líbano, empreendida para perseguir facções palestinas. Em 2000, o Hezbollah obteve a retirada das tropas israelenses e, gradualmente, transformou-se em partido político, ocupando cadeiras no parlamento libanês e participando de coalizões de governo.
Incursões militares de Israel em 2006, 2009 e 2011 reacenderam sucessivos ciclos de hostilidade. Já em 2023, a destruição da Faixa de Gaza motivou o Hezbollah a intensificar disparos de foguetes contra o norte israelense, numa estratégia declarada de solidariedade aos palestinos e desgaste das IDF. Uma trégua temporária foi pactuada em novembro de 2024, após Israel eliminar dirigentes do grupo, mas bombardeios pontuais continuaram, criando o cenário de tensão que explodiu em março deste ano.
Impactos humanitários e próximos passos no cenário da guerra no Líbano
Especialistas classificam o panorama humanitário como crítico. A professora Beatriz Bissio equipara as ações de Israel no sul do Líbano às táticas empregadas em Gaza, citando aldeias destruídas, interrupção total das colheitas e sofrimento civil “indescritível”. Ao mesmo tempo, ela pontua a resiliência de comunidades que rejeitam abandonar terras ocupadas “desde tempos imemoriais”.
Os números de deslocados, mortos e feridos tendem a evoluir enquanto não houver cessar-fogo formal. Civis permanecem espremidos entre a necessidade de proteger familiares e a falta de rotas seguras para migrar. No curto prazo, o fator determinante para qualquer alteração no fluxo de refugiados ou na intensidade dos bombardeios será o sucesso ou fracasso das negociações indiretas conduzidas por mediadores internacionais, ainda sem data divulgada para retomada pública.
No front militar, Israel reafirma intenção de prosseguir com “esforço defensivo avançado”, e o Hezbollah promete continuidade dos lançamentos diários. Enquanto isso, brasileiros como Hussein Melhem aguardam, com recursos cada vez mais escassos, o momento em que poderão retornar ao trabalho ou, ao menos, encontrar moradia estável que garanta proteção mínima às famílias.
A próxima atualização relevante é a expectativa de novos comunicados tanto das IDF quanto do Hezbollah sobre ações no sul do país, informações que definirão o ritmo da guerra no Líbano nos próximos dias e o grau de risco para as populações civis deslocadas.

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