Venezuelanos no Brasil narram desafios da migração e apreensão diante da crise e da intervenção na Venezuela

Venezuelanos no Brasil narram desafios da migração e apreensão diante da crise e da intervenção na Venezuela

Venezuelanos no Brasil descrevem, a partir de trajetórias pessoais, como a crise econômica em seu país de origem e a intervenção militar norte-americana alteram rotinas, sentimentos e planos familiares.

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Venezuelanos no Brasil lidam com lembranças de um país em conflito

O fluxo migratório venezuelano para o território brasileiro ganhou força a partir de 2017, mas alguns cidadãos fizeram a travessia antes desse pico. Ao chegar, encontraram realidades distintas: oportunidades profissionais, vagas em universidades e, ao mesmo tempo, a angústia de acompanhar à distância o agravamento da situação política, social e humanitária na Venezuela. Hoje, essas narrativas individuais ajudam a compreender os múltiplos efeitos da instabilidade que resultou, recentemente, na invasão liderada pelos Estados Unidos e na retirada forçada do presidente Nicolás Maduro para solo norte-americano.

Benjamin Mast: pioneirismo profissional e temor de que o país vire colônia

O produtor de audiovisual Benjamin Mast, de 44 anos, deixou a Venezuela em 2016. Instalado em Roraima, ele administra uma produtora ao lado da esposa e cria a filha de um ano. A decisão de migrar amadureceu a partir de 2014, quando recebeu as primeiras ofertas de trabalho no Brasil. Enquanto oportunidades surgiam do lado de cá da fronteira, o mercado audiovisual venezuelano encolhia sob a recessão econômica. Com a demanda interna praticamente paralisada, Mast avaliou que a mudança definitiva seria o caminho mais seguro para continuar exercendo a profissão.

Segundo ele, o processo ocorreu de forma tranquila, pois, naquele momento, chegavam ao Brasil cerca de cem conterrâneos por dia, número menor do que o observado a partir de 2017. A estabilização na nova cidade contrastou com o sentimento de impotência ao acompanhar, pelos noticiários, a escalada de tensão que culminou em bombardeios e na presença militar estrangeira em sua terra natal.

Mast considera que o cenário atual resulta de uma combinação de políticas internas adotadas pelo governo de Maduro e das sanções impostas pelos Estados Unidos, sobretudo sobre a indústria petrolífera. Ao ver imagens de explosões em Caracas e a reação de parte da população celebrando a ofensiva, descreve uma sensação de “coração partido”, pois teme que a Venezuela perca soberania e se torne dependente de interesses externos. Para o produtor, um vazio de poder torna o futuro político incerto e pode acentuar a polarização social.

Academia e família: o percurso de Livia Vargas entre venezuelanos no Brasil

A professora Livia Esmeralda Vargas González também integra o grupo de venezuelanos no Brasil desde 2016. A docente desembarcou no país após receber bolsa para o doutorado em História na Universidade Federal de Ouro Preto, iniciado em 2017. Ao longo de cinco anos concluiu duas teses, uma em História e outra em Filosofia, explorando inclusive temas ligados ao passado de sua própria nação.

O processo acadêmico coincidiu com a intensificação da crise venezuelana. Longe da família, a pesquisadora sentia uma dualidade permanente: gratidão pelo acolhimento brasileiro e dor por acompanhar o agravamento das condições de vida dos parentes. Ela recorda que, antes de partir, atuava como professora associada de Sociologia na principal universidade pública venezuelana, porém o salário já não cobria despesas básicas. Muitos colegas, relata, passaram a complementar a renda com entregas ou trabalhos temporários, reduzindo drasticamente o tempo dedicado à pesquisa.

Em agosto do ano passado, parte desse peso emocional diminuiu: o filho Aquiles Léon, de 21 anos, foi aprovado em processo seletivo para estudantes latino-americanos e conseguiu vaga no curso de Engenharia da Energia da Universidade Federal de Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu, no Paraná. Embora a presença do jovem proporcione apoio mútuo, ambos enfrentam os desafios típicos de quem recomeça em outro país: adaptação cultural, documentação e inserção social.

