Rihanna e o legado desafiador de “Anti”: dez anos depois, o álbum ainda incomoda a indústria musical

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Rihanna ainda não retornou com um novo álbum, mas o impacto do seu último trabalho de estúdio continua a ressoar: uma década depois de “Anti”, a cantora preserva a posição de quem desafiou as regras do mercado fonográfico e decidiu manter-se longe dele.
- Rihanna buscou autonomia total em “Anti”
- Como “Anti” desconstruiu o pop radiofônico
- “Work” prova que ousadia também gera sucesso
- A força simbólica da capa: coroa grande, visão coberta
- De ferramenta de ruptura a catalisador para novas artistas
- Consequências pessoais: da exaustão à pausa prolongada
- Empreendedora, mãe e parceira: a nova rotina de Rihanna
- O legado que desafia a cronologia da indústria
- O que esperar: próximas promessas sem data
Rihanna buscou autonomia total em “Anti”
Tudo começou quando a artista, que até então operava em ritmo quase anual de lançamentos, decidiu interromper o fluxo industrial de discos, videoclipes e turnês. Em “Anti”, ela dispensou fórmulas pronta-entregas e declarou que não pretendia se prender ao que as rádios preferiam tocar. Essa escolha marcou a primeira ruptura frontal com a lógica de hits imediatos que havia sustentado sucessos anteriores, como “Diamonds” e “We Found Love”. A insatisfação, que vinha sendo acumulada durante anos de agenda exaustiva, converteu-se em manifesto artístico contra a repetição e o conformismo.
Como “Anti” desconstruiu o pop radiofônico
A postura contestadora refletiu-se na própria sonoridade. “Anti” combinou R&B, pop e elementos de música alternativa, criando um híbrido incomum para artistas do porte de Rihanna. Na faixa de abertura, “Consideration”, a intérprete implora para fazer as coisas do seu jeito, ao lado de SZA. A escolha dessa participação, antes do estrelato da parceira, evidenciou a abertura estética e o interesse em novas vozes.
Já em “Higher” a cantora gravou de madrugada, depois de um copo de uísque mencionado na letra — circunstância que se refletiu numa performance rouca, intensa e nada polida, pouco compatível com o padrão radiofônico de 2016. Na mesma linha, “Woo” costurou distorções de baixo e gemidos sob atmosfera sombria, distanciando-se dos arranjos cristalinos que caracterizavam boa parte do pop daquela primeira metade da década.
“Work” prova que ousadia também gera sucesso
Apesar da pegada experimental, “Anti” incluiu um dos maiores êxitos comerciais de Rihanna, “Work”. À primeira audição, o single soa mais convencional, mas uma apreciação detalhada revela referências de reggae e de ritmos caribenhos, herança direta da origem barbadiana da artista. O alcance global da música demonstrou que era possível conciliar inovação estética e alto desempenho nas paradas, reforçando o argumento de que ousar não significa abdic ar de público.
A força simbólica da capa: coroa grande, visão coberta
A identidade visual reforçou o tom de protesto. Na arte de capa, uma figura infantil — representação da cantora em fase imatura — aparece com os olhos cobertos por uma coroa desproporcional. A imagem sintetiza a sensação de que, antes de “Anti”, Rihanna não enxergava plenamente o próprio futuro na indústria musical. A coroa, agora grande demais, sugeria que ela precisava ajustar o peso do sucesso à própria cabeça antes de avançar.
De ferramenta de ruptura a catalisador para novas artistas
O caráter inovador do álbum contribuiu para abrir espaço a outras cantoras que, nos anos seguintes, ousariam expandir as fronteiras do R&B. SZA, então convidada em “Consideration”, lançou “Ctrl” um ano depois e foi amplamente elogiada por crítica e público. Nomes como Summer Walker, Kehlani e Muni Long também ganharam fôlego em cenário mais receptivo a experimentações, aproveitando a trilha aberta pela iniciativa de Rihanna.
Consequências pessoais: da exaustão à pausa prolongada
Ao cortar o ritmo industrial de um álbum por ano, a cantora realizou uma reavaliação profunda de prioridades. Desde o lançamento de “Anti”, Rihanna tem demonstrado satisfação em permanecer distante do cotidiano de estúdios, promovendo apenas participações pontuais. Nesse intervalo, ela voltou ao palco em apresentação muito comentada no Super Bowl, emprestou voz à trilha sonora de um filme dos Smurfs e entregou uma canção para o segundo longa do universo “Pantera Negra” em 2022. Contudo, nenhum desses movimentos convergiu para um novo projeto completo.
Empreendedora, mãe e parceira: a nova rotina de Rihanna
Fora da música, a artista concentra esforços na Fenty Beauty, marca de maquiagem que comanda paralelamente à maternidade de dois filhos com o rapper A$AP Rocky. A dedicação à família e à empresa revela uma adaptação ao sucesso que já não depende do calendário de lançamentos musicais. De tempos em tempos, Rihanna sugere a possibilidade de um novo álbum, mas sempre sem entusiasmo que a comprometa publicamente com prazos.
O legado que desafia a cronologia da indústria
Dez anos depois, “Anti” continua a ser citado como um dos projetos mais inventivos da década. Sua mistura de gêneros, a recusa em seguir fórmulas de rádio e a estética agressivamente pessoal ainda soam atuais. Enquanto muitos fãs já se resignaram à ausência de material inédito, a relevância do disco permanece associada ao gesto de negar expectativas — movimento que ressignificou o papel de Rihanna na cultura pop.
O que esperar: próximas promessas sem data
A artista não fecha totalmente as portas para o retorno ao estúdio, mas segue sem cronograma definido. Entre participações ocasionais em trilhas sonoras e eventuais aparições de grande repercussão, como a do Super Bowl, permanece a incerteza sobre quando — ou se — ela lançará um sucessor de “Anti”. Até lá, o próprio silêncio reforça a mensagem que o álbum estabeleceu: na trajetória de Rihanna, autonomia pesa mais do que frequência.

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