Protestos contra o ICE: cultura transforma Grammy, músicas e artes visuais em trincheira de resistência

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A escalada dos protestos contra o ICE deixou de ocupar apenas ruas e tribunais nos Estados Unidos e alcançou o coração da indústria cultural. Músicas, discursos, exposições e cartazes convergem para denunciar a atuação da agência de imigração criada em 2003, reforçada durante a gestão de Donald Trump e hoje alvo de críticas de artistas de diferentes gerações.
- Fundação do ICE e motivos que alimentam os protestos contra o ICE
- Protestos contra o ICE dominam o Grammy e ecoam entre astros do pop
- Antes de Trump: arte visual abriu caminho para protestos contra o ICE
- Canções transformam guitarras em megafones nos protestos contra o ICE
- Cartazes, vítimas e continuidade dos protestos contra o ICE
- Próximos capítulos da tensão entre cultura e ICE
Fundação do ICE e motivos que alimentam os protestos contra o ICE
O Immigration and Customs Enforcement surgiu em março de 2003, no governo de George W. Bush, como resposta direta aos ataques de 11 de Setembro. Sua missão foi definida como a proteção do país contra o crime transnacional e a imigração considerada ilegal, enquadrada, à época, como ameaça à segurança nacional e à segurança pública. Ao longo de duas décadas, operações de deportação, detenções em massa e denúncias de truculência geraram um rastro de insegurança entre comunidades imigrantes, principalmente latino-americanas. Esse histórico pavimentou terreno para o atual movimento cultural que busca expor, questionar e, em última instância, limitar o poder da agência.
Protestos contra o ICE dominam o Grammy e ecoam entre astros do pop
A cerimônia do Grammy tornou-se palco central dos protestos contra o ICE neste ano. No tapete vermelho, nomes como Joni Mitchell, Kehlani, Justin Bieber e Hailey Bieber exibiram bottons com a inscrição “ICE Out”, em alusão à expulsão simbólica da agência. Dentro da arena, discursos ganharam o mesmo tom.
O porto-riquenho Bad Bunny, grande vencedor da noite, dedicou parte de sua fala à crítica às políticas anti-imigração. Olivia Dean, escolhida artista revelação, relembrou as origens de sua família para endossar o coro contra deportações. Já Billie Eilish resumiu o sentimento coletivo ao declarar que “ninguém é ilegal em uma terra roubada”.
Embora não tenha abordado o tema no Grammy, Lady Gaga já havia se posicionado dias antes, durante show no Japão, dizendo que seu coração “dói ao pensar nas famílias implacavelmente alvo do ICE”. Declarações desse tipo transformam eventos de alcance global em vitrines para a pauta migratória, reforçando a pressão pública sobre legisladores e autoridades.
Antes de Trump: arte visual abriu caminho para protestos contra o ICE
Os protestos contra o ICE antecedem o endurecimento observado no governo Trump. Em 2008, a artista californiana Ester Hernandez atualizou o quadro “Sun Mad”, concebido em 1982, para criar “Sun Raid”. Na releitura, um esqueleto vestindo bracelete do ICE e traje tradicional indígena segura uvas sob frases como “deportação garantida” e “feito no México”. A obra, hoje no acervo do Smithsonian, já explicitava a ligação entre imigração latina, trabalho agrícola e vigilância estatal.
No mesmo ano, o Museu Nacional de Arte Mexicana, em Chicago, apresentou a mostra “A Declaration of Immigration”. Mais de 70 trabalhos abordaram a experiência de viver nos Estados Unidos sob o constante risco de detenção ou expulsão, lançando luz sobre a dimensão humana de estatísticas que então começavam a crescer.
Outro marco visual veio em 2012 com “Alto Polimigra”, colaboração de Favianna Rodriguez e Melanie Cervantes. O cartaz denuncia o programa Secure Communities, que permitiu o compartilhamento de dados entre o ICE e forças policiais locais. Naquele período, o país registrava aproximadamente 1.100 deportações por dia, número citado na própria peça para ilustrar a escala do problema. A fusão das palavras “police” e “migra” sintetiza a crítica à militarização do controle migratório.
Canções transformam guitarras em megafones nos protestos contra o ICE
A música popular fornece trilha sonora constante para os protestos contra o ICE. Em 2013, a banda La Santa Cecilia lançou “Ice El Hielo”. A letra narra o medo latente de famílias que não sabem quando agentes poderão bater à porta. Segundo a vocalista La Marisoul, a faixa reflete a separação de lares inteiros, realidade descrita durante o segundo mandato de Barack Obama.
Mais recentemente, a crítica se ampliou para artistas de diferentes vertentes. O cantor Bruce Springsteen divulgou “Streets of Minneapolis”, escrita em poucos dias como homenagem às vítimas de ações violentas. Já o folk de Jesse Welles adotou tom satírico em “Join ICE”, lançada em outubro passado no álbum “No Kings”, ironizando o processo de recrutamento da agência.
Além de composições originais, surgiu outra frente de embate: o uso não autorizado de músicas em campanhas governamentais. Sabrina Carpenter e Olivia Rodrigo repudiaram a inclusão de “Juno” e “All-American Bitch” em peças publicitárias de cunho anti-imigração, reforçando que sua arte não endossa tais mensagens.
Cartazes, vítimas e continuidade dos protestos contra o ICE
Fora dos grandes palcos, cartazes com rostos de vítimas identificadas como Alex e Renée espalham-se por cidades norte-americanas, divulgados por organizações que denunciam brutalidade e casos de morte associados a operações do ICE. Essas imagens reforçam o caráter individual das histórias, deslocando o debate de números para pessoas reais.
Ao mesmo tempo, o frio literal que cobre ruas de Washington deu origem ao jogo de palavras “ICE out” em lambe-lambe, onde o gelo remetido pelo clima é trocado simbolicamente pela agência de imigração. A expressão tornou-se senha visual de quem exige mudanças na estrutura federal.
A continuidade desses atos é alimentada por fatores estruturais: a permanência de programas de cooperação entre polícias locais e autoridades migratórias, a lentidão de reformas legislativas e a cicatriz social deixada por anos de deportações em larga escala. Cada nova ação cultural funciona como lembrete de que o debate permanece em aberto.
Próximos capítulos da tensão entre cultura e ICE
Com artistas de alcance global adotando posicionamentos públicos, a pressão tende a se manter alta. Em eventos futuros da temporada de premiações, a presença de bottons “ICE Out” ou discursos semelhantes é aguardada por ativistas como termômetro de engajamento popular. Do lado institucional, a agência segue defendendo seu mandato de segurança, cenário que indica novos embates entre arte e política migratória.

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