Livia observa a intervenção externa na Venezuela como um marco sem precedentes desde a independência conduzida por Simón Bolívar. Preocupa-se com a família, que enfrenta escassez de energia, alimentos e itens de primeira necessidade, assim como com o risco de novos ataques. A viagem do pai ao Brasil, planejada para fevereiro, tornou-se inviável diante do clima de insegurança.

Maria Elias: da informática à gastronomia para sustentar a família

A terceira história é a de Maria Elias, que chegou ao Brasil em 2015 acompanhada do marido e de dois filhos. Natural de Güigüe, no estado de Carabobo, ela trabalhava como técnica em informática e mantinha uma loja própria. Com o aprofundamento da crise, a família optou por buscar alternativas fora do território venezuelano, ciente de que o êxito não era garantido.

O início na nova terra foi marcado por barreiras linguísticas, diferenças culturais e dificuldade de inserção no mercado de trabalho formal. A solução encontrada veio da própria ascendência familiar: a culinária libanesa. Depois de apresentar um cardápio especializado a uma lanchonete próxima à residência no Rio de Janeiro, conseguiu o primeiro pedido. O relacionamento com os proprietários evoluiu para uma rede de apoio, fundamental na etapa de adaptação.

Com boa recepção dos clientes, Maria e o marido passaram a ser contratados para jantares em domicílio. Em 2016, expandiram o menu, unindo pratos árabes e mediterrâneos, o que consolidou a renda familiar. Mesmo estabilizada no Brasil, ela mantém contato frequente com parentes que permanecem na Venezuela e demonstra preocupação com o quadro político local. Maria vê a retirada de Maduro como um ponto positivo, mas reconhece que o país segue em ambiente confuso, polarizado e com futuro eleitoral indefinido.

Fatores que agravam o sentimento de insegurança entre venezuelanos no Brasil

As três trajetórias apresentam denominadores comuns. Primeiro, a migração não foi planejada como exílio definitivo, mas tornou-se permanente à medida que a crise se aprofundou. Segundo, todos experimentam mistura de gratidão pelas oportunidades conquistadas no Brasil e angústia por familiares expostos à instabilidade no país de origem. Terceiro, o avanço da intervenção estrangeira amplia a sensação de incerteza, pois coloca em xeque a soberania venezuelana e pode prolongar conflitos.

Entre as causas apontadas para o colapso, as mais recorrentes são: políticas econômicas internas consideradas falhas, queda da produção de petróleo, bloqueios comerciais internacionais e esgotamento dos serviços públicos. As consequências identificadas pelos migrantes incluem escassez de alimentos, precarização salarial, insegurança física e êxodo contínuo.

No Brasil, essas experiências dão origem a redes de solidariedade que auxiliam recém-chegados em etapas como regularização migratória, busca por emprego e acesso a serviços públicos. Nas cidades onde se instalaram, os entrevistados relatam acolhimento em escolas, universidades e pequenos negócios, ainda que, por vezes, enfrentem obstáculos como a língua e a validação de diplomas.

Horizonte político indefinido preocupa venezuelanos no Brasil

O desfecho da crise desperta expectativa variada entre venezuelanos no Brasil. Parte vê na permanência temporária de setores do antigo governo uma forma de preservar algum grau de institucionalidade até a realização de eleições consideradas livres. Outros temem que o vazio de poder abra espaço para disputas internas e maior violência.

Do ponto de vista econômico, prevalece a avaliação de que a intervenção norte-americana tende a favorecer grupos empresariais ligados ao petróleo, sem garantir melhoria imediata nas condições de vida da população. Há receio de que a dependência externa se intensifique, comprometendo a capacidade de reconstrução autônoma do país.

Enquanto não há definição sobre data e formato de futuros pleitos eleitorais, familiares permanecem em situação vulnerável, submetidos a racionamentos de energia e incerteza sobre suprimentos essenciais. Esses fatores moldam as prioridades dos migrantes que vivem no Brasil: ampliar redes de ajuda, enviar remessas financeiras e, quando possível, trazer parentes próximos.

A comunidade internacional ainda não anunciou calendário oficial para o próximo processo eleitoral venezuelano, e não há confirmação de novas etapas de negociação entre forças políticas internas e governos estrangeiros.

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