Orides Fontela ganha foco na Flip 2024: poesia, trajetória e relançamentos que reforçam seu legado

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Orides Fontela, poeta paulista que se autodefinia “proleta” por jamais ter abandonado as origens populares, será a autora homenageada da 24ª Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), marcada para ocorrer de 22 a 26 de julho. A curadoria pretende deslocar a atenção dos episódios turbulentos de sua vida para a força concisa de uma obra reconhecida pela crítica como referência incontornável da poesia brasileira contemporânea.
- Por que a Flip escolhe Orides Fontela em 2024
- Orides Fontela: infância, formação e descoberta literária
- A poesia de Orides Fontela e o rigor formal
- Da estreia aos prêmios: produção editorial reconhecida
- A presença de Orides Fontela na crítica e na universidade
- Relançamentos que acompanham a homenagem
- Silêncio, conflitos e a morte em Campos do Jordão
- Mulheres na poesia contemporânea e o papel da Flip
- Entidades e personalidades ligadas à obra
- Expectativa para a Flip 2024
Por que a Flip escolhe Orides Fontela em 2024
Segundo a curadora Rita Palmeira, a Flip vive uma fase em que a função do autor homenageado é apresentar vozes nacionais ao próprio público brasileiro. Depois de edições dedicadas a Maria Firmina dos Reis, Pagu e João do Rio, o evento volta-se agora para Orides Fontela a fim de destacar uma poesia breve em extensão, porém densa em rigor formal, imagética e filosófica. A homenagem coincide com a retomada do calendário pré-pandemia da feira, que volta a ocupar o centro histórico de Paraty no mês de julho.
Orides Fontela: infância, formação e descoberta literária
Nascida em 24 de abril de 1940, em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, Orides Fontela teve contato precoce com a escrita. A descoberta pública ocorreu em 1965, quando o então estudante da Universidade de São Paulo Davi Arrigucci Jr. leu o poema “Elegia” no jornal local. Impressionado, o futuro crítico levou o texto ao professor Antonio Candido, figura central dos estudos literários brasileiros, que imediatamente se entusiasmou. O apoio de Candido rendeu à poeta o apelido de “nosso Rimbaud” entre intelectuais paulistas e abriu portas em revistas especializadas.
Paralelamente à circulação inicial de seus poemas, Fontela cursou filosofia na USP. A passagem pelo curso a aproximou da professora e ensaísta Marilena Chauí, que tempos depois identificaria marcas filosóficas em poemas como “Mito”, “Eros” e “Ananke”. A relação entre poesia e reflexão existencial se tornaria uma das características mais comentadas de sua produção.
A poesia de Orides Fontela e o rigor formal
Os versos de Orides Fontela se notabilizam por concisão, imagens associadas à natureza — luz, pássaros, água, flores — e referência a tradições como o zen-budismo. Poemas curtos e precisos reforçam a depuração verbal que a própria autora classificava como “fidelidade radical à palavra”. Esse rigor motivou leituras que a situam como inovadora do Modernismo tardio, ainda que sua escrita esteja distante de modismos estéticos.
A crítica percebe nesses textos uma arquitetura em que silêncio e ritmo sustentam reflexões sobre tempo, existência e finitude. Isso explica o interesse recorrente de estudiosos no universo acadêmico: universidades brasileiras hoje mantêm disciplinas e pesquisas dedicadas exclusivamente à obra da poeta.
Da estreia aos prêmios: produção editorial reconhecida
A bibliografia de Orides Fontela soma cinco títulos principais. “Transposição” (1969) traz os primeiros poemas reunidos em livro; “Helianto” (1973) aprofunda o diálogo com imagens luminosas; “Alba” (1983) conquistou o Prêmio Jabuti, um dos mais importantes do país; “Rosácea” (1986) confirma a maturidade formal; e “Teia” (1996) valeu-lhe o troféu da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Mesmo com reconhecimento institucional, a autora continuou enfrentando dificuldades financeiras, a ponto de se autodenominar “a poeta mais pobre do Brasil”.
A presença de Orides Fontela na crítica e na universidade
Professores e pesquisadores mantêm produção constante sobre a poesia da autora. O professor Ivan Marques, da USP, organizou ensaio dedicado exclusivamente ao estudo da trajetória e dos versos de Orides Fontela. Jorge Sallum, editor da Hedra, esclarece que grande parte da fortuna crítica original — com textos de Antonio Candido e análises atuais — permanecerá acessível em novas edições. Esse diálogo entre obra e crítica reforça a percepção de que a compreensão de seus poemas se aprofunda quando leitores conhecem comentários acadêmicos e jornalísticos que circundam sua produção.
Relançamentos que acompanham a homenagem
A editora Hedra programou, para o mesmo período da Flip, o relançamento da obra completa de Orides Fontela em volumes que incluem o material crítico associado. A iniciativa também contempla a reedição de “O Enigma Orides”, biografia escrita por Gustavo de Castro, e a publicação de um conjunto de entrevistas concedidas pela poeta ao longo da vida. Esses títulos chegam ao mercado num momento de maior visibilidade para a poesia no Brasil, marcado pelo surgimento de eventos, selos editoriais e clubes de leitura especializados no gênero.
Silêncio, conflitos e a morte em Campos do Jordão
A vida pessoal de Fontela foi impactada por problemas de saúde e por conflitos que a levaram a períodos de reclusão. Em 2 de novembro de 1998, ela morreu quase anônima em um sanatório de Campos do Jordão. Para a curadoria da Flip, contudo, esse desfecho não deve sobrepor-se à relevância estética de sua escrita. A feira pretende enfatizar a produção literária, evitando que episódios biográficos se tornem o centro das discussões.
Mulheres na poesia contemporânea e o papel da Flip
A homenagem a Orides Fontela dialoga com um ambiente editorial em que a presença feminina ganha intensidade. Conforme aponta Rita Palmeira, há crescimento de publicações, revistas e eventos dedicados à poesia, e nesse panorama as escritoras ocupam posição de destaque. A escolha de 2024 reforça essa tendência e aproxima o debate literário de pautas sobre desigualdade social e agendas feministas, temas que atravessaram a experiência de vida da autora.
Entidades e personalidades ligadas à obra
Além de Candido, Arrigucci Jr. e Chauí, outros nomes se associam à trajetória da poeta. Augusto Massi, editor e amigo próximo, avalia que a escolha da Flip é coerente tanto no âmbito literário quanto no social, pois oferece visibilidade a uma obra que questiona hierarquias culturais. A Associação Paulista de Críticos de Arte, que premiou “Teia”, e o Jabuti, que laureou “Alba”, tornam-se referências importantes para leitores que desejem compreender o alcance institucional do seu trabalho.
Expectativa para a Flip 2024
Entre 22 e 26 de julho, o público que visitar Paraty poderá participar de mesas e atividades dedicadas a Orides Fontela, ao lado de autores contemporâneos. As programações devem recorrer a leituras comentadas, debates sobre rigor formal e discussões acerca da ligação entre poesia e filosofia. Com o relançamento da obra completa pela Hedra, a feira cria condições para que novos públicos tenham acesso integral aos livros e à fortuna crítica que os acompanha.
Ao final do evento, a reedição dos cinco livros e da biografia “O Enigma Orides” estará disponível nas livrarias, consolidando a presença da poeta no mercado editorial contemporâneo.

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