Suspensão do voo inaugural do Zhuque-3 intensifica corrida chinesa por foguetes reutilizáveis

Suspensão do voo inaugural do Zhuque-3 intensifica corrida chinesa por foguetes reutilizáveis
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Jiuquan, noroeste da China – O primeiro ensaio orbital do foguete Zhuque-3, considerado o candidato mais avançado do país a pousar um propulsor após missão no espaço, foi suspenso sem nova previsão de data. A interrupção ocorre depois de uma série de ajustes no cronograma que inicialmente apontava para a decolagem no sábado, 29, posteriormente adiada para segunda-feira, 1.º, até ser retirada da agenda. A LandSpace, fabricante do veículo, não divulgou as razões do cancelamento, mas fontes que acompanham o setor classificam o atraso como mais amplo do que “alguns dias”.

Índice

O contexto que cerca o adiamento

A suspensão do lançamento destaca a estratégia chinesa de dominar a tecnologia de foguetes reutilizáveis, área hoje liderada pela norte-americana SpaceX. No modelo inaugurado pelo Falcon 9, a recuperação rotineira do primeiro estágio reduz custos, aumenta a cadência de voos e atrai contratos governamentais e privados. Para não ficar à margem desse mercado, a China posicionou três veículos reutilizáveis no Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan: Zhuque-3, Long March 12A e Tianlong-3. O objetivo oficial é replicar o conceito de pouso vertical, validar a engenharia local e oferecer acesso orbital mais barato a clientes de satélites, inclusive megaconstelações de internet.

O Zhuque-3 e a meta de pouso no voo inaugural

Com 66 metros de altura, 4,5 metros de diâmetro e estrutura em aço inoxidável, o Zhuque-3 foi desenvolvido para ser utilizado até 20 vezes. O primeiro estágio emprega nove motores de metano e oxigênio líquidos Tianque-12A, capazes de entregar a potência necessária para levar cerca de 18 toneladas à órbita baixa quando a missão prevê recuperação. Para o voo inaugural, a LandSpace planejara uma sequência completa: inserção da carga útil em órbita e retorno controlado do propulsor a aproximadamente 400 quilômetros da torre de lançamento, onde uma plataforma de pouso recém-construída está equipada com sistemas de supressão de incêndio.

O perfil de descida segue as etapas adotadas internacionalmente: reentrada atmosférica guiada por aletas grid fins, queima de desaceleração para correção de curso e ignição final próxima ao solo, apoiada em quatro pernas retráteis. Segundo a empresa, algoritmos de controle de voo, materiais estruturais, sistemas de navegação e arquitetura de propulsão foram projetados internamente, evitando dependência de tecnologias estrangeiras.

Marcos de teste alcançados antes da suspensão

Nos dois anos que antecederam a tentativa orbital, o Zhuque-3 passou por uma campanha de validação intensa. Em setembro de 2024, realizou um voo atmosférico a 10 quilômetros, com religamento de motor para simular pouso. Ensaios estáticos de 45 segundos verificaram o conjunto de nove motores emparelhados ao segundo estágio, elevando o nível de confiança interna. Na fase final, já em Jiuquan, a LandSpace concluiu abastecimento completo, checagens elétricas e um teste de ignição integral do primeiro estágio.

Apesar do progresso, o lançamento precisou ser remarcado mais de uma vez. O último adiamento antes da data agora indefinida decorreu de um incidente envolvendo detritos na estação espacial Tiangong, o que exigiu reavaliações de segurança. A situação atual indica que o cronograma sofrerá impacto significativo, sem que observadores arrisquem um novo horizonte para decolagem.

Long March 12A: a resposta da indústria estatal

Enquanto a LandSpace conduz um projeto privado, a Academia de Tecnologia Aeroespacial de Xangai lidera o Long March 12A, evolução metalo-oxigênica do tradicional Long March 12. A versão “A” também aposta no metano criogênico como combustível principal e na reutilização do propulsor. A capacidade de transporte, estimada em 12 toneladas para órbita baixa, atende a satélites médios e lotes de pequenas cargas.

Diferentemente do Zhuque-3, o Long March 12A carrega o peso institucional de um programa estatal. A prioridade política envolve não apenas a conquista de mercado externo, mas a demonstração de autossuficiência estratégica. O plano oficial prevê tentativa de pouso logo no voo inaugural, usando igualmente uma zona de aterrissagem a cerca de 400 quilômetros de Jiuquan.

