CFM avalia usar Enamed para registro profissional de novos médicos

CFM avalia usar Enamed para registro profissional de novos médicos
Getting your Trinity Audio player ready...

Enamed pode se tornar, em breve, o principal filtro para a concessão do registro profissional a recém-formados em medicina no Brasil. O Conselho Federal de Medicina (CFM) analisa a possibilidade de vincular as notas obtidas no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica à liberação do número de inscrição que autoriza o exercício da profissão no país.

Índice

Enamed: o exame que entrou no centro do debate

Instituído em 2025, o Enamed foi concebido como instrumento de aferição da qualidade do ensino médico nacional. Trata-se de uma avaliação obrigatória, aplicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que reúne estudantes no fim da graduação e profissionais recém-graduados. Suas questões procuram mensurar o nível de proficiência em competências e conteúdos descritos nas Diretrizes Curriculares Nacionais de Medicina. Embora o resultado possa ser aproveitado no Exame Nacional de Residência (Enare), o desempenho no Enamed não é, até o momento, requisito para iniciar a prática clínica. A divulgação dos primeiros resultados evidenciou um cenário de disparidades: cerca de um terço dos cursos analisados apresentou desempenho insuficiente, sobretudo entre instituições da rede privada ou mantidas por municípios.

Como o CFM pretende vincular o Enamed ao registro profissional

A proposta em exame no CFM envolve recusar o registro aos formandos que tenham alcançado nota 1 ou 2, patamar classificado como insuficiente pelo Inep. Para fundamentar tecnicamente essa medida, o conselho solicitou ao Ministério da Educação (MEC) e ao próprio Inep os microdados do Enamed com identificação nominal dos participantes que ficaram nesses níveis. Até o momento, o Inep divulgou apenas um banco de dados anonimizado, contendo notas, respostas de questionários socioeconômicos e informações acadêmicas, mas sem indicar quem são os estudantes. Dessa forma, o CFM ainda aguarda resposta oficial que permita avançar na elaboração de uma resolução interna.

O presidente da autarquia, José Hiram Gallo, informou que o tema foi levado à plenária da instituição. A área jurídica do conselho avalia a redação de um normativo que impeça a inscrição dos candidatos reprovados pelo critério pretendido. Segundo Gallo, a medida seria necessária para proteger a segurança dos pacientes e elevar o padrão mínimo de competência exigido de quem pretende exercer a medicina.

Resultados do Enamed expõem fragilidades na formação médica

O detalhamento estatístico do Enamed confirmou sensível heterogeneidade entre faculdades. Conforme os números preliminares, 13 mil examinados foram classificados como não proficientes. Para o CFM, esse contingente revela um “problema estrutural gravíssimo”. Na visão do conselho, a expansão do ensino médico sem a correspondente estrutura de hospitais-escola, leitos de prática clínica e corpo docente qualificado resultou na manutenção de cursos incapazes de oferecer treinamento adequado. O órgão defende que instituições só possam funcionar livremente se atingirem conceito quatro ou cinco na avaliação oficial; já o MEC considera satisfatório o índice a partir de três.

Além de alertar para a falta de infraestrutura, o CFM apoia sanções anunciadas pelo MEC a cursos com pior desempenho, como suspensão de novos ingressos e redução de vagas. O objetivo declarado da autarquia é restringir a proliferação de escolas que operam com recursos insuficientes, preservando, assim, a qualidade da formação e diminuindo o risco de má prática.

Reações de entidades médicas ao uso do Enamed

A Associação Médica Brasileira (AMB) alinhou-se à proposta de um exame de proficiência obrigatória, reiterando que não se trata de punir o recém-formado, mas de proteger o paciente. Em nota pública, a entidade manifestou “extrema preocupação” com a possibilidade de que médicos classificados como não proficientes passem a atender livremente, considerando que o diploma, por si só, basta para a inscrição nos Conselhos Regionais de Medicina. A AMB sustenta que a exposição da população a profissionais sem o domínio mínimo requerido implicaria risco significativo de erros assistenciais.

O posicionamento da associação também critica a “expansão desordenada” de cursos de medicina, frequentemente criados sem hospital universitário, residência ou professores em número suficiente. Para a AMB, os resultados do Enamed demonstram que a prioridade deve ser a formação de bons médicos, e não apenas o aumento de vagas. A entidade defende que o modelo de avaliação periódica seja mantido e aperfeiçoado, servindo como base para futuras decisões regulatórias.

Posicionamento do setor educacional privado sobre o Enamed

A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), que representa faculdades privadas, vê com reservas a possibilidade de transformar o Enamed em instrumento punitivo. Em comunicado, a entidade recorda que o MEC definiu o exame como aferição acadêmica, não como critério de aptidão profissional. Segundo a associação, os participantes não foram avisados previamente de que existiria um corte mínimo de 60 pontos como referência de proficiência e, em muitos casos, ainda cursavam o 11.º semestre, com cerca de seis meses de aprendizado prático por cumprir.

A ABMES ressalta que, mesmo diante de exigência considerada elevada, 70 % dos estudantes alcançaram o nível de proficiência, sinalizando, na avaliação da entidade, um padrão de qualidade “relevante”. A instituição destaca que a legislação atual garante aos egressos de cursos reconhecidos o direito ao registro profissional e argumenta que qualquer restrição poderia gerar insegurança jurídica, estigmatização e déficit de assistência em saúde.

O diretor-presidente da ABMES, Janguiê Diniz, qualificou a proposta do CFM como “preocupante” e “sem validade legal” no formato vigente, alegando que estaria embasada em interesses corporativistas. Para a organização, a solução passa por diálogo interinstitucional e respeito às competências de cada órgão, evitando medidas que prejudiquem estudantes e a população.

Perspectivas legislativas para um exame de proficiência obrigatória

Paralelamente à discussão administrativa do CFM, o Congresso Nacional examina dois projetos de lei – um na Câmara dos Deputados e outro no Senado – que pretendem instituir um exame de proficiência médica como pré-requisito para exercer a profissão, à semelhança da prova aplicada pela Ordem dos Advogados do Brasil aos bacharéis em Direito. Os textos tramitam em ritmo avançado e poderão, caso aprovados, fornecer amparo legal definitivo para a exigência de avaliação sistemática antes da concessão do registro profissional.

Enquanto o parlamento debate a matéria, o CFM continua a buscar os microdados individualizados junto ao Inep para avaliar medidas normativas internas. A próxima etapa desse processo dependerá da resposta oficial do instituto responsável pela prova.

zairasilva

Olá! Eu sou a Zaira Silva — apaixonada por marketing digital, criação de conteúdo e tudo que envolve compartilhar conhecimento de forma simples e acessível. Gosto de transformar temas complexos em conteúdos claros, úteis e bem organizados. Se você também acredita no poder da informação bem feita, estamos no mesmo caminho. ✨📚No tempo livre, Zaira gosta de viajar e fotografar paisagens urbanas e naturais, combinando sua curiosidade tecnológica com um olhar artístico. Acompanhe suas publicações para se manter atualizado com insights práticos e interessantes sobre o mundo da tecnologia.

Conteúdo Relacionado

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Go up

Usamos cookies para garantir que oferecemos a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você está satisfeito com ele. OK