Projeto Wislawa transforma poemas de Wislawa Szymborska em denúncia cênica da perseguição à arte

Projeto Wislawa transforma poemas de Wislawa Szymborska em denúncia cênica da perseguição à arte
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Projeto Wislawa ocupa o palco do Teatro Paulo Eiró, na capital paulista, com uma narrativa que usa versos da Nobel polonesa Wislawa Szymborska para encenar um atentado fictício contra a poeta e, assim, refletir sobre a perseguição histórica e contemporânea à arte.

Índice

Projeto Wislawa recria atentado simbólico à poeta polonesa

O ponto de partida do espetáculo é a imagem de uma escritora caminhando, absorta na leitura, enquanto uma assassina acompanha cada passo. A trama culmina quando o corpo da autora, interpretada por Vera Zimmermann, cai inerte diante do público. A morte, porém, não se dirige a uma pessoa real — Szymborska faleceu em 2012, aos 88 anos, enquanto dormia — mas, segundo a dramaturgia de Cesar Ribeiro, representa a tentativa de eliminar ideias como sensibilidade, lirismo e liberdade criativa.

Ao escolher um incidente inexistente na biografia da autora, o texto reforça que o alvo do ataque não é o indivíduo e, sim, a força transformadora que sua obra simboliza. Essa estratégia dramatúrgica legitima a discussão sobre mecanismos que tentam calar manifestações artísticas ao longo da história.

Como a encenação de Projeto Wislawa contrapõe criação e destruição

A dualidade entre vida e morte é traduzida em cena por dois objetos dissonantes: uma cadeira elétrica e um carrinho de bebê. O primeiro sinaliza aniquilação; o segundo, nascimento. Essa composição visual explicita a convivência incessante entre forças que desejam suprimir a arte e correntes que insistem em criá-la.

No centro do conflito, duas atrizes se alternam entre personagens contrastantes. Vera Zimmermann encarna Szymborska e mais três papéis, enquanto Clara Carvalho assume a figura da algoz. A relação exibe um embate cênico direto, que apoia a construção de sentido proposta pelo encenador. A assassina, por sua vez, incorpora a recusa à poesia, à delicadeza e ao questionamento. Já a vítima, mesmo silenciada, afirma o valor da imaginação.

Poemas de Wislawa Szymborska dão voz à resistência artística

A montagem seleciona versos de diferentes fases da escritora para sustentar a dramaturgia. Textos como “Agradecimento”, “Um Grande Número”, “Sob uma Estrela Pequenina”, “Visto do Alto” e “Fotografia de 11 de Setembro” são recitados ou incorporados à ação. Os poemas preservam a linguagem simples e, por vezes, irônica que consagrou Szymborska, realçando o contraste entre franqueza poética e violência simbólica do enredo.

Em “Visto do Alto”, Zimmermann declama reflexões sobre a morte como se fosse uma criança, com gestos ampliados que beiram o farsesco. A escolha elimina qualquer solenidade e sublinha a visão da autora sobre a capacidade da arte de inverter expectativas. Em outro momento, a leitura de “Fotografia de 11 de Setembro” materializa a possibilidade de a poesia testemunhar tragédias sem recorrer ao sensacionalismo, apenas descrevendo o que é visível, como defende o texto original.

A trilha sonora reforça a fricção de universos proposta por Cesar Ribeiro. Músicas pop, a exemplo de “Hello”, parceria entre o DJ francês Martin Solveig e a banda Dragonette, surgem em meio à declamação dos poemas. O choque entre a delicadeza verbal e o impacto sonoro amplia a sensação de confronto que perpassa cada quadro.

Atrizes Clara Carvalho e Vera Zimmermann sustentam o duelo em Projeto Wislawa

No palco, Clara Carvalho personifica a antítese da criação artística. Sua personagem move-se com determinação, observa, persegue e executa a poeta. Na entrevista de bastidores, a atriz destaca que a direção busca situações extremas, distantes do naturalismo, para evidenciar posições irreconciliáveis. Esse posicionamento imprime tensão contínua ao espetáculo.

Já Vera Zimmermann, dividida entre quatro papéis, torna a passagem da poesia pela realidade tangível. Ao interpretar Szymborska, ela assume a serenidade da escritora, mas também revela humor e irreverência ao recorrer a entonações infantis ou gestos caricatos. Com essas variações, a atriz reproduz a característica da autora de aproximar o sublime do cotidiano.

Contexto histórico de Szymborska reforça atualidade do espetáculo

Wislawa Szymborska nasceu em Bnin e cresceu em Cracóvia, onde vivenciou a ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Depois da derrota alemã, enfrentou a censura do regime comunista que bloqueou seu primeiro livro, editado em 1949. Apesar dessas experiências, a poeta afastou-se do discurso solene e cultivou versos acessíveis, muitas vezes jocosos, como demonstra o trecho “Sou, mas não tenho que ser filha da minha época”, presente em “Elogio dos Sonhos”.

A montagem retoma esse histórico para dialogar com episódios recentes no Brasil. Durante quatro anos de mandato presidencial, políticas públicas federais questionaram o valor da cultura, extinguindo o Ministério da Cultura e reduzindo incentivos. Para a equipe artística, a peça ecoa a sensação de ter sobrevivido a um período de hostilidade institucional, lembrando que os agentes que minam a arte continuam ativos.

Serviço e informações práticas sobre Projeto Wislawa

O espetáculo mantém temporada no Teatro Paulo Eiró, localizado na avenida Adolfo Pinheiro, 765, bairro Santo Amaro, zona sul de São Paulo. As sessões acontecem de quinta a sábado, às 18 horas, e aos domingos, às 19 horas. A temporada está programada para seguir até 1.º de março. Os ingressos têm preço único de R$ 20, e a classificação etária é de 12 anos.

No elenco estão Clara Carvalho e Vera Zimmermann, sob direção e dramaturgia de Cesar Ribeiro. O espetáculo se vale de um cenário reduzido, composto pelos objetos simbólicos já citados, e de iluminação projetada para acentuar contrastes dramáticos. O figurino recorre a peças contemporâneas, reforçando a ideia de que o conflito entre liberdade artística e censura está enraizado no presente.

Combinando poesia laureada com o Nobel, recursos expressionistas e referências pop, a montagem permanece em cartaz até o início de março, convidando o público paulistano a refletir sobre o valor da criação estética em contextos de ameaça.

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