Tianlong-3: aposta comercial da Space Pioneer

Com perfil intermediário, o Tianlong-3, desenvolvido pela Space Pioneer, também utiliza metano e se enquadra no conceito de propulsor reutilizável. Entretanto, a empresa optou por não executar manobras de retorno já no primeiro ensaio orbital. A decisão prioriza a entrega segura da carga e a coleta de dados de voo, adiando a etapa de pouso para missões subsequentes. O posicionamento comercial mira contratos de lançamento frequente para operadores privados de satélites, segmento em rápida expansão no país.

Concorrência interna e prestígio nacional

O adiamento do Zhuque-3 reacende a disputa interna pelo título de primeiro pouso orbital bem-sucedido da China. De um lado, consórcios privados buscam provar que a flexibilidade de gestão e a inovação rápida podem superar os programas estatais. De outro, as gigantes industriais ligadas ao governo contam com larga experiência, financiamento robusto e influência política para alcançar a vitória simbólica.

Nas redes sociais chinesas, o tema alimenta debates animados, ampliados por declarações de figuras globais do setor espacial. Elon Musk, fundador da SpaceX, comentou que, mesmo com um pouso bem-sucedido, levará anos até que qualquer concorrente replique a confiabilidade da frota Falcon, que soma centenas de recuperações. A observação ressalta o desafio de transformar um marco pontual em rotina operacional, aspecto considerado crucial para a redução real de custos.

Próximos passos tecnológicos

Além do Zhuque-3, a LandSpace trabalha em um conceito mais ambicioso batizado de Zhuque-X, comparado em escala à Starship. O projeto prevê estrutura de aço de grande porte, motores de alto empuxo Lanyan-20 e capacidade de transportar cargas muito superiores. Até o momento, o motor acumulou dezenas de ignições em bancada, mas o sistema completo ainda se encontra em fase inicial de desenvolvimento.

No plano macro, autoridades chinesas vinculam a reutilização de foguetes à meta de elevar a cadência de lançamentos e ampliar a participação do país no mercado global, hoje dominado por provedores norte-americanos. O ganho esperado não se resume a menor custo por quilo em órbita; inclui também facilidade logística para manter constelações de satélites e oferecer fornecedores alternativos a governos estrangeiros.

Impactos para constelações e clientes comerciais

A possibilidade de voos frequentes e parcialmente reaproveitáveis interessa a gestores de constelações de internet que exigem substituição constante de unidades. Com o Zhuque-3 estimado para 18 toneladas por lançamento, operadores de pequenos satélites podem agrupar dezenas de cargas em uma única missão, diluindo o custo individual. Já o Long March 12A, com 12 toneladas, e o Tianlong-3, de capacidade intermediária, completam um portfólio escalonado capaz de atender diferentes perfis de cliente.

A suspensão atual, no entanto, evidencia que a confiabilidade operacional ainda deve percorrer etapas de maturação. Analistas apontam que atrasos de cronograma podem afetar contratos já negociados e, por consequência, o fluxo de receita das empresas privadas. Ao mesmo tempo, a prioridade de segurança permanece inegociável, sobretudo em voos que visam recuperar estágios próximos a instalações habitadas.

O que se sabe até o momento

• Três foguetes reutilizáveis – Zhuque-3, Long March 12A e Tianlong-3 – estão prontos em Jiuquan para disputar o primeiro pouso orbital da China.
• O Zhuque-3 teve a estreia suspensa; não há explicação oficial nem nova data anunciada.
• O plano da LandSpace previa órbita de carga útil e pouso do primeiro estágio a 400 km do sítio de lançamento.
• Long March 12A e Tianlong-3 permanecem nos cronogramas originais, mas sem confirmação pública de datas.
• A corrida insere a China no esforço de reduzir custos e ampliar presença no mercado de lançamentos, atualmente dominado pela SpaceX.

Enquanto a contagem regressiva oficial não recomeça, as atenções permanecem voltadas para Jiuquan. Cada movimentação no complexo de lançamento pode indicar qual dos três veículos tomará a dianteira e registrará o primeiro pouso orbital bem-sucedido do país, passo considerado essencial para consolidar a próxima etapa do programa espacial chinês.

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