Operação paulista expõe megaesquema de lavagem de dinheiro de R$ 1,1 bilhão no mercado de eletrônicos

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A palavra-chave principal do dia—lavagem de dinheiro—volta ao centro das atenções após a força-tarefa integrada pela Polícia Civil de São Paulo, Ministério Público estadual e Secretaria da Fazenda deflagrar, nesta quinta-feira, uma operação que detalha como um grupo empresarial do ramo de distribuição de produtos eletrônicos movimentou R$ 1,1 bilhão em apenas sete meses.
- Lavagem de dinheiro: como o grupo ocultava R$ 1,1 bilhão
- Força-tarefa contra lavagem de dinheiro: operação reúne Polícia Civil, MPSP e Sefaz
- Mandados, prisões e bloqueios: etapas da ação contra a lavagem de dinheiro
- Impacto bilionário: discrepância patrimonial criada pelo esquema de lavagem de dinheiro
- Próximos passos: comunicação dos crimes fiscais e destino dos bens apreendidos
Lavagem de dinheiro: como o grupo ocultava R$ 1,1 bilhão
O “quem” da história envolve um conglomerado com sede na capital paulista e alcance comercial em todo o território nacional. O “o quê” se traduz em uma estratégia de lavagem de dinheiro elaborada em três frentes simultâneas: redirecionamento de pagamentos, uso de empresas de fachada e emissão de notas fiscais por terceiros. Na prática, as vendas eram registradas em uma plataforma comercial legítima; porém, quando o comprador concluía o pagamento, o valor era transferido para contas bancárias controladas por sociedades que só existiam no papel. Paralelamente, documentos fiscais eram emitidos por companhias distintas, criando um percurso que confundia a origem dos recursos.
Esse processo garantiu ao grupo uma volumosa discrepância entre o fluxo de caixa real e o patrimônio efetivamente declarável. Segundo a Secretaria da Segurança Pública paulista, o resultado foi a circulação de R$ 1,1 bilhão sem lastro contábil, montante que, se comparado ao capital social típico de empresas de médio porte no setor, representa um salto exponencial incompatível com a realidade auditável.
Força-tarefa contra lavagem de dinheiro: operação reúne Polícia Civil, MPSP e Sefaz
O “onde” e o “quando” concentram-se nos estados de São Paulo e Santa Catarina, palco do cumprimento de 20 mandados de busca e de três ordens de prisão. A ação mobilizou cerca de 100 policiais civis, 20 auditores fiscais da Receita Estadual e dois promotores de Justiça, distribuídos em quatro endereços estratégicos. Cada órgão envolvido atua em uma linha de especialidade: a Polícia Civil conduz as diligências investigativas e efetua prisões; o MPSP, por meio do Grupo de Atuação Especial de Persecução Patrimonial (Gaepp), instrumentaliza medidas de sequestro de bens; já a Sefaz-SP cruza informações fiscais para reforçar a prova de sonegação.
A sinergia entre essas instituições tem como objetivo central evitar o chamado efeito “porta-giratória”, em que suspeitos eventualmente são liberados por falta de robustez probatória. Ao compartilhar dados em tempo real, a força-tarefa garante que elementos financeiros, contábeis e criminais cheguem aos autos de forma simultânea, reforçando a linha investigativa.
Mandados, prisões e bloqueios: etapas da ação contra a lavagem de dinheiro
Os 20 mandados de busca tiveram o propósito de recolher computadores, livros contábeis, dispositivos móveis e qualquer suporte que vincule as transações ao conglomerado investigado. Já as três prisões buscam assegurar a presença dos principais articuladores durante a fase de colheita de depoimentos e confrontação de dados bancários.
No plano patrimonial, o Gaepp obteve autorização judicial para sequestrar valores equivalentes ao total movimentado: até R$ 1,1 bilhão. O bloqueio engloba ao menos R$ 25 milhões em imóveis de alto padrão, uma frota de veículos cuja quantidade ainda passa por consolidação, dezenas de contas bancárias abertas em nome de laranjas e aplicações financeiras diversificadas. Esse congelamento visa impedir que os ativos sejam diluídos ou transferidos a terceiros antes da conclusão do processo judicial.
Impacto bilionário: discrepância patrimonial criada pelo esquema de lavagem de dinheiro
Do ponto de vista fiscal, a engenharia adotada acarreta múltiplas consequências. Em primeiro lugar, há o prejuízo direto ao erário, pois a comercialização efetiva de eletrônicos deixa de ser tributada de forma adequada. Em segundo, credores que mantêm relações legítimas com as empresas operacionais acabam expostos a riscos, uma vez que o cenário patrimonial apresentado não condiz com a realidade financeira. Por fim, a distorção de mercado: companhias que cumprem obrigações legais enfrentam concorrência desleal de um agente que reduz artificialmente seus custos ao sonegar tributos.
Outro ponto ressaltado pelas autoridades é o uso de pessoas com histórico criminal ligado a facções como sócias de fachada. A inclusão desses intermediários não apenas mascara o verdadeiro comando societário, mas também distribui o risco jurídico em camadas, dificultando a responsabilização direta dos beneficiários finais. Imóveis de alto valor foram registrados em nome desses “sócios”, constituindo um mecanismo de blindagem patrimonial comum em esquemas de lavagem de dinheiro.
Próximos passos: comunicação dos crimes fiscais e destino dos bens apreendidos
Embora o foco primário da investigação concentre-se na lavagem de dinheiro, os crimes fiscais correlatos serão formalmente comunicados a órgãos de competência específica, incluindo a própria Secretaria da Fazenda e, potencialmente, instâncias federais caso surja eventual repercussão interestadual em tributos federais. A remessa de informações tem caráter obrigatório sempre que a força-tarefa detecta indícios que extrapolam o âmbito originalmente investigado.
Quanto aos bens apreendidos, permanecem sob custódia judicial até que a ação penal transite em julgado ou sobrevenha decisão que autorize sua alienação antecipada. Se confirmada a procedência ilícita, os valores podem ser revertidos ao Tesouro do Estado ou destinados a fundos de reaparelhamento das instituições envolvidas no combate ao crime, a depender da sentença.
Com as buscas e prisões executadas nesta quinta-feira, a investigação atinge uma etapa decisiva: a análise pericial do material recolhido. A expectativa dos órgãos participantes é que a triangulação de dados bancários, fiscais e telemáticos robusta o inquérito, fortalecendo a denúncia contra os suspeitos e permitindo, ao mesmo tempo, a recuperação efetiva dos ativos.

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