Rio de Janeiro comemora padroeiro São Sebastião com missas, procissão e encenação cultural

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Rio de Janeiro comemora padroeiro nesta terça-feira, 20 de janeiro, com uma agenda que reúne celebrações litúrgicas, procissão de cinco quilômetros e apresentação cênica no centro da capital fluminense, mantendo viva uma tradição que atravessa séculos de história.
- Rio de Janeiro comemora padroeiro: programação religiosa do dia 20 de janeiro
- Rio de Janeiro comemora padroeiro: procissão de 5 quilômetros e patrimônio cultural
- Rio de Janeiro comemora padroeiro: origens da devoção e significado da data
- Trajetória histórica de São Sebastião, mártir romano do século III
- Reconhecimento popular e papéis atribuídos ao santo ao longo dos séculos
- Sincretismo religioso: convergência entre São Sebastião e o orixá Oxóssi
Rio de Janeiro comemora padroeiro: programação religiosa do dia 20 de janeiro
A primeira celebração oficial da jornada ocorre às 10h, na Basílica Santuário de São Sebastião, situada na Tijuca, zona norte da cidade. A missa é presidida pelo cardeal Dom Orani João Tempesta e inaugura o calendário de atos devocionais dedicado ao santo. O templo, erguido em honra ao patrono, torna-se ponto de convergência para fiéis que buscam participar das orações matinais antes da movimentação nas ruas.
À tarde, a partir das 16h, a atenção desloca-se para a Procissão Arquidiocesana. O cortejo religioso sai da mesma basílica na Tijuca e segue em direção à Catedral Metropolitana de São Sebastião, localizada na Avenida Chile, no centro. O deslocamento por vias urbanas conecta dois marcos católicos e permite que moradores de diferentes bairros acompanhem a passagem do andor com a imagem do padroeiro.
Rio de Janeiro comemora padroeiro: procissão de 5 quilômetros e patrimônio cultural
O trajeto percorrido entre a Tijuca e a Catedral soma aproximadamente cinco quilômetros. Em 2014, esse percurso foi formalmente incluído no inventário de bens imateriais do município, recebendo o título de patrimônio cultural da cidade. A salvaguarda oficial reconhece a importância do roteiro como expressão de fé coletiva e elemento de memória urbana.
A chegada ao centro reserva outro momento relevante: a apresentação do Auto de São Sebastião 2026 na própria Avenida Chile. O espetáculo dramatiza passagens da vida do mártir e reforça a dimensão cultural da festa, combinando elementos teatrais com devoção religiosa. Em seguida, a programação conclui-se com uma missa solene dentro da catedral, encerrando as atividades litúrgicas do dia.
Rio de Janeiro comemora padroeiro: origens da devoção e significado da data
A ligação entre a cidade e São Sebastião remonta à fundação do Rio de Janeiro por Estácio de Sá, em 1º de março de 1565. O nome oficial — São Sebastião do Rio de Janeiro — homenageia o rei português Dom Sebastião, então criança, e o intercessor católico que levava o mesmo nome. Contudo, o 20 de janeiro só se consolidou como data festiva dois anos depois, em 1567, quando forças portuguesas expulsaram colonizadores franceses instalados na Baía de Guanabara desde 1555.
Conforme tradição oral, durante a batalha final de Uruçumirim, combatentes portugueses, mamelucos e indígenas teriam avistado São Sebastião empunhando uma espada, estimulando a vitória lusa. Esse relato lendário motivou a escolha do dia 20 de janeiro para honrar o padroeiro, reforçando a ideia de proteção militar e espiritual associada ao santo.
Trajetória histórica de São Sebastião, mártir romano do século III
Nascido em 256 na cidade de Narbona, atual território francês, o jovem Sebastião mudou-se com a família para Milão, na Itália. Alistou-se no exército romano e ascendeu ao posto de comandante da guarda do imperador Diocleciano. Paralelamente à carreira militar, converteu-se ao cristianismo e passou a visitar prisioneiros cristãos confinados à espera de execução no Coliseu, oferecendo palavras de consolo e esperança.
Quando sua atuação em favor dos fiéis foi descoberta, Diocleciano exigiu que ele renunciasse à nova fé. Diante da negativa, condenou-o à morte por flechas: Sebastião foi amarrado a uma árvore e alvejado. Dado como morto pelos carrascos, foi resgatado por mulheres que cuidaram de seus ferimentos. Recuperado, apresentou-se outra vez ao imperador, solicitando o fim das perseguições. A resposta foi uma segunda sentença, desta vez por açoite até a morte, cumprida em 287. O corpo do mártir foi sepultado próximo às catacumbas dos apóstolos.
Reconhecimento popular e papéis atribuídos ao santo ao longo dos séculos
No século IV, já sob o governo do imperador Constantino, o corpo de Sebastião foi trasladado para uma basílica construída na Via Ápia, dando início ao culto público. A tradição registra que, naquela época, Roma enfrentava uma grave epidemia de peste; a remoção das relíquias teria coincidido com o recuo da doença, motivo pelo qual o santo passou a ser invocado como protetor contra peste, fome e guerra. Em tempos recentes, comunidades LGBTQIA+ adotaram-no como símbolo de resistência e beleza, ampliando seu alcance sociocultural.
Entre soldados, artistas e devotos em geral, a iconografia de São Sebastião — habitualmente representado com o corpo amarrado e transpassado por flechas — atravessou fronteiras, ganhando destaque especial no Brasil colonial. A partir da vitória portuguesa de 1567, o santo consolidou-se como padroeiro do Rio de Janeiro, unindo narrativa militar e fé católica numa mesma figura.
Sincretismo religioso: convergência entre São Sebastião e o orixá Oxóssi
No Brasil, a devoção a São Sebastião recebeu novas camadas por meio do sincretismo afro-brasileiro. Nos rituais de matriz africana, o santo católico é associado ao orixá Oxóssi, divindade das matas, da caça, da fartura e do conhecimento. Elementos compartilhados justificam a correspondência: ambos são guerreiros, utilizam flechas como símbolo e são lembrados em 20 de janeiro.
A flecha que perfurou o corpo do mártir cristão converte-se, nos terreiros, em metáfora da “mira certeira” de Oxóssi, capaz de alcançar objetivos e afastar males. Na tradição de caboclos — espíritos de ancestrais indígenas que atuam em trabalhos espirituais de cura e orientação —, essa ligação reforça o papel protetivo exercido pelo santo e pelo orixá sobre a cidade, as florestas e seus habitantes.
A programação religiosa termina com a missa solene na Catedral Metropolitana logo após o Auto de São Sebastião 2026, concluindo os festejos do dia 20 de janeiro.

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