Primeira soltura de araras-canindés no Parque Nacional da Tijuca marca retorno da espécie ao céu do Rio

Primeira soltura de araras-canindés no Parque Nacional da Tijuca marca retorno da espécie ao céu do Rio
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Araras-canindés voltaram a sobrevoar a capital fluminense depois de décadas de ausência. Três fêmeas da espécie foram libertadas no Parque Nacional da Tijuca no início de janeiro, em ação conduzida pela organização Refauna com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O procedimento inaugura um programa que pretende introduzir 50 indivíduos nos próximos cinco anos.

Índice

Por que as araras-canindés desapareceram do Rio de Janeiro

A arara-canindé, ave de plumagem azul e amarela amplamente distribuída em biomas como o Cerrado, não possuía mais populações conhecidas no estado do Rio de Janeiro. Registros históricos apontam presença desse psitacídeo em toda a faixa litorânea da Mata Atlântica até o século XVI, mas a combinação de caça, tráfico de fauna e perda de habitat levou ao desaparecimento regional. Globalmente, a União Internacional para a Conservação da Natureza não classifica a espécie como ameaçada; a extinção é local, restrita ao território fluminense. O vazio ecológico resultante motivou o Refauna a elaborar um projeto específico para o Parque Nacional da Tijuca, área protegida que reúne vegetação nativa suficiente para sustentar novamente esses dispersores de sementes.

Detalhes da primeira soltura de araras-canindés no Parque Nacional da Tijuca

As três fêmeas reintroduzidas receberam os nomes Fernanda, Suely e Fátima. A escolha das denominações faz referência à atriz Fernanda Torres e a dois personagens interpretados por ela em produções audiovisuais citadas no comunicado oficial – o filme “Ainda Estou Aqui” e o seriado “Tapas e Beijos”. As aves chegaram ao Rio oriundas do Parque Três Pescadores, em Aparecida (SP), onde funciona o Refúgio das Aves, centro especializado em acolhimento e reabilitação de animais silvestres sem traços de domesticação.

Um quarto exemplar, Selton, batizado em alusão ao ator Selton Mello, permaneceu em tratamento no interior paulista. O macho se recupera de infecção pulmonar não contagiosa; a medicação afetou a qualidade das penas de voo, impossibilitando a aclimatação no mesmo ritmo das fêmeas.

Processo de aclimatação das araras-canindés antes da liberdade

O trio chegou à Floresta da Tijuca em junho de 2025 e permaneceu sete meses em recinto de 20 metros de comprimento instalado dentro do parque. O espaço permite exercícios diários de voo que fortalecem a musculatura peitoral. A equipe do Refauna ministrou também transição alimentar: frutas comerciais e ração usadas em zoológicos foram gradualmente substituídas por espécies nativas, como jabuticaba, disponíveis na mata.

Técnicos monitoraram a interação das aves com o ambiente sonoro e olfativo da floresta e desencorajaram comportamentos inadequados, como pouso prolongado no solo ou aproximação excessiva de visitantes. Para evitar associação direta de comida ao ser humano, a alimentação ocorreu sempre em plataformas suspensas, obrigando as aves a voar até o alimento.

Monitoramento pós-soltura e participação popular

Mesmo em liberdade, as araras continuam sob vigilância. Cada indivíduo porta anilha, microchip e colar de identificação. Em caso de risco ou dificuldade de adaptação, a equipe pode recapturar e devolver temporariamente o animal ao recinto. Relatos de moradores das zonas limítrofes do parque integram a estratégia de acompanhamento em regime de ciência cidadã.

Duas vias principais facilitam o envio de informações: mensagens diretas ao perfil do Refauna em rede social e contato via WhatsApp. Além disso, observadores podem registrar fotos e coordenadas no aplicativo SISS-Geo, plataforma gratuita da Fundação Oswaldo Cruz destinada ao mapeamento de fauna silvestre. Segundo a coordenação do projeto, a colaboração já se mostra eficaz para localizar rapidamente indivíduos que se afastam além do previsto ou se aproximam de áreas urbanizadas.

O ICMBio, gestor do parque, complementa o trabalho com ações educativas. Estão em elaboração cursos voltados a guias de turismo, que atuam diariamente no local. A capacitação orientará a conduta adequada diante de encontros com vida selvagem — não oferecer alimento, evitar vocalizações que atraiam as aves e informar o canal correto para reportar ocorrências.

Próximos passos: chegada de novo grupo de araras-canindés e meta quinquenal

Selton, o macho ainda em recuperação, deverá integrar um segundo grupo de quatro a seis araras-canindé previsto para aportar no parque em março de 2026. Após nova fase de aclimatação estimada entre quatro e seis meses, a libertação desse lote poderá ocorrer entre agosto e setembro do mesmo ano. A coordenadora de reintrodução, Lara Renzeti, explica que a estratégia de soltar vários exemplares simultaneamente aumenta a probabilidade de formação de casais e posterior reprodução.

No horizonte de cinco anos, o objetivo é introduzir 50 indivíduos, média de dez por ano. A própria equipe reconhece, entretanto, que “reintrodução não é ciência exata” e que parte das aves pode não se estabelecer. Quanto maior o contingente liberado, maiores as chances de algumas se fixarem, dispersarem sementes e contribuírem para a regeneração da Mata Atlântica dentro e fora dos limites do parque.

Restauração ecológica e histórico de ações do Refauna

Fundado para enfrentar a defaunação — perda de vertebrados que compromete processos ecológicos —, o Refauna já recolocou cutia-vermelha, jabuti-tinga e bugio-ruivo na Floresta da Tijuca desde 2010. Em áreas vizinhas, como a Reserva Ecológica de Guapiaçu e o Parque Estadual dos Três Picos, o projeto reintroduziu a anta, maior mamífero terrestre do Brasil. Estudos citados pela organização indicam que cerca de 90 % das plantas da Mata Atlântica dependem de animais para dispersar sementes; sem fauna, a capacidade de regeneração da floresta diminui mesmo em unidades de conservação.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) compilados em 2023 mostram que 43 % da fauna brasileira ameaçada ocorre exclusivamente na Mata Atlântica, o bioma mais pressionado do país. Nesse contexto, a volta das araras-canindé ao Rio possui valor simbólico e funcional: além de reforçar a biodiversidade, as aves atuam como agentes naturais de dispersão, conectando fragmentos florestais e auxiliando na manutenção de ciclos ecológicos.

A próxima etapa concreta do programa está agendada para março de 2026, quando o segundo contingente de araras-canindé deverá chegar ao Parque Nacional da Tijuca para iniciar a aclimatação que antecede a soltura prevista entre agosto e setembro.

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