Anomalia do Atlântico Sul obriga o Hubble a interromper observações por 3 horas diárias

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Anomalia do Atlântico Sul é o nome da área do campo magnético terrestre que força o Telescópio Espacial Hubble a desligar seus instrumentos entre sete e nove vezes em cada dia de operações, acumulando aproximadamente três horas de inatividade a cada período de 24 horas.
- O que é a Anomalia do Atlântico Sul e onde ela se localiza
- Como a Anomalia do Atlântico Sul afeta o telescópio espacial mais famoso do mundo
- Impacto operacional: 3 horas sem ciência em cada dia de trabalho
- Procedimentos automáticos de proteção adotados pela NASA
- Por que o James Webb não sente os efeitos da Anomalia do Atlântico Sul
O que é a Anomalia do Atlântico Sul e onde ela se localiza
A Anomalia do Atlântico Sul, frequentemente abreviada como AAS, corresponde a uma falha no escudo magnético que envolve o planeta. O centro dessa irregularidade está situado sobre o território brasileiro, estendendo-se por boa parte da América do Sul e por porções adjacentes do Atlântico. Dentro dessa região, o magnetismo da Terra é menos eficiente em desviar partículas carregadas que chegam do espaço, deixando escapar níveis mais altos de radiação até altitudes normalmente protegidas.
Sob esse “buraco” do campo magnético, prótons de alta energia e outros detritos carregados penetram em camadas mais baixas da atmosfera, formando um ambiente hostil para equipamentos eletrônicos que circulam em órbita baixa. Satélites de pesquisa, observação da Terra e, notoriamente, o Hubble precisam adotar protocolos de cautela toda vez que cruzam a zona crítica.
Como a Anomalia do Atlântico Sul afeta o telescópio espacial mais famoso do mundo
O Hubble opera a cerca de 540 quilômetros acima da superfície, em uma órbita que dá ao observatório uma volta completa em torno do globo a cada 97 minutos. Ao longo de 24 horas, essa trajetória rende cerca de 15 órbitas. Entre sete e nove passagens diárias atravessam o trecho contaminado pela AAS.
Quando isso ocorre, os computadores de bordo executam um comando automático: desligar a alta voltagem dos sensores e das câmeras científicas. O desligamento dura de 20 a 25 minutos em cada passagem, tempo que, somado, representa aproximadamente 15 % do dia. Esse percentual equivale a pouco mais de três horas de observações astronômicas perdidas.
Dois riscos justificam a medida de segurança. Primeiro, qualquer exposição dos detectores à radiação resulta em imagens inutilizáveis repletas de ruído — pontos brancos que mascaram completamente os dados celestes. Segundo, a sobrecarga elétrica pode danificar componentes delicados, colocando em perigo um equipamento avaliado em bilhões de dólares.
Impacto operacional: 3 horas sem ciência em cada dia de trabalho
O custo científico da Anomalia do Atlântico Sul para o Hubble não se contabiliza apenas em minutos parados, mas também em planejamento de missão. Astrônomos precisam agendar observações levando em conta as interrupções programadas. Instrumentos como o Espectrógrafo de Imagens do Telescópio Espacial (STIS) seguem regras ainda mais restritivas: o aparelho fica proibido de funcionar mesmo quando a órbita apenas tangencia a borda da anomalia, eliminando janelas adicionais de coleta de dados.
Na prática, a cada ciclo de 24 horas o Hubble deixa de registrar alvos cósmicos, atrasando calendários de pesquisa e estendendo períodos de espera na fila de experimentos. Isso se traduz em menor volume de fotografias de nebulosas, galáxias e outros objetos astronômicos, além de limitar medições espectroscópicas cruciais para estudar a composição química do universo.
Procedimentos automáticos de proteção adotados pela NASA
Os manuais operacionais do telescópio detalham a sequência que garante a integridade do observatório. No momento em que os sistemas de navegação detectam a entrada na AAS, circuitos específicos cortam o fornecimento de alta tensão aos sensores. Telímetros, giroscópios e sistemas de controle de atitude seguem ativos, mas câmeras e espectrógrafos permanecem desligados até o satélite cruzar o limite oposto da região.
Ao fim do trecho crítico, os computadores restauram gradualmente a voltagem, processo que envolve testes de diagnóstico para confirmar que nenhum componente sofreu descargas inesperadas. Somente depois disso os subsistemas ópticos voltam a coletar dados científicos. O procedimento se repete diariamente, muitas vezes enquanto o observatório sobrevoa áreas densamente povoadas do Brasil sem que as pessoas percebam que, acima delas, o telescópio encontra-se temporariamente “cego”.
Por que o James Webb não sente os efeitos da Anomalia do Atlântico Sul
O problema enfrentado pelo Hubble não é compartilhado por seu sucessor, o Telescópio Espacial James Webb. Lançado para o Ponto de Lagrange L2, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra, o Webb permanece muito além dos cinturões de radiação de Van Allen e, portanto, fora do alcance da anomalia sul-atlântica. Sem a necessidade de desligar instrumentos, o observatório mais novo pode manter uma rotina contínua de observações, focado em captar luz infravermelha de objetos distantes.
Essa diferença ilustra a importância de considerar fatores geofísicos na escolha de órbitas para missões futuras. Enquanto o Hubble continua entregando descobertas emblemáticas mesmo com as limitações impostas pela AAS, telescópios posteriores utilizam locais mais afastados para escapar de riscos semelhantes.
Assim que conclui cada travessia sobre o território brasileiro e volta a se posicionar sobre o Oceano Atlântico ou sobre a África, o Hubble reativa completamente seus sistemas ópticos e retoma as observações previstas para o restante da órbita de 97 minutos.

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