Embaixador iraniano chama de “piada” a negociação entre EUA e Irã e detalha pressão popular em Teerã

Palavra-chave principal: negociação entre EUA e Irã

A negociação entre EUA e Irã foi rotulada como “piada mundial” pelo embaixador iraniano no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri, que descreveu intensa mobilização popular nas ruas de Teerã para impedir que o governo aceite qualquer proposta vinda de Washington. Em entrevista concedida nesta segunda-feira (30), o diplomata afirmou que o presidente norte-americano Donald Trump “dialoga consigo mesmo” enquanto renova ameaças de atacar a infraestrutura energética iraniana caso o Estreito de Ormuz permaneça fechado.

Índice

Contexto imediato da negociação entre EUA e Irã

O ponto central do embate atual é a alegada negociação entre EUA e Irã, negada por Teerã e descrita pelo embaixador como inexistente. Segundo Ghadiri, Trump voltou a falar em tratativas com “um novo regime” iraniano, mas, paralelamente, condicionou qualquer progresso à reabertura do Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio global de petróleo. Ao mesmo tempo, a administração norte-americana ameaça lançar ataques contra instalações elétricas e petrolíferas iranianas.

Essa combinação de discurso diplomático e retórica beligerante contribui, de acordo com o representante de Teerã em Brasília, para o descrédito internacional do processo. Ghadiri sustenta que a opinião pública iraniana reage com desconfiança, pressionando o governo a não se envolver em um ciclo que ele define como “guerra, cessar-fogo, negociação e nova guerra”.

A sucessão de Ali Khamenei e a nova configuração de poder

Outra peça fundamental do tabuleiro político citado pelo embaixador é a morte do líder supremo Ali Khamenei em fevereiro. Após o episódio, seu filho, Seyyed Mojtaba Khamenei, passou a ocupar o topo da estrutura de poder iraniana. Esse arranjo envolve Executivo, Parlamento, Judiciário e o Conselho dos Guardiões — órgão composto por doze membros, metade indicada pelo próprio Aiatolá e metade pelos parlamentares.

Ao mencionar a transição, Ghadiri sugere que Washington apostava em instabilidade interna com a mudança de liderança. No entanto, destaca que a mobilização popular nas ruas demonstra coesão em torno da nova administração.

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Espiral de conflitos armados e fracasso da suposta negociação entre EUA e Irã

O diplomata relembra dois episódios bélicos para ilustrar o que chama de padrão norte-americano de atuação. O primeiro ocorreu em junho de 2025, quando, segundo ele, os dois países negociavam e, subitamente, o Irã foi atacado, dando início a uma guerra de 12 dias. O segundo, mais recente, também se deu “na reta final” de tratativas mediadas por Omã: dois dias antes de um encontro decisivo, Teerã voltou a ser alvo de bombardeios.

Essas experiências levam Ghadiri a concluir que aceitar a lógica de alternar diplomacia e agressão seria inaceitável para qualquer nação independente. Por isso, ressalta que o Irã adotou uma postura de resposta “controlada, porém poderosa”, buscando dissuadir novos ataques.

Impacto militar dos ataques e a posição do Irã

Interrogado sobre os danos infligidos a Israel, o embaixador afirmou dispor de informações que apontam “danos significativos” às forças de Tel Aviv. Ele explica que as ações militares iranianas seguem parâmetros religiosos que proíbem retaliação indiscriminada. Durante a guerra Irã-Iraque (1980-1988), lembra, o país foi alvo de armas químicas fornecidas a Saddam Hussein, mas mesmo sob esse ataque não autorizou o uso de armamento semelhante.

Ao transpor essa lógica para o presente, Ghadiri sustenta que a resposta iraniana permanece dentro de limites éticos, ainda que seja, segundo ele, “forte o suficiente para danificar o inimigo”. Para o diplomata, Israel censura informações sobre as perdas sofridas para evitar repercussões internas e externas.

Universidades como alvo e defesa da produção científica

O embaixador também condenou bombardeios a universidades iranianas, classificados por EUA e Israel como centros de pesquisa bélica. Ele cita a antiga Universidade Jodhichapur, fundada há cerca de dois milênios, para evidenciar a tradição científica do país. Ghadiri argumenta que ataques contra centros acadêmicos mostram “desprezo” de Israel pela ciência e pela educação, ressaltando que o regime sionista teve, nas últimas décadas, histórico de assassinatos de professores e cientistas no exterior.

Situação interna: energia, migração e resiliência econômica

Questionado sobre as condições de vida após um mês de confrontos, o diplomata relata que o fornecimento de água e energia permanece sob forte pressão, mas não colapsou. Ele sublinha que, desde a Revolução Islâmica de 1979, o país vive sob sanções norte-americanas e, portanto, desenvolveu mecanismos de autossuficiência. Para o embaixador, os atuais bombardeios não alteram a “raiz de uma civilização com sete mil anos”, metáfora usada para indicar a resiliência cultural e institucional iraniana.

Hezbollah, Houthis e o debate sobre proxies

Outro ponto abordado diz respeito aos aliados regionais frequentemente rotulados por Washington como representantes de Teerã. Ghadiri rejeita o termo “proxy” e sugere inverter a pergunta: seriam os EUA um proxy de Israel ou o contrário? Ele sustenta que grupos como Hezbollah no Líbano, facções de resistência no Iraque e os Houthis no Iêmen possuem agendas domésticas.

O diplomata recorda que o Hezbollah surgiu na década de 1980, depois que Israel avançou até Beirute. No caso iraquiano, diz que a presença militar norte-americana iniciada em 2003 motivou movimentos de resistência. Já na Palestina, cita mais de 70 mil mortos em “dois ou três anos” para justificar a luta palestina contra a ocupação.

Repercussão na mídia brasileira

Sobre a cobertura jornalística no Brasil, Ghadiri elogiou a maioria dos veículos, mas criticou um editorial específico que, na visão dele, incentiva ataques contra civis. O embaixador lamentou a ausência de direito de resposta e classificou a iniciativa como não profissional, sobretudo em contexto de guerra.

Perspectivas para a próxima fase do conflito

O desenvolvimento imediato da crise dependerá, segundo a interpretação do diplomata iraniano, de duas variáveis principais: a continuidade da pressão pública em Teerã para rejeitar a corrente negociação entre EUA e Irã vista como ilusória e a materialização — ou não — das ameaças de Donald Trump contra a infraestrutura energética do país. Além disso, o comportamento de aliados regionalmente alinhados ao Irã, como Hezbollah e Houthis, permanece no radar e pode influenciar novas escaladas ou trégua.

A próxima data relevante citada pelo embaixador remete ao histórico de negociações mediadas por Omã: caso Washington e Teerã retomem formalmente o diálogo, um novo encontro poderia ocorrer no mesmo formato. Até lá, Teerã mantém a orientação de responder a qualquer agressão, enquanto a opinião pública continua mobilizada nas ruas.

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