De burnout ao forró: como Priscila Albuquerque trocou a carreira em TI por dois anos de viagem pelo Brasil
Quando o burnout apareceu como consequência de duas décadas de rotina intensa na tecnologia bancária, a paulistana Priscila Albuquerque, 42 anos, transformou a crise em ponto de virada. Em junho do ano passado, ela abriu mão do emprego estável, vendeu o apartamento onde morava e iniciou uma jornada de, no mínimo, 24 meses viajando pelo país para trilhas na natureza e, sobretudo, para dançar forró.
Burnout leva profissional de TI a repensar carreira
A decisão ganhou contornos definitivos após uma mudança de gestão na empresa onde Priscila atuava. O novo ambiente intensificou pressões e, somado a longos períodos de estresse, resultou no esgotamento laboral diagnosticado por psicólogo e psiquiatra. Seguindo recomendação médica, ela optou por afastar-se das atividades e utilizou um benefício corporativo que permite até dois anos de licença não remunerada.
Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) apontam crescimento expressivo desse tipo de adoecimento no Brasil. Em 2024, a instituição liberou 3.359 benefícios a pessoas com síndrome de burnout, quase o triplo dos 1.153 concedidos no ano anterior. O caso de Priscila se insere nesse cenário, ilustrando a necessidade de atenção à saúde mental em ambientes corporativos.
Planejamento financeiro foi essencial após o burnout
A mudança de vida não ocorreu de modo impulsivo. Ainda em São Paulo, Priscila se dedicou a estruturar a transição. A venda do imóvel próprio liberou recursos para cobrir o período sem salário. Todos os móveis foram negociados e os itens mantidos foram levados para a casa da mãe, reduzindo custos de armazenamento.
O plano inicial também incluía despesas com deslocamento. As primeiras etapas da viagem ocorreram em carro alugado, mas o preço do aluguel mostrou-se inviável para um itinerário prolongado. Três meses depois, ela trocou o automóvel por ônibus de linha, solução financeiramente mais sustentável e que passou a nortear o restante do roteiro.
Roteiro de viagens alinhado a festivais de forró após o burnout
Desde que deixou a capital paulista, Priscila já percorreu interior de São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. A escolha de cada destino leva em conta o calendário de grandes festivais de forró espalhados pelo país. Até o momento, ela contabiliza participação em 12 ou 13 eventos, entre eles Nata Forrozeira, Buraco do Tatu, Malagueta e Beijo Me Liga.
Alguns locais se tornaram referência no roteiro dos forrozeiros e entraram no mapa da viajante: Itaúnas (ES), Caraíva (BA), Cumuruxatiba (BA), Aldeia Velha (RJ) e Ilhabela (SP). A locomotiva cultural reforça lembranças de infância, já que a mãe pernambucana sempre manteve o ritmo presente em casa. O vínculo afetivo fortaleceu a escolha de atividades que proporcionam bem-estar durante o afastamento causado pelo burnout.
Desafios de viajar sozinha pelo Brasil
Viajar sem companhia masculina envolve cuidados adicionais. Priscila evita chegar a cidades desconhecidas após o pôr do sol e avalia com atenção cada opção de transporte. Ônibus convencionais, aplicativos de carona como BlaBlaCar e corridas em veículos de aplicativo entram na rotina acompanhados de análises de rotas, horários e referências de segurança.
Mesmo com precauções, a experiência feminina no forró tem efeito acolhedor, segundo ela. O ambiente propicia interação imediata na pista de dança e diminui a sensação de isolamento comum a quem viaja sozinho. Essa dinâmica pesa na decisão de incluir um festival atrás do outro, criando uma rede de contatos capaz de auxiliar em deslocamentos, recomendações de hospedagem e indicações de trilhas em meio à natureza.
Perspectivas de futuro depois da experiência de burnout
O cronograma de dois anos segue em andamento, enquanto Priscila avalia o retorno ou não ao setor de TI. A reflexão sobre trajetória profissional ganhou novos contornos depois do burnout. A possibilidade de migrar para atividades mais conectadas ao momento atual não está descartada, mas nenhum caminho foi definido.
Independentemente da escolha futura, ela sustenta que a preparação financeira foi decisiva para minimizar riscos. Reservar recursos, listar despesas obrigatórias e estabelecer metas de economia antes da ruptura com o emprego fixo compuseram a etapa que viabilizou a viagem. O método, segundo a própria experiência, ajuda a evitar atitudes precipitadas e a transformar o intervalo na carreira em período efetivo de recuperação.
Até agora, o roteiro segue o calendário dos festivais de forró, e o próximo ponto no mapa dependerá das datas anunciadas pelos organizadores dos eventos que ocorrem ao longo do ano em diferentes regiões do país.
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