Cuba e Estados Unidos: raízes, crises e o novo pico de tensão em 2025

Cuba e Estados Unidos protagonizam uma das rivalidades políticas mais duradouras do mundo contemporâneo. A tensão, que se estende por mais de seis décadas após a revolução socialista liderada por Fidel Castro, passou por invasões, ameaças nucleares, ondas migratórias e sucessivos embargos econômicos. Hoje, com o retorno de Donald Trump à Casa Branca em 2025, o impasse volta a atingir um patamar crítico, reacendendo dúvidas sobre qualquer possibilidade de distensão.

Índice

Cuba e Estados Unidos: o estopim no porto de Havana

O ponto de partida para o envolvimento direto entre Cuba e Estados Unidos ocorreu em 15 de fevereiro de 1898. Naquela data, o encouraçado norte-americano Maine explodiu enquanto estava ancorado no porto de Havana, causando a morte de mais de 260 tripulantes. Um Tribunal de Investigações Navais dos EUA atribuiu a tragédia a uma mina submarina, e as suspeitas recaíram sobre a Espanha, então colonizadora da ilha e combatente contra rebeldes cubanos que buscavam independência desde 1895.

Em abril de 1898, as forças norte-americanas intervieram no conflito, deflagrando a Guerra Hispano-Americana. O episódio resultou no fim de mais de quatro séculos de domínio espanhol sobre Cuba. Décadas depois, em 1976, uma nova investigação da marinha dos EUA concluiu que a explosão provavelmente fora provocada por um incêndio interno, não por sabotagem. Apesar disso, o incidente consolidou a presença de Washington na ilha e marcou o início de uma relação profundamente assimétrica.

Cuba e Estados Unidos: da Emenda Platt à influência econômica direta

Entre 1898 e 1902, Cuba funcionou como protetorado norte-americano. Quando a independência formal foi proclamada, a primeira Constituição veio acompanhada da Emenda Platt, em vigor de 1901 a 1934. O Artigo 3 do anexo concedia a Washington o direito explícito de intervir nos assuntos internos cubanos. Esse dispositivo legal permitiu, por exemplo, a instalação da base naval de Guantánamo, sob controle dos EUA até os dias atuais.

Na prática, a Emenda Platt transformou a jovem república em uma nação politicamente dependente. Empresas norte-americanas aproveitaram a devastação deixada pela guerra contra a Espanha para adquirir infraestrutura, terras e indústrias a preços considerados baixos. Setores como níquel, eletricidade, telecomunicações e finanças passaram a operar com participação majoritária de capital dos EUA, aprofundando a influência econômica sobre a ilha.

Anúncio

Ascensão de Fidel Castro e o divórcio diplomático

Nas décadas seguintes, o cenário de prosperidade para algumas camadas sociais coexistia com desigualdade e corrupção. Em 1952, o militar Fulgencio Batista tomou o poder por meio de um golpe, instaurando um regime autoritário que reprimiu a oposição. Parte desse descontentamento impulsionou a figura de Fidel Castro, advogado de ideias nacionalistas e socialistas que defendia maior soberania cubana.

Após um levante fracassado em 1953, prisão e exílio no México, Castro retornou à ilha no fim de 1956, acompanhado de cerca de 80 homens e de Ernesto “Che” Guevara. A guerrilha, iniciada no leste, espalhou-se e, em 1º de janeiro de 1959, Batista fugiu da ilha. Sete dias depois, os revolucionários entraram em Havana, dando início a uma nova ordem política.

Nos primeiros meses, alguns setores do Departamento de Estado norte-americano interpretaram Castro como um possível nacionalista moderado. Entretanto, dois fatos no início dos anos 1960 romperam essa expectativa: a reforma agrária, que nacionalizou parte das terras nas mãos de empresas dos EUA, e a assinatura de acordos comerciais com a União Soviética durante a visita do diplomata Anastas Mikoyan. Quando refinarias norte-americanas se recusaram a processar petróleo soviético, Havana as nacionalizou. Washington retaliou cortando a cota de açúcar cubano no mercado dos EUA, e Moscou assumiu o papel de principal comprador. A sequência desencadeou a primeira fase do embargo econômico, consumado em janeiro de 1961 com a ruptura formal das relações diplomáticas.

