Portela traz ‘O Mistério do Príncipe do Bará’ e ilumina a força do batuque gaúcho no Carnaval 2026

Portela traz ‘O Mistério do Príncipe do Bará’ e ilumina a força do batuque gaúcho no Carnaval 2026
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Portela prepara-se para atravessar a Marquês de Sapucaí em 15 de fevereiro de 2026 com um enredo que une história, religião e identidade regional. Ao levar “O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande” para a avenida, a escola pretende evidenciar o batuque, religião de matriz africana predominante no sul do Brasil, e homenagear o líder espiritual Osuanlele Okizi Erupê, conhecido em território brasileiro como Custódio Joaquim de Almeida. A escolha reafirma a tradição da Portela em valorizar narrativas afro-brasileiras e amplia o debate sobre a presença negra no Rio Grande do Sul.

Índice

Portela escolhe o batuque gaúcho como enredo central

O ponto de partida do desfile de 2026 é o batuque, também citado como “nação”. Essa corrente religiosa compõe, ao lado do candomblé, da Jurema Sagrada, do tambor de mina, da umbanda e do Xangô pernambucano, o conjunto das principais religiões afro-brasileiras. O batuque teve origem nos terreiros formados por africanos e seus descendentes na região sul do país, especialmente no Rio Grande do Sul, onde encontrou espaço para se consolidar mesmo em períodos de forte migração europeia. Ao escolher essa temática, a Portela deixa claro o objetivo de deslocar o foco habitual que associa, quase exclusivamente, as religiões de matriz africana à Bahia ou ao Rio de Janeiro.

Segundo o carnavalesco André Rodrigues, responsável pela concepção artística, o enredo propõe discutir a “descentralização da historicidade negra” e enfatizar a participação decisiva de lideranças religiosas na construção cultural gaúcha. Tal direção é sustentada por dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que revelam a maior proporção de praticantes de cultos afro no Rio Grande do Sul (3,2% da população) em comparação com Rio de Janeiro (2,6%) e Bahia (1%). Esse recorte estatístico confere densidade factual ao enredo e fundamenta a relevância da abordagem escolhida.

Quem foi o Príncipe do Bará segundo a Portela

Figura central do desfile, o Príncipe do Bará foi registrado na África Ocidental no século XIX com o nome Osuanlele Okizi Erupê. Chegou ao Brasil escravizado, fixou-se em Porto Alegre e, já liberto, adotou o nome Custódio Joaquim de Almeida. Historiadores e antropólogos divergem sobre detalhes exatos de sua biografia — data de nascimento, linha sucessória e data precisa de falecimento —, mas há consenso acerca de seu papel de liderança espiritual. Entre o final do século XIX e a década de 1930, Custódio foi reconhecido como sacerdote organizado em “nação” e tornou-se mediador entre comunidades negras e autoridades políticas locais.

Para a Portela, essa trajetória simboliza resistência e continuidade cultural. Nos bastidores do carnaval, o personagem será apresentado como nobre africano que, mesmo em solo brasileiro, preserva sua coroa simbólica por meio das liturgias do Bará, entidade que estabelece comunicação entre mundos material e espiritual. O desfile promete perfilar o caminho de Custódio desde o golfo da Guiné até os terreiros de Porto Alegre, destacando momentos em que sua autoridade religiosa legitima o batuque perante a sociedade gaúcha.

Religiões de matriz africana e o protagonismo sul-rio-grandense

A narrativa da Portela ganha força ao relacionar a figura do Príncipe com a expansão do batuque. O culto estruturou-se em nações, cada qual com suas divindades, ritos e toques de tambor. Em paralelo ao candomblé iorubá da Bahia ou ao tambor de mina jeje do Maranhão, o batuque gaúcho agregou influências bantus, evidentes nos louvores ao Bará, divindade associada a abertura de caminhos. Apesar de praticado nos centros urbanos de Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, o batuque manteve-se, durante muitos anos, afastado do olhar público. A repressão policial e a disseminação de preconceitos forçaram os terreiros para bairros periféricos.

Nesse contexto, líderes como Custódio Joaquim de Almeida exerceram papel duplo: guardiões de tradição litúrgica e articuladores políticos. Pesquisas do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul registram sua atuação como “protetor invisível” de fiéis, assegurando celebrações em períodos de maior vigilância. A reconstrução desse legado na Sapucaí dialoga com a necessidade de inserir o sul na cartografia das influências africanas, deslocando narrativas que, por vezes, fixam a memória negra em espaços geograficamente limitados.

Processo de seleção do samba e estreia de Zé Paulo Sierra na Portela

Para contar essa história, a Portela organizou concurso interno que recebeu 36 sambas-enredo. A obra vencedora leva as assinaturas de Valtinho Botafogo, Raphael Gravino, Gabriel Simões, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena. A letra descreve a chegada do príncipe, a “oração do negrinho” e a coroação do batuque sob o céu rio-grandense. Ao ritmo do samba, a ala musical será conduzida pelo intérprete Zé Paulo Sierra, que faz sua primeira passagem oficial como voz principal da agremiação de Madureira.

Nascido e criado no bairro da Abolição, zona norte do Rio de Janeiro, Sierra carrega ligação afetiva com a escola. Ele relembra ter conhecido o universo dos desfiles nos anos 1980, quando se encantou pelo clássico “Das Maravilhas do Mar Fez-se o Esplendor de Uma Noite”. Quatro décadas depois, concretiza o sonho de liderar o canto da maior campeã do carnaval carioca. O intérprete esteve à frente do samba desde a fase eliminatória, demonstrando domínio de melodia e letra, condição que reforça a coesão artística almejada pelo departamento de carnaval.

Agenda do Carnaval 2026 e expectativa para a Portela na Sapucaí

O Grupo Especial do Rio de Janeiro desfila em três noites. A Portela se apresenta no primeiro dia, domingo, 15 de fevereiro, ficando na terceira posição da ordem de entrada. Antes dela, passarão Acadêmicos de Niterói com enredo sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Imperatriz Leopoldinense com o tema “Camaleônico”. Após a azul-e-branca, a noite segue com Estação Primeira de Mangueira, que exaltará Mestre Sacaca do Encanto Tucuju.

A segunda noite (16/2) terá Mocidade Independente de Padre Miguel, Beija-Flor de Nilópolis, Viradouro e Unidos da Tijuca. Já a terça-feira (17/2) encerra o grupo com Paraíso do Tuiuti, Unidos de Vila Isabel, Grande Rio e Salgueiro. Com 22 títulos na história, a Portela almeja adicionar mais um troféu à sua galeria e, ao mesmo tempo, oferecer ao público reflexão sobre pertencimento cultural e diversidade religiosa. Até lá, a direção de carnaval intensifica pesquisas iconográficas sobre o batuque, desenha alegorias que simbolizem o Bará e prepara alas que evoquem o cotidiano dos terreiros sulistas.

O próximo marco no calendário interno da escola será a apresentação oficial do samba em quadra, oportunidade para a comunidade ouvir, em primeira mão, todas as estrofes que narram a trajetória do Príncipe Custódio. A expectativa é de casa cheia e demonstração de apoio ao roteiro que conduzirá a Portela na busca do título em fevereiro de 2026.

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