Mostra de Cinema de Tiradentes destaca curtas sobre desejo, solidão e coletividade

Mostra de Cinema de Tiradentes destaca curtas sobre desejo, solidão e coletividade
Getting your Trinity Audio player ready...

Mostra de Cinema de Tiradentes foi palco, na segunda sessão da seleção Foco, de quatro curtas-metragens que investigam o desejo masculino, a solidão urbana e a força da vida comunitária no Brasil contemporâneo. “Grão”, “Caldeirão”, “Kakxop Pahok: As Crianças Cegas” e “Cinema Moderno” formaram um mosaico de narrativas que transitam entre realidade e ficção, sempre dialogando com identidades regionais e questões de pertencimento.

Índice

Mostra de Cinema de Tiradentes evidencia vozes diversas

Realizado anualmente em Minas Gerais, o evento vem se consolidando como vitrine para novos realizadores brasileiros. Na segunda noite da seleção Foco, a Mostra de Cinema de Tiradentes reuniu diretores do Rio Grande do Sul, Piauí, Minas Gerais e Pernambuco, criando um painel plural sobre temas que atravessam o país. Todas as obras apresentadas compartilham a busca por retratar indivíduos à margem e coletividades quase invisíveis, reforçando o compromisso histórico da mostra com filmes independentes de baixo orçamento.

“Grão”: retrato de desejo contido e masculinidade em transformação

Assinado por Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, “Grão” acompanha Leandro, jovem que sobrevive recolhendo soja perdida nos caminhões que circulam por Rio Grande, cidade portuária do sul do país. O protagonista, interpretado por Leandro Gomes, vive de negociar sacos do grão e de percorrer as ruas com seu automóvel vermelho, tratado como extensão do próprio corpo. Dentro do carro, caixas de som potentes liberam batidas intensas de funk de teor sexual, trilha que desloca o foco para o desejo bruto do personagem.

O curta enfatiza o isolamento afetivo do rapaz. Sequências em que ele grava áudios eróticos para si mesmo ou exibe o bíceps diante do espelho reforçam a dificuldade em concretizar fantasias. Na rua, o contato humano se resume a uma breve transação comercial, encenada pelo crítico e professor Marcelo Ikeda, participação improvisada durante as filmagens. A opção por uma estética semidocumental deriva da própria produção enxuta: equipe de quatro pessoas, uma câmera e o carro do ator, que serviu simultaneamente como locação e meio de transporte.

Os realizadores já haviam colaborado em “Cassino” e “Madrugada”, também comLeandro Gomes no elenco. “Grão” antecipa o longa “Grave”, projeto futuro que deve aprofundar a investigação sobre homens que reprimem o próprio desejo, diálogo que conecta o curta a títulos como “Oeste Outra Vez”, de Érico Rassi, e “A Outra Margem”, de Nathália Tereza.

“Caldeirão”: memória coletiva em torno de um açude do Piauí

Dirigido por Milena Rocha, Weslley Oliveira e Oliveira Júnior, “Caldeirão” desloca-se para o interior do Piauí. O filme mergulha nas histórias que se acumulam ao redor do açude de Piripiri, construído nos anos 1930 para enfrentar longas estiagens. Por meio de entrevistas, registros de arquivo e esquetes encenadas por moradores, o curta evidencia como o reservatório se converteu em ponto de encontro, sustento e mito local.

A proposta colaborativa estrutura toda a narrativa. Os diretores promovem oficinas na comunidade e incorporam personagens reais em dramatizações que misturam cotidiano e folclore. O resultado é um documentário híbrido que fala menos de si e mais da aldeia, destacando a potência da memória oral e a necessidade de preservar histórias que nunca chegam à grande mídia.

“Kakxop Pahok: As Crianças Cegas” reconta mito indígena

A animação de Charles Bicalho e Cassiano Maxakali adapta narrativa tradicional do povo Maxakali da Aldeia Escola Floresta, em Teófilo Otoni (MG). O enredo aborda três irmãos forçados a trocar de leito com as próprias mães após o desaparecimento dos pais caçadores. Quando os homens retornam, punem os meninos arrancando-lhes os olhos, exceção feita a um deles, que mantém visão parcial e conduz o grupo a um desfecho de vingança no fundo do mar.

Os desenhos foram produzidos pela própria comunidade indígena, prática que integra o curta a uma trilogia de Bicalho e Maxakali dedicada a registrar visualmente narrativas orais. A obra reverbera debates sobre anti-Édipo, mas sobretudo projeta as cores, a língua e a cosmologia dos Maxakali, reafirmando o poder de auto-representação.

“Cinema Moderno” questiona curadoria e dores pessoais

O pernambucano Felipe André Silva, ex-integrante da curadoria da Mostra de Cinema de Tiradentes, retorna ao festival com um filme que põe em xeque o próprio sistema de seleção. Em cena, o artista não binário Guga Patriota interpreta um alter ego do diretor, refletindo sobre ser cineasta negro, gay e pobre no circuito de editais. O monólogo conecta-se a trabalhos prévios do realizador, como “Cinema Contemporâneo”, no qual relatou abuso sexual na infância, e ao longa “Passou”, classificado por um crítico como “moderno” em oposição a “contemporâneo”.

Após o desabafo, o elenco e o diretor sapateiam sob luz única, gesto simbólico que ironiza a exposição de traumas no mercado cultural. Ausente da sessão, Silva enviou carta lida por amigos, na qual indaga se valeu a pena expor o próprio sofrimento. O questionamento provocou silêncio na plateia, sublinhando a tensão entre vulnerabilidade artística e capital simbólico.

Mostra de Cinema de Tiradentes articula desejo, solidão e pertencimento

A justaposição dos quatro curtas confirma a curadoria da Mostra de Cinema de Tiradentes como espaço de experimentação formal e temática. “Grão” retrata o desejo masculino encapsulado pela cultura dos paredões automotivos; “Caldeirão” celebra a vida comunitária que sobrevive graças a um açude quase secular; “Kakxop Pahok” amplia o repertório audiovisual indígena com narrativa mítica; “Cinema Moderno” volta o olhar para dentro da própria cadeia produtiva do cinema independente.

Juntos, os filmes evidenciam que, enquanto a solidão permeia existências individuais — seja no porto gaúcho ou no palco iluminado por um único spot —, a coletividade permanece como força de resistência, seja na aldeia Maxakali, na vila piauiense ou na plateia que se reconhece nas imagens projetadas.

A dupla Cozza e da Rosa já prepara o longa “Grave”, que pretende expandir o universo de “Grão” e dar sequência à investigação sobre masculinidades reprimidas. A expectativa é que futuros festivais, incluindo edições vindouras da Mostra, acompanhem esse desdobramento e continuem a revelar obras que unem ousadia formal e compromisso com narrativas pouco visíveis.

zairasilva

Olá! Eu sou a Zaira Silva — apaixonada por marketing digital, criação de conteúdo e tudo que envolve compartilhar conhecimento de forma simples e acessível. Gosto de transformar temas complexos em conteúdos claros, úteis e bem organizados. Se você também acredita no poder da informação bem feita, estamos no mesmo caminho. ✨📚No tempo livre, Zaira gosta de viajar e fotografar paisagens urbanas e naturais, combinando sua curiosidade tecnológica com um olhar artístico. Acompanhe suas publicações para se manter atualizado com insights práticos e interessantes sobre o mundo da tecnologia.

Conteúdo Relacionado

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Go up

Usamos cookies para garantir que oferecemos a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você está satisfeito com ele. OK