Provisão do Acordo UE-Mercosul recebe aval preliminar e mobiliza líderes europeus

Acordo UE-Mercosul avançou de forma decisiva com a manifestação preliminar de apoio dos 27 embaixadores da União Europeia, passo que encerra um ciclo de 25 anos de discussões e abre caminho para a ratificação política e técnica do maior tratado comercial já negociado pelos dois blocos.
- Acordo UE-Mercosul: como se deu o aval preliminar dos embaixadores
- Reações imediatas: liderança alemã exalta soberania estratégica
- Acordo UE-Mercosul e a divisão dentro da União Europeia
- Indústria automotiva celebra efeitos tarifários do Acordo UE-Mercosul
- Preocupações agrícolas e medidas de salvaguarda
- Próximos passos formais até a entrada em vigor do Acordo UE-Mercosul
- Acordo UE-Mercosul: implicações estratégicas de longo prazo
- Agenda imediata: confirmação dos votos e possível viagem ao Paraguai
Acordo UE-Mercosul: como se deu o aval preliminar dos embaixadores
Na manhã de sexta-feira, os representantes diplomáticos dos Estados-membros reuniram-se em Bruxelas para indicar formalmente as posições de seus governos. O procedimento foi conduzido pelo Conselho da União Europeia e seguiu a regra de maioria qualificada: pelo menos 15 países, que somam 65% da população total do bloco, precisavam declarar voto favorável.
Segundo informações coletadas pela agência de notícias responsável pela cobertura do encontro, o critério foi atingido. Cada capital tem até as 17h do mesmo dia — 13h no horário de Brasília — para confirmar, por escrito, a mesma orientação apresentada presencialmente. Apenas após esse protocolo o documento segue para as instâncias políticas superiores.
Embora o consenso não tenha sido pleno, a sinalização majoritária transfere o dossiê para a Comissão Europeia, braço executivo responsável por oficializar a assinatura. Caso não haja mudança de última hora, a presidente Ursula von der Leyen progride para a etapa final de ratificação conjunta com os quatro membros do Mercosul: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
Reações imediatas: liderança alemã exalta soberania estratégica
O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, foi um dos primeiros chefes de governo a comentar o resultado provisório. Em declaração pública, classificou o acordo como marco da política comercial europeia e sinal de autonomia estratégica, argumentando que o ritmo de negociação foi excessivamente longo e que futuros processos precisam ser acelerados. Seu posicionamento reflete a expectativa da maior economia da zona do euro de ampliar mercados para bens industriais de alto valor agregado.
Setores empresariais alemães corroboraram o entusiasmo. A redução expressiva de tarifas sobre automóveis, insumos químicos e máquinas industriais é vista como vetor de competitividade adicional para empresas instaladas no país, que já mantêm cadeias de suprimento consolidadas com a América do Sul.
Acordo UE-Mercosul e a divisão dentro da União Europeia
Apesar do apoio majoritário, nem todos os Estados-membros concordaram com o avanço. A Áustria, representada pela ministra das Relações Exteriores Beate Meinl-Reisinger, manifestou satisfação com a formação de maioria favorável, mas registrou voto contrário. Mesmo assumindo divergência doméstica, a chanceler austríaca reiterou que sua economia se beneficiaria de barreiras menores e pediu que o país aprofunde tratativas externas, inclusive com a Índia.
Polônia, França, Hungria e Irlanda também sinalizaram oposição por meio de seus embaixadores. O ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural polonês, Stefan Krajewski, apontou preocupação com impactos sobre produtores rurais e lamentou a ausência de apoio italiano à posição contrária, que poderia ter bloqueado a decisão. Varsóvia discute instrumentos legais para compensar eventuais perdas no campo, indicando que tensões setoriais continuarão presentes até a ratificação final.