Cuba e Estados Unidos: Baía dos Porcos, Operação Mangusto e crise dos mísseis

A fase mais aguda da rivalidade eclodiu logo após o rompimento. Em abril de 1961, aproximadamente 1 500 exilados cubanos, treinados e apoiados pela CIA, tentaram derrubar o governo na invasão da Baía dos Porcos. O ataque foi derrotado em três dias após a retirada do apoio aéreo norte-americano, ordenada pelo presidente John F. Kennedy. O fracasso fortaleceu politicamente Fidel Castro e levou Washington a criar a Operação Mangusto, um programa clandestino que englobava sabotagem, ações psicológicas e tentativas de assassinato de líderes cubanos.

Em resposta, o governo da ilha buscou maior proteção soviética. Entre julho e outubro de 1962, relatórios de inteligência dos EUA detectaram o envio de armamentos avançados da URSS para Cuba. Fotografias aéreas confirmaram a instalação de mísseis nucleares, deflagrando a crise dos mísseis de Cuba, que por 13 dias colocou o planeta à beira de um confronto nuclear. As negociações resultaram na retirada dos mísseis soviéticos, mas deixaram cicatrizes profundas: Cuba consolidou sua integração ao bloco socialista e distanciou-se ainda mais de Washington.

Migração, embargo ampliado e impasses pós-Guerra Fria

Entre meados dos anos 1960 e 1990, vários governos em Washington — democratas e republicanos — alternaram momentos de “distensão” e tensão com Havana. A migração tornou-se tema de conflito e cooperação. Políticas de tratamento preferencial a imigrantes cubanos estimularam saídas contínuas. Em 1980, o êxodo de Mariel levou cerca de 125 000 pessoas à Flórida. Em 1994, durante a crise econômica que se seguiu ao colapso soviético, a crise dos balseiros viu aproximadamente 35 000 cubanos tentarem a travessia, levando os EUA a adotar a doutrina “pés secos, pés molhados”.

No campo econômico, 1996 marcou o endurecimento definitivo do embargo com a Lei Helms-Burton, que condicionou a suspensão das sanções à aprovação do Congresso norte-americano. Internamente, Cuba passou a depender intensamente do turismo e de remessas financeiras externas para compensar limitações produtivas agravadas tanto pelo bloqueio quanto por ineficiências próprias.

Cuba e Estados Unidos: aproximação de 2015 e novo endurecimento em 2025

Fidel Castro afastou-se do poder em 2006 por motivos de saúde, transmitindo a liderança a seu irmão, Raúl Castro. Reformas econômicas implementadas por Raúl criaram condições para uma reaproximação. Com mediação do papa Francisco e da Igreja Católica cubana, Washington e Havana anunciaram a retomada de laços diplomáticos em 2015, ancora-dos na gestão de Barack Obama. As embaixadas foram reabertas, restrições de viagem relaxadas e a economia da ilha vivenciou breve alívio, impulsionado pelo turismo e pelo ingresso de dólares.

No entanto, a vitória de Donald Trump em 2017 iniciou o desmonte dessas medidas. O embargo foi reforçado e obstáculos ao envio de combustível para a ilha foram intensificados. Em janeiro de 2025, a captura de Nicolás Maduro em operação militar dos EUA removeu o principal aliado energético de Havana, aprofundando a crise econômica, social e energética já existente.

Com o regresso de Trump à Casa Branca, a retórica voltou a escalar. O presidente norte-americano declarou que Cuba “está a ponto de cair”, mas confirmou, assim como o presidente cubano Miguel Díaz-Canel, que os dois governos mantêm negociações para buscar uma saída ao impasse. Ainda não há sinal claro de desfecho, e as gerações que cresceram sob hostilidade entre Cuba e Estados Unidos observam mais uma fase de incerteza, aguardando os próximos movimentos das administrações em Havana e Washington.

Conteúdo Relacionado

Go up

Usamos cookies para garantir que oferecemos a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você está satisfeito com ele. OK