Venezuela inicia processo para retomar relações diplomáticas com EUA após invasão e sequestro de Maduro

Venezuela comunicou que dará início a um processo exploratório com os Estados Unidos para restabelecimento das relações diplomáticas, rompidas desde 2019, poucos dias depois de uma operação militar norte-americana que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores.
- Venezuela define parâmetros para a retomada diplomática
- Contexto da invasão dos Estados Unidos à Venezuela
- Sequestro de Nicolás Maduro impacta Venezuela e a comunidade internacional
- Reação do Brasil e vizinhos à crise na Venezuela
- Posicionamento do Congresso dos Estados Unidos e controle do petróleo da Venezuela
- Próximos passos nas tratativas entre Venezuela e Estados Unidos
Venezuela define parâmetros para a retomada diplomática
De acordo com nota divulgada pelo chanceler Yván Gil, o governo venezuelano pretende discutir com Washington uma série de pontos considerados prioritários. Entre eles estão a responsabilização pela “agressão” ao território nacional, a restituição do presidente e de sua esposa, além da construção de uma agenda de trabalho de interesse mútuo. A iniciativa marca a primeira tentativa formal de diálogo bilateral desde a ruptura de 2019, quando Caracas expulsou diplomatas norte-americanos e reconheceu a relação como suspensa.
O comunicado destaca que o esforço ocorrerá “no marco do direito internacional” e “em estrito apego aos princípios da soberania”, sinalizando que qualquer contato deverá respeitar a condição de autodeterminação do país caribenho. Embora não haja ainda indicação de datas, locais ou equipes designadas, o Ministério das Relações Exteriores afirma que os primeiros contatos terão caráter exploratório, com o objetivo de avaliar a viabilidade de negociações subsequentes.
Contexto da invasão dos Estados Unidos à Venezuela
A iniciativa diplomática surge menos de uma semana depois da invasão militar norte-americana à Venezuela, realizada no sábado, 3 de janeiro de 2026. A investida, considerada pelo governo de Caracas como “criminosa, ilegítima e ilegal”, teria provocado a morte de mais de uma centena de civis e militares venezuelanos. A operação, que não contou com o aval do Congresso dos Estados Unidos nem com autorização internacional, culminou na captura de Maduro e de Cilia Flores em instalações oficiais da capital.
O governo venezuelano sustenta que a ação violou frontalmente normas de direito internacional, entre elas a imunidade de chefes de Estado. Em virtude da ofensiva, autoridades locais falam em forte impacto na infraestrutura militar e civil. Serviços públicos em áreas afetadas registraram interrupções temporárias, enquanto unidades de saúde relataram sobrecarga no atendimento emergencial.
Sequestro de Nicolás Maduro impacta Venezuela e a comunidade internacional
O sequestro do presidente gerou rápida mobilização diplomática. Caracas formalizou denúncia em instâncias multilaterais e exigiu a libertação imediata de Maduro e de sua esposa. O episódio também foi levado ao Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA), onde representantes de diferentes países expressaram preocupação.
Durante a mesma sessão, o embaixador brasileiro na OEA, Benoni Belli, classificou a ação como “grave”, afirmando que a América Latina volta a enfrentar práticas que se julgavam superadas. Para Caracas, o retorno do casal presidencial é condição essencial para a continuidade de qualquer agenda bilateral com Washington.
Reação do Brasil e vizinhos à crise na Venezuela
O impacto regional foi imediato. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva manteve diálogo com diversos chefes de Estado da América do Sul, enfatizando a necessidade de preservação do direito internacional. Na quinta-feira, 8 de janeiro, Lula recebeu telefonema do líder colombiano Gustavo Petro. Os dois países compartilham as maiores fronteiras terrestres com a Venezuela, cada qual com mais de 2 mil quilômetros de extensão.
No contato, ambos manifestaram “grande preocupação” com o uso da força contra um Estado sul-americano, destacando que a violação da soberania venezuelana representa precedente perigoso para a paz regional. Fontes diplomáticas brasileiras indicam que Brasília avalia apoiar eventual missão de bons ofícios, caso haja demanda formal da comunidade internacional.
Outros governos do Mercosul acompanharam o posicionamento brasileiro. Embora não tenham sido divulgados detalhes sobre eventuais sanções ou resoluções conjuntas, chancelerias da região reforçaram a defesa da integridade territorial venezuelana e a busca por uma solução negociada.
Posicionamento do Congresso dos Estados Unidos e controle do petróleo da Venezuela
Dentro dos Estados Unidos, a operação militar desencadeou debate legislativo. Ainda na quinta-feira, o Senado norte-americano aprovou resolução ordenando a interrupção do uso da força contra a Venezuela sem autorização explícita do Congresso. O texto exige que o Executivo pare as hostilidades, salvo se houver declaração formal de guerra ou nova autorização para emprego militar.
Em paralelo, declarações do presidente norte-americano Donald Trump ao periódico The New York Times trouxeram à tona a dimensão econômica do conflito. Trump afirmou que seu governo poderia “controlar a receita da venda de petróleo da Venezuela por anos” e revelou a tomada de 50 milhões de barris de petróleo venezuelano, que seriam direcionados para refino e comercialização por empresas dos Estados Unidos.
Especialistas ouvidos por organismos regionais alertam que a retenção de receitas petrolíferas pode agravar o quadro humanitário venezuelano, dependente de exportação de hidrocarbonetos para obtenção de divisas. O governo de Caracas sustenta que quaisquer recursos confiscados pertencem ao povo venezuelano e que a apropriação configura violação adicional ao direito internacional.
Próximos passos nas tratativas entre Venezuela e Estados Unidos
O Ministério das Relações Exteriores da Venezuela informou que a fase exploratória do diálogo poderá incluir trocas de notas diplomáticas e eventual mediação de organismos multilaterais. Segundo a chancelaria, a libertação de Nicolás Maduro e de Cilia Flores permanecerá no topo da pauta, bem como a discussão sobre responsabilidades pelos mortos durante a invasão.
Do lado norte-americano, ainda não há indicação pública sobre quem conduzirá as conversas. Autoridades em Washington enfrentam pressão de senadores que exigem explicações sobre a legalidade da operação militar, enquanto setores econômicos demonstram interesse em manter controle sobre ativos petrolíferos venezuelanos.
Até o momento, não foi definida data para o primeiro encontro presencial ou virtual entre representantes dos dois governos. Entretanto, a resolução aprovada pelo Senado dos Estados Unidos determina que qualquer nova ação militar dependa de autorização legislativa, situação que pode influenciar o ritmo e o tom das negociações.
Em Caracas, a expectativa é de que os próximos comunicados oficiais detalhem a composição das delegações e clarifiquem o papel de possíveis observadores externos. O progresso do processo exploratório será acompanhado de perto pelos países vizinhos, sobretudo Brasil e Colômbia, cujos governos mantêm canais abertos com ambas as partes.
Com as atenções voltadas para eventuais avanços diplomáticos, a próxima etapa concreta será a divulgação da agenda inicial de reuniões, que deverá ocorrer após a conclusão das consultas internas anunciadas por Yván Gil.

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