Indústria automotiva celebra efeitos tarifários do Acordo UE-Mercosul
A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (Acea) publicou nota afirmando que a maioria obtida representa sinal inequívoco de que a Europa quer manter uma economia aberta e orientada ao comércio internacional. A organização destacou três pontos principais:
1. Alívio tarifário significativo: veículos produzidos na União Europeia enfrentam atualmente alíquotas de até 35% ao ingressar nos mercados do Mercosul. A eliminação ou redução progressiva desses encargos deverá melhorar a posição competitiva das montadoras europeias na região.
2. Remoção de barreiras técnicas: além dos impostos, diferenças regulatórias atrasam a homologação de modelos e componentes. O tratado estabelece mecanismos de convergência que podem encurtar prazos de certificação.
3. Fortalecimento das cadeias de suprimento: países sul-americanos oferecem matérias-primas consideradas críticas para a transição energética, como lítio e cobre. Ao ampliar o fluxo comercial, o acordo diversifica fontes de insumos para a indústria europeia.
A Acea solicitou que o Parlamento Europeu conclua a etapa de ratificação com celeridade, garantindo que os benefícios previstos cheguem ao setor produtivo em curto prazo.
Preocupações agrícolas e medidas de salvaguarda
O bloco de países que mantém reservas ao texto concentra-se majoritariamente no segmento agropecuário. Governos como o da Polônia alertam para o risco de concorrência dos exportadores do Mercosul em grãos, carnes e açúcar. Legisladores poloneses discutem dispositivos de compensação financeira e possíveis cotas de importação para mitigar impactos domésticos.
França, Hungria, Irlanda e Áustria apresentam argumentos semelhantes, mencionando padrões ambientais, rastreabilidade de produtos e harmonização sanitária. O debate sobre sustentabilidade, ainda que não tenha impedido o avanço preliminar, continua no centro das atenções, e pode influenciar a redação de protocolos adicionais antes da ratificação definitiva.
Próximos passos formais até a entrada em vigor do Acordo UE-Mercosul
Com a confirmação da maioria qualificada:
— Comissão Europeia: deve finalizar a documentação técnica e encaminhar o texto para assinatura. A agenda de viagens prevê deslocamento de Ursula von der Leyen ao Paraguai já na semana seguinte, onde será realizada cerimônia conjunta com representantes de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
— Parlamento Europeu: receberá o tratado para votação em plenário. A instituição pode aprovar, rejeitar ou propor aditamentos que retornem ao Conselho, prolongando o processo.
— Ratificações nacionais: alguns países exigem aprovação parlamentar interna. Dependendo do sistema constitucional, esse trâmite pode envolver câmaras legislativas únicas ou bicamerais, além de revisão por tribunais constitucionais.
— Entrada em vigor provisória: existe a possibilidade de aplicação parcial das cláusulas comerciais antes da conclusão de todos os ritos nacionais, caso os dois blocos acordem dispositivos transicionais.
Acordo UE-Mercosul: implicações estratégicas de longo prazo
O pacto cria uma área de livre-comércio que abrange aproximadamente 780 milhões de consumidores. Do lado europeu, o resultado é interpretado como estratégia para reforçar a relevância geopolítica do bloco diante de mudanças na ordem global, caracterizadas pelo aumento de disputas comerciais e reconfiguração de cadeias de valor. Já para o Mercosul, a abertura de mercado na Europa representa oportunidade de diversificação exportadora e atração de investimento estrangeiro direto.
Analistas destacam que o acordo chega em momento de transição na indústria mundial, impulsionada por digitalização, descarbonização e reindustrialização verde. A cooperação entre as duas regiões poderá incluir capítulos sobre inovação, propriedade intelectual e compras governamentais, temas que evoluíram significativamente durante os 25 anos de negociação.
Agenda imediata: confirmação dos votos e possível viagem ao Paraguai
Até as 17h (horário de Bruxelas) desta sexta-feira, cada Estado-membro deve enviar a confirmação escrita de seu posicionamento. Se não houver alteração, a Comissão Europeia comunicará oficialmente a aprovação interna e divulgará a data da viagem de Ursula von der Leyen ao Paraguai para assinatura conjunta com os países do Mercosul.

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