Operação expõe esquema de desvio do espólio da UNIP/Objetivo e liga empresário investigado a fraude milionária

Uma força-tarefa do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil deflagrou, nesta terça-feira, operação para cumprir nove prisões temporárias e 15 mandados de busca e apreensão contra suspeitos de participação em um esquema de desvio do espólio da UNIP/Objetivo. Segundo os investigadores, o grupo teria montado uma estrutura de documentos forjados, contratos simulados e decisões arbitrais fabricadas para acessar indevidamente cerca de R$ 845 milhões pertencentes à herança do empresário João Carlos Di Genio, fundador do conglomerado educacional.

Índice

Quem é João Carlos Di Genio e a relevância do espólio disputado

João Carlos Di Genio construiu, ao longo de mais de cinco décadas, uma das maiores redes privadas de ensino do país. Sob o guarda-chuva do grupo UNIP/Objetivo, estão escolas de educação básica, cursinhos preparatórios e universidades presentes em todas as regiões. Quando o empresário morreu, em fevereiro de 2022, aos 82 anos, deixou patrimônio estimado em quase R$ 900 milhões, distribuído entre imóveis, participações societárias e aplicações financeiras. Esse montante passou a ser administrado em inventário judicial, tornando-se alvo de diversas ações na Justiça que contestam a partilha ou pleiteiam participação na massa hereditária.

Como o esquema de desvio do espólio da UNIP/Objetivo foi articulado

De acordo com o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) e o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), os suspeitos atuavam de forma estruturada, dividindo funções específicas para conferir aparência de legalidade às fraudes. A investigação descreve quatro pilares principais:

Documentos falsos – contratos de compra e venda confeccionados após a morte de Di Genio traziam assinaturas falsificadas do empresário, datadas meses antes do óbito.

Contratos simulados – movimentações patrimoniais inexistentes eram registradas para sustentar pedidos de transferência de bens perante o inventário.

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Assinaturas adulteradas – laudos, procurações e atas traziam rubricas de pessoas que jamais assinaram os papéis, conforme laudos periciais oficiais.

Decisões arbitrais fabricadas – o grupo criou a Fonamsp (Fórum de Negócios e Finanças Internacionais e Nacionais por Arbitragem e Mediação Ltda.), apresentada como câmara arbitral. Apesar da fachada jurídica, a entidade não possui autorização do Poder Judiciário ou reconhecimento institucional, configurando tribunal fictício utilizado para proferir “sentenças” que legitimariam cobranças e transferências.

Principais personagens ligados ao esquema de desvio do espólio da UNIP/Objetivo

O MP lista nove investigados com funções distintas na engrenagem criminosa. O núcleo central é atribuído ao empresário Luiz Teixeira da Silva Junior, sócio majoritário (95 %) da Colonizadora Planalto Paulista, apontado como responsável por garantir recursos e estrutura jurídica às fraudes. Além dele, compõem o grupo:

Anani Cândido de Lara – sócio da Colonizadora Planalto Paulista, teria participado da confecção de contratos e atas.

Wagner Rossi Silva – encarregado de transportar e protocolar documentos adulterados.

Patricia Alejandra Ormart Barreto – teria emitido notificações falsas para pressionar representantes do espólio.

Jorge Alberto Rodrigues de Oliveira – atuaria como elo de contato entre o grupo e pessoas ligadas à família de Di Genio.

Camila Mariana Alejandra Piaggio Nogueira Ormat – colaboradora na formalização de contratos fictícios.

Carlos Xavier Lopes – vinculado ao braço financeiro, responsável por ocultar a origem de valores captados.

Rubens Maurício Bolorino – figura como testemunha em vários documentos forjados.

Aline Cordeiro de Oliveira Boaventura – apresentada como “juíza arbitral”, teria assinado decisões produzidas pela Fonamsp.

Antecedentes de Luiz Teixeira: do laudo falso contra Boulos a outras investigações

O histórico de Luiz Teixeira não se limita ao esquema de desvio do espólio da UNIP/Objetivo. Ele ganhou notoriedade em 2024 ao ter o nome vinculado à falsificação de um laudo médico que atribuiu, de forma mentirosa, uso de drogas ao então candidato à Prefeitura de São Paulo Guilherme Boulos (PSOL). O documento foi divulgado a dois dias do primeiro turno pelo influenciador e empresário Pablo Marçal, que disputava o pleito pelo PRTB na época. Perícias oficiais comprovaram a falsificação da assinatura de um médico no laudo.

No campo cível, Marçal já foi condenado a pagar R$ 100 mil de indenização por calúnia. Na esfera eleitoral, o Tribunal Regional Eleitoral declarou o influenciador inelegível até 2032, por uso indevido dos meios de comunicação. Luiz Teixeira, apontado como responsável material pela adulteração, nega participação, mas continua investigado.

Além desse caso, ele responde a outras ações por falsificação de assinaturas em registros empresariais, diplomas acadêmicos e atas de formatura em medicina. Há, ainda, menções a seu nome em apurações sobre desvios de recursos da saúde pública no município de Cajamar, na Região Metropolitana de São Paulo.

Impacto judicial imediato do esquema de desvio do espólio da UNIP/Objetivo

Na operação desta terça-feira, a Justiça decretou:

Prisões temporárias – nove mandados com prazo inicial de cinco dias, renováveis, para assegurar depoimentos e evitar a destruição de provas.

Buscas e apreensões – 15 endereços foram vasculhados na capital paulista, Guarulhos, Barueri e Jandira. Computadores, celulares e documentos contábeis foram recolhidos.

Bloqueio de bens – valores em contas bancárias, participações societárias e imóveis dos investigados foram sequestrados judicialmente, com o objetivo de reparar eventuais prejuízos e impedir a continuidade da prática criminosa.

Os promotores enfatizam que a medida pretende preservar elementos que comprovem a rota do dinheiro e proteger o patrimônio que ainda pertence ao espólio.

Possível conexão com o Primeiro Comando da Capital e outros desdobramentos

Uma decisão cautelar do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), mencionada nos autos, aponta indícios de vínculo de Luiz Teixeira com o Primeiro Comando da Capital (PCC). A suspeita recai sobre suposta cooptação de integrantes da facção para cobrar ou intimidar pessoas que resistiram às fraudes. As autoridades ainda apuram venda irregular de imóveis em Piraju, interior paulista, na qual vítimas teriam sido pressionadas a manter silêncio.

Próximos passos na disputa pelo espólio

Com as prisões temporárias ainda pendentes de cumprimento, os investigadores aguardam os depoimentos dos suspeitos para delimitar a participação de cada um e rastrear os valores que já possam ter sido transferidos. O processo de inventário do espólio de Di Genio segue em tramitação no Tribunal de Justiça de São Paulo, que já havia rechaçado tentativas consideradas abusivas de terceiros de ingressar na partilha.

Os bens bloqueados durante a operação permanecerão indisponíveis até nova ordem judicial. A expectativa do Ministério Público é concluir a coleta de provas e oferecer denúncia formal assim que os laudos periciais sobre os materiais apreendidos forem juntados aos autos.

Enquanto isso, familiares do fundador do grupo educacional mantêm a gestão cotidiana das unidades de ensino e aguardam definição definitiva sobre a herança, cujo valor estimado — R$ 845 milhões — permanece sob tutela do Judiciário.

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