Brasil é o país que mais mata trans e travestis: dossiê da Antra registra 80 assassinatos em 2025

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Brasil é o país que mais mata trans e travestis pelo 18º ano consecutivo, de acordo com a nona edição do “Dossiê: Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras”, elaborado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e divulgado nesta segunda-feira, 26. O levantamento contabilizou 80 homicídios de pessoas trans em 2025, número que representa redução de aproximadamente 34 % na comparação com 2024, quando foram confirmados 122 crimes do mesmo tipo. Mesmo assim, a cifra mantém o país no topo do ranking mundial de letalidade contra essa população. O documento também indica aumento nas tentativas de assassinato, fator que impede a leitura de uma verdadeira queda na violência.
- Brasil é o país que mais mata trans e travestis há 18 anos
- Metodologia do dossiê reforça invisibilidade das vítimas
- Distribuição regional confirma que Brasil é o país que mais mata trans e travestis
- Perfil das vítimas revela vulnerabilidades estruturais em um país que mais mata trans e travestis
- Tentativas de homicídio e outros indicadores de violência
- Recomendações do dossiê a políticas públicas e próximos passos
Brasil é o país que mais mata trans e travestis há 18 anos
O novo dossiê da Antra consolida uma tendência que se prolonga desde 2008: o Brasil permanece em primeiro lugar no cenário internacional de homicídios envolvendo travestis e mulheres transexuais. São 18 anos de liderança negativa, reforçada pelo volume de casos absolutos e pela reincidência anual. Em 2025, foi registrada uma média de um assassinato a cada quatro dias, evidenciando que a diminuição percentual em relação ao ano anterior não altera a posição do país na comparação global.
Para a presidente da Antra, Bruna Benevides, a permanência no topo é explicada por um sistema que naturaliza a opressão. O dossiê descreve que as mortes não são eventos isolados; estão relacionadas a trajetórias de exclusão social, racismo, abandono institucional e sofrimento psicológico contínuo. Assim, a violência letal surge como ponto extremo de um ciclo de vulnerabilidades que começa ainda na infância para muitas pessoas trans.
Metodologia do dossiê reforça invisibilidade das vítimas
Os dados compilados pela Antra resultam de monitoramento diário de notícias, denúncias recebidas diretamente por organizações trans e checagem de registros públicos. Esse processo, segundo a entidade, expõe um paradoxo: sem a mobilização da sociedade civil, grande parte desses crimes sequer seria contabilizada oficialmente. A ausência de um sistema governamental robusto para registrar violência contra pessoas trans contribui para a subnotificação, alimentando a percepção de que o problema seria menor do que realmente é.
Ao longo de 2025, o grupo responsável pelo dossiê acompanhou boletins de ocorrência, reportagens locais e relatos de familiares ou testemunhas. Cada caso passou por verificação de identidade de gênero da vítima, circunstâncias da morte e localização. A metodologia, já utilizada em edições anteriores, é apontada pela Antra como alternativa para suprir lacunas do Estado em produzir estatísticas específicas, o que, na avaliação da associação, dificulta o desenho de políticas públicas eficazes.
Distribuição regional confirma que Brasil é o país que mais mata trans e travestis
O estudo apresenta recorte geográfico detalhado. Em 2025, Ceará e Minas Gerais lideraram o número de assassinatos, com oito casos cada. Na divisão por regiões, o Nordeste concentrou 38 homicídios, mantendo-se como a área mais letal do país. Em seguida aparecem Sudeste (17), Centro-Oeste (12), Norte (7) e Sul (6).
Embora o período de 2017 a 2025 aponte São Paulo como o estado com maior número absoluto de homicídios contra pessoas trans — 155 registros no acumulado —, a distribuição anual revela que a violência se espalha de forma heterogênea e dinâmica. O dossiê enfatiza que nenhum estado brasileiro ficou livre desse tipo de crime na série histórica, reforçando a abrangência nacional do problema.
Perfil das vítimas revela vulnerabilidades estruturais em um país que mais mata trans e travestis
O levantamento detalha características comuns entre as vítimas. A maioria é formada por travestis e mulheres transexuais jovens, com idade predominantemente entre 18 e 35 anos. O recorte racial aponta que pessoas negras e pardas são as mais afetadas, refletindo a intersecção entre transfobia e racismo.
As conclusões sobre perfil evidenciam fatores estruturais que dificultam a proteção dessa população. A exclusão escolar, a barreira de acesso ao mercado de trabalho formal e a falta de políticas de moradia figuram entre as causas indiretas registradas pelo dossiê. Soma-se a isso o fato de muitas vítimas estarem em situação de rua ou exercerem trabalho sexual, circunstâncias que, segundo a Antra, aumentam a exposição a agressões.
Tentativas de homicídio e outros indicadores de violência
Apesar da redução dos assassinatos em 2025, o dossiê indica crescimento nas tentativas de homicídio. A entidade alerta que a aparente melhora pode esconder deslocamento da violência para outras formas de agressão, incluindo ataques que não resultam em morte, mas geram sequelas físicas e psicológicas.
O documento lista ainda episódios de espancamento, ameaças, perseguições e violências institucionais, como a recusa de atendimento em serviços de saúde ou segurança pública. Para a Antra, a soma desses fatores evidencia que a queda de 34 % nos homicídios não se traduz em diminuição efetiva da transfobia.
Outro conjunto de dados relevantes vem do Observatório de Mortes Violentas de LGBT+, mantido pelo Grupo Gay da Bahia (GGB). Em 2025, o observatório registrou 257 mortes violentas de pessoas LGBT+, das quais 204 foram homicídios, 20 suicídios, 17 latrocínios e 16 decorrentes de outras causas, como atropelamentos e afogamentos. Embora tenha havido redução de 11,7 % em relação a 2024, a estatística corresponde a uma morte a cada 34 horas no país.
Recomendações do dossiê a políticas públicas e próximos passos
Além de diagnosticar a violência, a Antra apresenta recomendações ao poder público, ao sistema de justiça, às forças de segurança e às instituições de direitos humanos. O documento destaca a necessidade de incluir mulheres trans em políticas já existentes para mulheres cis, tornar serviços de proteção acessíveis e criar iniciativas específicas de enfrentamento à transfobia.
Entre as propostas, destacam-se: aprimoramento da coleta de dados oficiais sobre crimes motivados por identidade de gênero, capacitação de agentes de segurança para atendimento não discriminatório, campanhas de conscientização e criação de programas de inclusão laboral para travestis e transexuais.
A Antra argumenta que o dossiê “constrange o Estado” ao tornar públicos números que, de outra forma, permaneceriam invisíveis. Para a entidade, a divulgação amplia o debate, pressiona autoridades e impede o silêncio institucional.
A nona edição do relatório será apresentada em cerimônia no auditório do Ministério dos Direitos Humanos, com entrega oficial a representantes do governo federal. Esse evento marca o próximo passo na tentativa de transformar estatísticas em ações concretas voltadas à redução da violência contra pessoas trans no Brasil.

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