Vacina contra covid: mobilização da Fiocruz gera legado permanente para o SUS

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A produção nacional da vacina contra covid transformou uma emergência sanitária em oportunidade de fortalecer o Sistema Único de Saúde. Em menos de dois anos, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio de Bio-Manguinhos, internalizou a tecnologia, entregou 190 milhões de doses ao Programa Nacional de Imunizações e construiu capacidades que permanecem ativas para outras doenças.
- Da urgência global à mobilização brasileira pela vacina contra covid
- Como Bio-Manguinhos estruturou a produção da vacina contra covid
- Etapas da transferência de tecnologia da vacina contra covid
- Impacto imediato: doses distribuídas e vidas poupadas
- Legado tecnológico para o SUS após a vacina contra covid
- Perspectivas: novas terapias e vacinas em desenvolvimento
Da urgência global à mobilização brasileira pela vacina contra covid
O ponto de partida foi 8 de dezembro de 2020, data em que uma cidadã britânica tornou-se a primeira pessoa vacinada fora dos ensaios clínicos. O evento simbolizou a velocidade incomum do desenvolvimento de imunizantes. Longe de ser fruto de improviso, essa rapidez resultou do conhecimento acumulado sobre plataformas de RNA mensageiro e de vetor viral, já testadas em outras situações. Ao perceber o avanço do coronavírus, Bio-Manguinhos iniciou, ainda em março de 2020, um plano emergencial para diagnosticar casos no país e prospectar os projetos de vacina mais promissores.
Nessa fase inicial, duas frentes atuaram simultaneamente. A primeira concentrou-se na fabricação de testes de diagnóstico, essenciais para mapear a dispersão do vírus. A segunda dedicou-se a analisar vacinas em desenvolvimento ao redor do mundo, com o objetivo de selecionar a candidata que pudesse chegar ao Brasil por meio de transferência de tecnologia. Em agosto de 2020, conversas com a Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca avançaram para um acordo formal.
Como Bio-Manguinhos estruturou a produção da vacina contra covid
Viabilizar o contrato exigiu alterações profundas na rotina do instituto. Todas as demais atividades foram temporariamente suspensas, liberando equipes e laboratórios para a nova missão. Advogados, cientistas e técnicos criaram, em tempo recorde, um arcabouço jurídico inédito, pois a tecnologia ainda estava em fase de ensaio clínico. Paralelamente, houve mobilização da sociedade civil, que contribuiu para a aquisição de insumos, equipamentos e materiais de laboratório.
No plano operacional, Bio-Manguinhos contou com a infraestrutura já existente para vacinas de febre amarela, poliomielite e outras doenças. Essa experiência prévia facilitou a adaptação de linhas de enchimento, rotulagem e controle de qualidade. Também foi decisiva a atuação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que acompanhou cada etapa, assegurando que a produção atendesse aos padrões internacionais.
Etapas da transferência de tecnologia da vacina contra covid
O cronograma estabelecido dividiu-se em três fases. A primeira consistiu na importação de lotes prontos. Em janeiro de 2021 chegaram 2 milhões de doses, poucos dias após a autorização de uso emergencial concedida pela Anvisa. A segunda fase, iniciada em fevereiro do mesmo ano, substituiu as remessas acabadas pelo Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA). A partir desse insumo, o instituto passou a realizar envase, rotulagem e testes de liberação em território nacional.
A etapa final implicava domínio completo do processo, incluindo a fabricação do próprio IFA. Para isso, áreas produtivas foram reformuladas e equipamentos adicionais adquiridos. Em fevereiro de 2022, Bio-Manguinhos começou a entregar lotes inteiramente nacionais, concluindo a transferência de tecnologia. O resultado concreto dessa trajetória foi a incorporação de uma plataforma de vetor viral ao portfólio brasileiro, ampliando a autonomia em imunobiológicos.
Impacto imediato: doses distribuídas e vidas poupadas
No primeiro ano de imunização, o imunizante de Oxford/AstraZeneca produzido pela Fiocruz foi o mais utilizado em todo o território nacional. Levantamentos de especialistas indicam que, apenas em 2021, aproximadamente 300 mil vidas foram preservadas graças à campanha de vacinação. Essa cifra sintetiza o valor da logística montada: 190 milhões de doses distribuídas ao PNI, cobrindo todas as unidades federativas e contribuindo para reduzir internações, óbitos e sobrecarga hospitalar.
Além do efeito direto sobre a saúde pública, o processo consolidou protocolos de fabricação que podem ser replicados em futuras emergências. O instituto elevou sua capacidade de resposta e ganhou reconhecimentos externos, como a inclusão em uma lista de seis centros globais aptos a produzir vacinas em situações de surto, segundo a Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias.
Legado tecnológico para o SUS após a vacina contra covid
Encerrada a produção da vacina específica, o parque fabril e a mão de obra especializada continuaram disponíveis. Essa infraestrutura já está sendo aplicada a novos projetos estratégicos para o Sistema Único de Saúde. Um dos exemplos é uma terapia avançada para atrofia muscular espinhal (AME), doença rara que compromete músculos essenciais à mobilidade e à respiração. Os tratamentos internacionais chegam a custar R$ 7 milhões por paciente. Utilizando a mesma plataforma de vetor viral da vacina contra covid, Bio-Manguinhos desenvolveu um medicamento experimental que, se aprovado, deverá reduzir significativamente o custo para o SUS.
Outro desdobramento direto é a pesquisa de uma vacina de RNA mensageiro contra o próprio coronavírus. A tecnologia, que já era investigada no instituto para aplicações oncológicas, ganhou impulso após a pandemia e será testada em humanos ainda este ano. Produzir esse imunizante no país reforça a segurança sanitária, pois diminui a dependência de importações e permite resposta célere a variantes.
Perspectivas: novas terapias e vacinas em desenvolvimento
O reconhecimento internacional obtido durante a crise sanitária rendeu convite da Organização Mundial da Saúde para que Bio-Manguinhos atue como hub regional de produtos baseados em RNA mensageiro. Na prática, isso significa acesso prioritário a dados científicos e participação em redes colaborativas para acelerar a criação de imunizantes para toda a América Latina em eventuais epidemias.
A projeção global não altera a vocação pública do instituto, cujo objetivo permanece focado no interesse coletivo. Ao concentrar competência técnica, capacidade industrial e experiência regulatória, a Fiocruz amplia a soberania brasileira em saúde e reforça a sustentabilidade do SUS. Os próximos passos concretos incluem o início dos ensaios clínicos da terapia para AME e a fase I da vacina nacional de mRNA contra a covid-19, ambos previstos para este ano.
A expectativa é que esses estudos gerem evidências de eficácia e segurança, abrindo caminho para registros futuros na Anvisa e disponibilidade em larga escala para a população.

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