Kristen Stewart transforma abuso em arte: “A Cronologia da Água” marca estreia da atriz na direção e debate machismo em Hollywood
Kristen Stewart apresentou em Cannes seu primeiro longa-metragem na direção, “A Cronologia da Água”, ao mesmo tempo em que reforçou críticas ao modo como atrizes são tratadas na indústria do cinema. A produção adapta a autobiografia da ex-nadadora Lidia Yuknavitch, aborda traumas de abuso e dependência química e consolida a transição de Stewart do estrelato de blockbusters para o cinema autoral.
- Kristen Stewart estreia na direção e leva “A Cronologia da Água” a Cannes
- Do best-seller de Lidia Yuknavitch ao cinema: como nasceu o projeto de Kristen Stewart
- Enredo e abordagem estética de “A Cronologia da Água” segundo Kristen Stewart
- Carreira de Kristen Stewart: da saga “Crepúsculo” ao cinema independente
- Denúncia de desigualdade: Stewart descreve tratamento dado às atrizes em Hollywood
- Recepção em Cannes e próximos passos de “A Cronologia da Água”
Kristen Stewart estreia na direção e leva “A Cronologia da Água” a Cannes
A sala lotada do Festival de Cannes, considerado o evento mais prestigiado do circuito cinematográfico mundial, recebeu em maio do ano passado a primeira exibição pública de “A Cronologia da Água”. Stewart subiu ao palco vestindo shorts, tênis e com mechas rosa nas pontas do cabelo, reafirmando a irreverência que a acompanha desde os tempos da saga “Crepúsculo”. O filme, produzido nos Estados Unidos e previsto para chegar aos cinemas em 2025, recebeu classificação indicativa de 16 anos por seu conteúdo adulto. No elenco, Imogen Poots interpreta Lidia, com Thora Birch e Jim Belushi em papéis de apoio.
A recepção calorosa no festival validou o projeto que Stewart amadureceu por cerca de dez anos. Segundo a diretora, o interesse já existia quando ela leu o livro de Yuknavitch, obra cult que narra episódios de violência sexual, vício em álcool e drogas, e a subsequente reconquista da voz autoral da escritora.
A autobiografia “A Cronologia da Água” ganhou notoriedade internacional ao combinar memórias fragmentadas, metáforas aquáticas e linguagem visceral para discutir vergonha, corpo e sexualidade. Stewart identificou na estrutura literária não linear uma oportunidade de retratar o trauma como algo que “nada pelo cérebro”, expressão usada por ela para explicar a fluidez da lembrança dolorosa. A atriz acompanhou de perto o desenvolvimento do roteiro, buscando preservar a forma como a autora transformou experiências de violência em ato criativo.
O objetivo da diretora foi manter a honestidade crua do texto original sem suavizar cenários de dor. A sequência de abertura, por exemplo, foca no sangue que se mistura à água do chuveiro, estabelecendo o tom físico e emocional do filme. Para Stewart, retratar imagens que costumam ser consideradas “patéticas” ou “confusas” quando relatadas por mulheres é essencial para legitimar essas vivências no espaço público.
Enredo e abordagem estética de “A Cronologia da Água” segundo Kristen Stewart
A narrativa acompanha Lidia desde a infância marcada por abuso sexual, passando por conquistas como nadadora, até a derrocada provocada pelo vício em álcool e substâncias ilícitas. Em paralelo, o roteiro destaca a descoberta da escrita como instrumento de sobrevivência. Stewart recorre a cenas sensoriais e explícitas para ilustrar vergonha, desejo e reconstrução pessoal.
Entre os momentos mais comentados em Cannes está a sequência em que a protagonista se envolve simultaneamente com duas mulheres, simbolizando libertação sexual. Outra cena mostra Lidia masturbando-se e cheirando a própria mão, gesto que reivindica posse do corpo feminino em meio à violência sofrida. A diretora cita influências de filmes experimentais, como “Multiple Orgasm”, de Barbara Hammer, para justificar a ênfase na fisicalidade.
Visualmente, a produção alterna fotografia fria nas passagens de trauma e paleta mais quente quando a personagem encontra acolhimento na escrita e nos relacionamentos afetivos. A água aparece como metáfora constante: piscina, mar, chuveiro e até suor compõem imagens de imersão, afogamento ou purificação.
