Mostra de Tiradentes 2026: premiações, “fantasmas” e debates que ecoam além das telas

Mostra de Tiradentes 2026: premiações, “fantasmas” e debates que ecoam além das telas
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A Mostra de Tiradentes chegou à 29ª edição envolta em neblina literal e metafórica. Entre salas cheias, chuva persistente e reflexões sobre o passado autoritário do país, o evento mineiro premiou produções que lidam com memórias, “fantasmas” culturais e incertezas políticas, consolidando-se como um ponto crucial de encontro do cinema brasileiro contemporâneo.

Índice

Mostra de Tiradentes: tradição que resiste às intempéries

Criada há quase três décadas, a Mostra de Tiradentes se tornou referência pela combinação de exibições gratuitas, ações formativas e discussão de políticas públicas. Em 2026, as atividades voltaram a ocupar igrejas, praças, auditórios e o Cine-Praça, onde o público conviveu com uma serra encoberta por nevoeiro e uma programação que não fugiu de temas delicados.

Esta edição foi inaugurada com “O Fantasma da Ópera”, de Júlio Bressane. A escolha reforçou o clima fantasmagórico que atravessou toda a mostra, marcado tanto pela estética de parte dos filmes quanto pelos debates sobre espectros políticos que ainda rondam a sociedade brasileira.

“Anistia 79” domina premiações e traz ditadura de volta ao centro do debate

Entre os longas, o grande vencedor foi “Anistia 79”, de Anita Leandro. A produção levou o Prêmio Carlos Reichenbach, conferido pelo júri oficial da mostra Olhos Livres, e também conquistou o Júri Popular. O filme retoma imagens de arquivo da Conferência Internacional pela Anistia, realizada no fim dos anos 1970, para questionar a impunidade de agentes de repressão que atuaram durante o regime militar.

O duplo reconhecimento demonstra o impacto do tema sobre público e críticos: quase meio século após os fatos históricos retratados, o debate sobre responsabilização permanece aberto, evidenciando a força do audiovisual como ferramenta de memória.

Premiações da 29ª edição: panorama completo

Além de “Anistia 79”, outras obras se destacaram:

Mostra Foco – O curta “Entrevista com Fantasmas”, dirigido por LK (Lincoln Péricles), venceu o júri oficial e dialoga com o longametragem “Retratos Fantasmas”, de Kleber Mendonça Filho, ao abordar salas de cinema que deixaram de existir.

Canal Brasil de Curtas – “Grão”, de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, recebeu o prêmio da emissora.

Júri Popular de Curtas – “Recife Tem um Coração”, de Rodrigo Sena, conquistou o voto do público.

Mostra Formação – “De Barriga para Cima”, realizado pelo Instituto Marlin Azul e moradores da Comunidade Quilombola de Monte Alegre, foi o melhor filme, enquanto “Diálogo Bulbul” obteve menção honrosa.

Mostra Autorias – “Atravessa Minha Carne”, de Marcela Borela, foi o melhor longa segundo a Abraccine.

Mostra Aurora – Dedicada a estreias, premiou o longa “Para os Guardados”, de Desali e Rafael Rocha, também eleito pelo Júri Jovem.

Outras distinções incluíram o Prêmio Helena Ignez para o destaque feminino de “Crash”, de Gabriela Mureb, e reconhecimentos na área de pós-produção e WIP (Work in Progress), sublinhando a abrangência do evento.

Fantasmagorias estéticas: filmes que exploram memória e ruína

Não foi apenas nos títulos vencedores que o tema dos fantasmas apareceu. “As Florestas da Noite”, de Priscyla Bettim e Renato Coelho, exibido na mostra Olhos Livres, traz Silvero Pereira perambulando por uma São Paulo em preto-e-branco, apoiado por presenças consagradas como Helena Ignez e Carlos Francisco. A atmosfera de cidade silenciosa reforça a sensação de suspensão temporal.

Já “Entrevista com Fantasmas” conecta passado e presente ao registrar o desaparecimento de salas de exibição, literalizando a ideia de um cinema que se torna ruína física. Em “Para os Guardados”, a dupla Desali e Rafael Rocha mistura vivências pessoais e dores ligadas ao sistema prisional, convertendo memórias de encarceramento em narrativa sensorial.

O Fórum de Tiradentes e o debate sobre políticas públicas

Paralelamente às exibições, o Fórum de Tiradentes promoveu encontros para discutir o futuro do audiovisual. Representantes do governo federal defenderam a continuidade de políticas culturais e ressaltaram a importância de projetos de lei voltados à regulamentação de serviços de streaming, tema que se arrasta há nove anos nos corredores de Brasília.

O documento resultante, batizado de Carta de Tiradentes, foi novamente elaborado — tradição iniciada em 2023. Nesta versão, o texto priorizou a criação de um Sistema Nacional do Audiovisual, com foco na descentralização de decisões sobre investimento público. Diferentemente de anos anteriores, não trouxe percentuais de taxação nem tetos de isenção, sinalizando certa exaustão diante da lentidão legislativa.

Financiamento: patrocínio ainda é motor essencial

A Mostra de Tiradentes contou outra vez com patrocínios de Petrobras e Itaú. A diretora do evento, Raquel Hallack, afirmou que o planejamento da 30ª edição, prevista para 2027, deverá recomeçar “do zero”, ilustrando a dificuldade de garantir verbas plurianuais. Segundo Hallack, a continuidade além dos ciclos de governo permitiria delinear um projeto estratégico de país para o setor.

A dependência de incentivos e leis de fomento, como a atual Lei do Audiovisual, continua sendo um ponto crítico. Essa fragilidade explica boa parte da apreensão que paira sobre a classe artística, sobretudo em períodos eleitorais. A possibilidade de alternância política motiva preocupação quanto ao futuro das políticas de cultura.

A incerteza como maior fantasma do audiovisual brasileiro

O clima de indefinição marcou também a homenagem à atriz Karine Teles. Reconhecida pela trajetória versátil em cinema e televisão, ela foi escolhida como personalidade do ano na mostra. Durante a cerimônia, sua fala evidenciou desgaste com a instabilidade que acompanha os profissionais de arte no país, reafirmando o tema da insegurança trabalhista que atravessou a programação.

Esse sentimento de vulnerabilidade encontrou eco na meteorologia: a semana foi de céu carregado sobre Tiradentes, com apenas um dia de trégua, quando o sol apareceu timidamente. O filme de encerramento, “Copacabana, 4 de Maio”, de Allan Ribeiro, exibido nesse único intervalo de chuviscos, acompanha frequentadores do histórico show de Madonna em 2024 e dialoga com o clássico “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho, ao registrar moradores e frequentadores de um prédio carioca — desta vez sem fantasmas, mas ainda lidando com memórias coletivas.

Próximos passos até o 30º aniversário

Com a 29ª edição concluída, a organização volta-se agora para 2027, quando a Mostra de Tiradentes atinge três décadas de atividade. Até lá, o setor audiovisual aguarda avanços na regulamentação do streaming, a consolidação de um Sistema Nacional do Audiovisual e, sobretudo, garantias de financiamento contínuo que permitam a eventos e produções escaparem do ciclo de incertezas que hoje ainda os assombra.

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