Sanções dos EUA impulsionam colapso econômico da Venezuela ao limitar petróleo, finanças e comércio

Sanções dos EUA impulsionam colapso econômico da Venezuela ao limitar petróleo, finanças e comércio
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As sanções dos EUA contra a Venezuela, aplicadas a partir de 2017 e ampliadas nos anos seguintes, interferiram diretamente na capacidade do país de gerar divisas, refinanciar dívidas e manter o abastecimento interno, configurando um dos fatores determinantes para o colapso econômico que eliminou três quartos do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2013 e 2022.

Índice

Impacto inicial das sanções dos EUA na economia venezuelana

A primeira medida de grande alcance foi promulgada em agosto de 2017, ainda no governo Donald Trump, restringindo o acesso de Caracas ao mercado financeiro norte-americano. A decisão bloqueou emissões de títulos, travou operações de refinanciamento e lançou suspeição sobre qualquer transação envolvendo entes públicos venezuelanos. Até então, a economia já enfrentava retração devido à queda internacional do preço do petróleo ocorrida em 2014, mas a limitação do crédito agravou a escassez de divisas e inibiu importações essenciais, ampliando o desabastecimento.

A cada rodada de sanções, Washington acrescentou novos setores à lista de restrições. Entre 2018 e 2020, foram proibidos negócios envolvendo ouro, outros minérios, petróleo bruto e até diesel. Empresas de terceiros países que insistissem em comercializar com a estatal Petróleos de Venezuela S.A. (PdVSA) tornaram-se alvo de sanções secundárias, mecanismo que estendeu o bloqueio para além das fronteiras norte-americanas.

Embargo financeiro, congelamento de ativos e perda de receitas

O cerco não se limitou a restrições de mercado. Bancos internacionais, temerosos de punições, interromperam correspondências financeiras, travando pagamentos de importações e remessas de lucros. No exterior, ativos estatais foram paralisados ou transferidos para grupos ligados à oposição venezuelana. O Banco da Inglaterra reteve 31 toneladas de ouro avaliadas em US$ 1,2 bilhão, enquanto a filial norte-americana da PdVSA, a Citgo, teve dividendos barrados e acabou liquidada pela Justiça dos Estados Unidos em 2025 para satisfazer credores internacionais.

Esse bloqueio privou Caracas de recursos estratégicos. Estudo do economista Jeffrey Sachs estima que, somente em 2018, a retração da atividade petrolífera — que saltou de ‑11,5 % em 2017 para ‑30,1 % após a sanção financeira — retirou US$ 8,4 bilhões do fluxo de caixa necessário às importações de bens de consumo e insumos industriais. No ano seguinte, a proibição de vender petróleo ao mercado norte-americano, tradicional principal comprador, elevou a perda potencial para mais US$ 11 bilhões, conforme cálculo do então secretário de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton.

Consequências sociais: recessão, hiperinflação e migração em massa

Os impactos econômicos logo se refletiram no tecido social. Entre 2013 e 2022, o país perdeu aproximadamente 75 % de seu PIB. A hiperinflação foi oficializada em dezembro de 2017, poucos meses após a primeira sanção abrangente. Pesquisa do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas (CEPR) aponta a queda abrupta de divisas como principal gatilho que empurrou a inflação alta para o estado hiperinflacionário.

A deterioração do poder de compra e o desabastecimento estimularam um movimento migratório sem precedentes. Mais de 7,5 milhões de venezuelanos — cerca de 20 % da população — deixaram o país. O economista Francisco Rodríguez, que costuma criticar a condução macroeconômica dos governos chavistas, calcula que a manutenção do regime de “pressão máxima” poderia adicionar outro milhão de emigrantes nos cinco anos seguintes, por conta da interrupção de receitas petrolíferas usadas para financiar importações vitais.

Colapso da indústria do petróleo sob sanções dos EUA

A Venezuela concentra as maiores reservas provadas de petróleo do planeta e depende do setor para mais de 95 % das exportações. Com a queda internacional de preços em 2014, a receita petrolífera já sofria. Entretanto, as sanções restringiram acesso a componentes, serviços e linhas de crédito, comprometendo a manutenção de poços, refinarias e a capacidade de elevação de produção. De 2017 para 2018, a taxa de retração do setor quase triplicou, refletindo a dificuldade de operar em ambiente de embargo.

A economista e socióloga Juliane Furno destaca que os efeitos vieram em duas frentes. De um lado, as chamadas sanções diretas limitaram importações de peças e insumos; de outro, as indiretas inibiram fornecedores estrangeiros, receosos de retaliações, de firmarem contratos com a PdVSA. O resultado foi um ciclo de queda de produção, menor geração de divisas e redução na capacidade do Estado de importar alimentos, medicamentos e bens de capital.

Cronologia das medidas impostas por Washington

A legislação que sustentou o bloqueio surgiu em dezembro de 2014, quando o Congresso dos EUA aprovou ato sancionatório alegando defesa dos direitos humanos, democracia e combate ao narcotráfico. Em março de 2015, uma ordem executiva assinada pelo então presidente Barack Obama declarou “emergência nacional” ao considerar a Venezuela uma ameaça incomum e extraordinária. Esse instrumento abriu caminho para sanções econômicas subsequentes.

No governo Trump, o pacote ganhou amplitude: em 2017, vieram as restrições financeiras; entre 2018 e 2019, veto à comercialização de ouro, ampliação da lista de indivíduos sancionados e bloqueio à venda de petróleo nos Estados Unidos; em 2020, a pressão foi estendida ao diesel, fundamental para o transporte interno e para geração de energia. O endurecimento incluiu a adoção de sanções secundárias, afetando empresas de diversos países que mantivessem laços comerciais com Caracas.

Sinais de recuperação após alívio parcial das sanções dos EUA

A partir de 2022, já sob Joe Biden, a Casa Branca flexibilizou parte das restrições, permitindo licenças específicas para transações petrolíferas e liberando algumas operações financeiras condicionadas. Segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), esse relaxamento coincidiu com retomada modesta do crescimento venezuelano: o PIB avançou 8,5 % em 2024 e 6,5 % em 2025.

Especialistas enxergam relação direta entre a leve folga no embargo e a melhora nos indicadores. Para Juliane Furno, o exemplo reforça o peso das sanções na profundidade da crise. Embora fatores internos — entre eles dependência excessiva do petróleo e políticas fiscais controversas — tenham iniciado a recessão, a combinação de bloqueio financeiro e perda de mercado externo adicionou obstáculos que aceleraram a hiperinflação e precipitaram a maior onda migratória da história recente da América do Sul.

O futuro da economia venezuelana continua atrelado ao desenrolar da política externa norte-americana. Estimativas de Francisco Rodríguez indicam que eventual reimposição de um regime de “pressão máxima” poderia interromper a frágil recuperação, reduzindo receitas de exportação e ampliando o fluxo migratório já a partir do próximo ciclo econômico.

O próximo marco relevante será a revisão das licenças de exportação de petróleo, prevista para o início de 2026, quando o governo norte-americano avaliará se mantém, amplia ou volta a restringir o comércio energético com Caracas.

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