Carreira de Kristen Stewart: da saga “Crepúsculo” ao cinema independente
Antes de se aventurar atrás das câmeras, Kristen Stewart construiu trajetória de mais de duas décadas como atriz. Filha de profissionais de bastidores — o pai, gerente de palco, e a mãe, supervisora de roteiro —, ela circulou por sets de filmagem em Los Angeles desde criança. Seu primeiro papel relevante veio aos 12 anos, em “O Quarto do Pânico” (2002), dirigido por David Fincher.
A projeção mundial ocorreu de 2008 a 2012, quando viveu Bella Swan nos cinco filmes de “Crepúsculo”, adaptação dos livros de Stephenie Meyer. O romance adolescente com o vampiro Edward, interpretado por Robert Pattinson, rendeu bilheterias bilionárias e intensa exposição midiática. Segundo Stewart, o período foi fundamental para garantir estabilidade financeira, mas também evidenciou a disparidade de tratamento entre intérpretes homens e mulheres.
A partir de 2010, a artista passou a priorizar produções independentes. Interpretou a roqueira Joan Jett em “The Runaways”; integrou o elenco de “Na Estrada”, de Walter Salles; e contracenou com Juliette Binoche em “Acima das Nuvens”, de Olivier Assayas. Trabalhou ainda com Woody Allen em “Café Society” e com Kelly Reichardt em “Certas Mulheres”. Em 2021, foi indicada ao Oscar por personificar a princesa Diana em “Spencer”, de Pablo Larraín, e, em 2022, protagonizou o body horror “Crimes do Futuro”, de David Cronenberg.
Essas escolhas reforçaram a imagem de Stewart como defensora de narrativas autorais e, nos últimos anos, ícone queer em Hollywood. Ela declarou publicamente ser bissexual em 2017 e desde então comparece a eventos vestindo ternos, cabelo curto e defendendo a presença de histórias LGBTQIA+ nas telas.
Denúncia de desigualdade: Stewart descreve tratamento dado às atrizes em Hollywood
Durante entrevistas em Cannes e em aparições anteriores, a diretora afirmou que, na maioria das produções, atrizes precisam primeiro “se submeter” a quem detém o poder criativo, enquanto colegas homens são encorajados a liderar. A percepção de que “atrizes são tratadas como lixo” reforçou sua vontade de ocupar a cadeira de direção, papel ainda predominantemente masculino.
Stewart critica a falta de avanços que esperava após o movimento MeToo, lançado em 2017 para expor redes de assédio. Para ela, as oportunidades permanecem restritas e os grandes estúdios preferem franquias testadas em pesquisas de mercado, reduzindo o espaço para propostas artísticas arriscadas. A cineasta defende que o cinema, antes de entreter, precisa sensibilizar, e costuma dizer que o “pensamento mercadológico deve ficar na compra de laranjas, não na criação de arte”.
Segundo a diretora, o atual momento sociopolítico dos Estados Unidos se mostra desfavorável a narrativas LGBTQIA+. Ainda assim, ela reconhece a posição de privilégio que lhe permite discutir o tema publicamente. Casada desde abril do ano passado com a roteirista Dylan Meyer, Stewart afirma sentir-se alvo de setores conservadores, mas mantém o compromisso de abordar sexualidade e corpo feminino sem suavizações.
Recepção em Cannes e próximos passos de “A Cronologia da Água”
Após a exibição no festival francês, “A Cronologia da Água” recebeu comentários positivos da crítica especializada pelo retrato poético de violência e pela performance intensa de Imogen Poots. O filme segue agora para circuito de mostras internacionais e terá estreia comercial nos Estados Unidos em 2025. No Brasil, a data ainda não foi oficializada.
Com a aprovação em Cannes e a repercussão de suas declarações sobre desigualdade de gênero, Kristen Stewart amplia o alcance de sua voz na defesa de maior espaço para mulheres e pessoas LGBTQIA+ na indústria audiovisual. A diretora já declarou estar satisfeita com a realização do projeto independentemente dos números de bilheteria, mantendo foco na seriedade do processo criativo.
O próximo marco no calendário da produção será o lançamento nos cinemas, etapa que colocará à prova a capacidade de um drama autobiográfico, marcado por cenas fortes e temática adulta, dialogar com público mais amplo fora do circuito de festivais.
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