Juros de 15% impulsionam desaceleração da indústria, indica CNI

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A Confederação Nacional da Indústria (CNI) atribuiu a desaceleração da indústria registrada no encerramento de 2025 ao ciclo prolongado de juros em 15% ao ano, nível que encareceu o crédito, conteve o consumo e comprometeu a expansão das fábricas brasileiras.
- Impacto imediato dos juros altos na desaceleração da indústria
- Demanda interna fraca agrava a desaceleração da indústria
- Crescimento das importações intensifica a desaceleração da indústria
- Índice de confiança sinaliza persistência na desaceleração da indústria
- Dados do IBGE consolidam cenário de desaceleração da indústria
- Projeções para 2026 diante da persistente desaceleração da indústria
- Selic de 15% permanece no centro do debate
Impacto imediato dos juros altos na desaceleração da indústria
Segundo a análise da CNI, a manutenção da Selic em patamar considerado punitivo ao longo de 2025 exerceu pressão direta sobre o custo do dinheiro disponível para empresas e consumidores. As indústrias passaram a enfrentar empréstimos mais caros, adiando modernizações, reduzindo a contratação de mão de obra e revendo planos de expansão. Para os consumidores, a mesma taxa elevou parcelas, restringiu o acesso a financiamentos e reduziu o volume de compras de bens duráveis, um dos motores tradicionais da cadeia manufatureira. Essa combinação de fatores se refletiu em produção contida e linha de montagem operando abaixo da capacidade.
Demanda interna fraca agrava a desaceleração da indústria
A queda de fôlego do mercado doméstico tornou-se visível quando a demanda por bens da indústria de transformação, de janeiro a novembro de 2025, cresceu apenas um quarto do registrado no ano anterior, período em que a Selic se encontrava em nível inferior. O recuo no poder de compra da população limitou pedidos aos fornecedores e gerou acúmulo de estoques acima do planejamento. Essa sobra forçada impôs freio à produção: muitas linhas pararam temporariamente para evitar excesso de mercadorias paradas em galpões.
Com a procura interna contida, o setor industrial reviu projeções de vendas e passou a operar com margens apertadas. Tal ajuste atingiu desde grandes complexos metal-mecânicos até pequenas confecções, configurando um quadro homogêneo de retração.
Crescimento das importações intensifica a desaceleração da indústria
Enquanto a indústria nacional perdia tração, as importações de bens de consumo avançaram 15,6% no mesmo período, segundo a CNI. O ingresso de produtos estrangeiros, em especial eletrônicos e itens de vestuário, preencheu o espaço deixado pela produção doméstica em ritmo lento. Essa conjuntura reduziu ainda mais a participação da manufatura brasileira no mercado interno, complicando qualquer tentativa de reação do empresariado local durante os dois semestres de 2025.
Para o parque fabril, o aumento das compras externas significou concorrência adicional em um momento de vulnerabilidade. A ausência de fôlego para investimentos impediu que muitas empresas incrementassem produtividade ou inovação, elementos essenciais para enfrentar rivais internacionais que chegam ao país, muitas vezes, com custos menores.
Índice de confiança sinaliza persistência na desaceleração da indústria
A combinação de juros altos, demanda interna limitada e pressão externa se refletiu no Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei). O indicador, divulgado pela CNI no fim de janeiro, alcançou o pior resultado para o mês em dez anos e permaneceu abaixo da linha de 50 pontos por 13 meses consecutivos. A permanência na zona de pessimismo significa expectativa de queda de produção, retração no quadro de funcionários e adiamento de aportes em máquinas ou infraestrutura, reforçando a desaceleração da indústria.
O diretor de Economia da confederação, Mário Sérgio Telles, enfatizou que o ambiente de incerteza trava decisões estratégicas. Na leitura da CNI, somente uma mudança na política de juros, acompanhada de estímulos à demanda, poderia restaurar parte do otimismo e destravar novos investimentos.
Dados do IBGE consolidam cenário de desaceleração da indústria
A Pesquisa Industrial Mensal, publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirmou o diagnóstico do setor privado. De acordo com o levantamento, a produção industrial brasileira encerrou 2025 com expansão de apenas 0,6%, bem abaixo dos 3,1% de 2024. A desaceleração ganhou intensidade a partir do segundo semestre, período alinhado ao aperto monetário. Entre os segmentos, a indústria de transformação — responsável por converter matérias-primas em bens de consumo — registrou contração de 0,2%, refletindo os estoques elevados identificados pela CNI.
Os números reforçam uma tendência de estagnação ao evidenciar que, mesmo com variação positiva marginal, a indústria não conseguiu sustentar o ritmo observado um ano antes. O resultado modesto sugere utilização de capacidade instalada inferior ao potencial e incremento limitado de produtividade.
Projeções para 2026 diante da persistente desaceleração da indústria
Sem alteração na trajetória da taxa Selic e com o consumo doméstico ainda fragilizado, a CNI avalia que o crescimento industrial em 2026 corre risco. A entidade teme que a inércia produtiva avance sobre outros ramos, ampliando a possibilidade de cortes de vagas e comprometendo a renda de famílias já cautelosas. A sinalização de baixa intenção de contratação soma-se à necessidade de recomposição de margens, indicando cenário desafiador para o primeiro semestre.
Na interpretação da confederação, uma eventual redução consistente dos juros teria potencial para baratear capital de giro, estimular renovação de máquinas, reaquecer pedidos e, consequentemente, melhorar o humor dos empresários. Entretanto, enquanto o patamar de 15% permanecer, a leitura é de que o custo financeiro seguirá travando decisões de médio e longo prazo.
Selic de 15% permanece no centro do debate
No cerne da discussão está a Selic, parâmetro que orienta desde rendimentos de títulos públicos até taxas cobradas em financiamentos bancários. Ao manter a marca de 15% ao ano, a autoridade monetária busca conter pressões inflacionárias, mas acaba, segundo o setor industrial, impondo ônus elevado à produção. O enc encarecimento do crédito torna cada real investido mais caro e exige retorno maior para justificar aportes, movimento que pode ser incompatível com a demanda reprimida em curso.
Para as companhias, o ponto de equilíbrio entre combater a inflação e preservar o dinamismo industrial passou a ser peça-chave. Caso a taxa permaneça elevada por período prolongado, há receio de que a desaceleração da indústria se aprofunde, dificultando a plena recuperação mesmo após eventual flexibilização futura.
O próximo dado oficial capaz de lançar luz sobre esse desfecho será a atualização mensal da produção industrial que o IBGE divulgará no início do segundo trimestre de 2026. O indicador mostrará se o setor conseguiu sustentar qualquer reação ou se o quadro adverso, fortemente associado à política de juros e ao aumento das importações, continua definindo o ritmo da atividade manufatureira brasileira.

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