Incidentes com tubarão: análise detalhada dos ataques em Fernando de Noronha e Olinda

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Incidentes com tubarão em praias pernambucanas voltaram a chamar a atenção após dois episódios com desfechos opostos registrados no mesmo mês: um ferimento leve em Fernando de Noronha e uma morte em Olinda. A análise técnica de Léo Veras, engenheiro de pesca com mais de três décadas de pesquisa sobre tubarões no arquipélago, ajuda a explicar como espécie, ambiente e comportamento determinaram a gravidade de cada caso.
- Panorama dos incidentes com tubarão em Pernambuco
- Entenda as espécies envolvidas nos incidentes com tubarão
- Diferença nas dentições nos incidentes com tubarão
- Comportamento e agressividade do tubarão-cabeça-chata
- Características ambientais da Praia Del Chifre e risco ampliado
- Fernando de Noronha: perfil do tubarão-lixa e medidas preventivas
Panorama dos incidentes com tubarão em Pernambuco
O primeiro episódio ocorreu no início do mês, quando a visitante Tayane Dalazen sofreu uma mordida superficial durante um banho de mar na ilha de Fernando de Noronha. Dias depois, em 29 de fevereiro, o adolescente Deivson Rocha Dantas, de 13 anos, foi atacado na Praia Del Chifre, em Olinda, e não resistiu ao ferimento profundo na coxa. Ambos os acontecimentos foram monitorados pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarão (Cemit), que confirmou as espécies envolvidas: tubarão-lixa no arquipélago e tubarão-cabeça-chata no litoral continental.
Embora os dois locais pertençam ao estado de Pernambuco, cada incidente apresenta características próprias. Noronha, situada a aproximadamente 545 quilômetros da capital, tem histórico de interação controlada com a fauna marinha. Olinda, no entanto, está a poucos quilômetros da foz do Rio Capibaribe, região de águas turvas e intensa atividade humana. Essa divergência ambiental, somada às diferenças biológicas entre as espécies, resulta em riscos distintos para banhistas.
Entenda as espécies envolvidas nos incidentes com tubarão
O tubarão-lixa, responsável pelo ferimento em Noronha, é conhecido por apresentar dentição adaptada à sucção. Seus dentes pequenos formam uma superfície semelhante a uma placa abrasiva, eficiente para capturar presas de corpo mole e para raspar alimento de recifes, mas pouco indicada para arrancar grandes porções de carne. A mandíbula trabalha como um aspirador, gerando pressão negativa para puxar a presa.
Em contraste, o tubarão-cabeça-chata, espécie confirmada no ataque fatal em Olinda, possui dentes robustos, levemente triangulares, projetados para rasgar tecidos densos e cortar ossos. O formato garante fixação firme, favorecendo lacerações extensas. Reconhecida pela literatura científica como uma das espécies mais agressivas, essa linhagem frequenta ambientes costeiros e estuarinos, onde a mistura de água doce e salgada abriga peixes, crustáceos e outros potenciais alimentos.
Diferença nas dentições nos incidentes com tubarão
Segundo o pesquisador Léo Veras, a dentição é o primeiro fator a ser considerado para compreender a magnitude dos ferimentos. Nas áreas internas da arcada do tubarão-lixa, cada dente tem dimensões minúsculas, funcionando quase como lixa de granulação grossa. Quando esse animal morde a pele humana, tende a provocar abrasões e cortes superficiais, característica observada na turista em Noronha.
Já a arcada do tubarão-cabeça-chata revela dentes pontiagudos, capazes de exercer forte pressão de mordida. A forma serrilhada atua como lâmina, permitindo que parte do tecido seja arrancada de forma quase instantânea. Nas reconstituições forenses, as marcas ficadas nos ossos tornam-se decisivas para identificar a espécie: o padrão de serrilha funciona como uma impressão digital, deixando cicatrizes permanentes que, posteriormente, retiram qualquer dúvida sobre o autor do ataque.
Comportamento e agressividade do tubarão-cabeça-chata
A agressividade atribuída ao tubarão-cabeça-chata reflete sua estratégia de caça em águas rasas. Regiões de arrebentação, onde o mar é mais agitado, oferecem cobertura e reduzem a visibilidade de presas. Nessas condições, a espécie encontra ambiente ideal para se aproximar sem ser percebida. Além disso, a proximidade de estuários facilita o acesso a cardumes e animais debilitados que descem com a maré. Cada um desses fatores amplia a chance de interação com banhistas em áreas urbanas, caso de Olinda.
Outro ponto associado ao comportamento é a tolerância a variações de salinidade. O tubarão-cabeça-chata transita entre água doce e salgada, adaptando-se a diferentes concentrações de sal. Essa flexibilidade faz com que ele utilize rios, mangues e estuários como corredores naturais, aumentando a sobreposição com atividades recreativas humanas.
Características ambientais da Praia Del Chifre e risco ampliado
A Praia Del Chifre localiza-se ao norte da desembocadura do Rio Capibaribe. A dinâmica fluvial transporta material orgânico, detritos e animais mortos para a zona costeira, deixando a água constantemente turva. Essa turbidez reduz a visibilidade tanto de presas quanto de predadores, elevando a probabilidade de ataques de aproximação rápida.
Para tubarões-cabeça-chata, a área funciona como extensão natural do estuário, oferecendo grande disponibilidade de alimento. Correntes de retorno, formadas pela interação entre o fluxo do rio e a ondulação marinha, concentram peixes e crustáceos, atraindo esses predadores. Nesse contexto, praticar esportes aquáticos ou nadar próximo à arrebentação aumenta o risco, como reforça a orientação do pesquisador de evitar atividades recreativas naquela faixa de litoral.
Fernando de Noronha: perfil do tubarão-lixa e medidas preventivas
O arquipélago de Fernando de Noronha abriga grande biodiversidade marinha, e a presença do tubarão-lixa faz parte desse ecossistema. Apesar de considerado menos perigoso, o animal pode reagir caso se sinta acuado ou caso ocorram movimentos bruscos perto de seu focinho. A prática de observar e respeitar áreas sinalizadas, bem como manter distância de cardumes ou de locais usados para alimentação de fauna, reduz ainda mais a chance de incidentes.
Em Noronha, as ocorrências são acompanhadas de perto por pesquisadores residentes, como Léo Veras, que atuam há décadas no arquipélago. Esse monitoramento contínuo fornece dados para revisão de protocolos de segurança, sinalização de trechos de maior risco e orientação a turistas. O resultado foi demonstrado no recente episódio: apesar do contato, a vítima recebeu apenas cuidados médicos básicos e manteve o quadro considerado leve.
Com base na série histórica monitorada pelo Cemit, os incidentes com tubarão seguem padrão diferenciado entre litoral continental e ilhas oceânicas. Na costa próxima a rios, a conjunção de turbidez, oferta de alimento e presença do tubarão-cabeça-chata destaca-se como principal fator de alerta. Já em ilhas distantes, onde o ambiente é mais límpido e a fauna tem menor histórico de interação agressiva, eventos tendem a ser menos graves.
Por fim, o Cemit mantém recomendação permanente para que banhistas evitem nadar em áreas de arrebentação próximas a estuários e participem de atividades de educação ambiental disponíveis em Fernando de Noronha, Olinda, Recife e demais polos turísticos do estado.

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