Greve da Avibras chega ao fim: como o acordo de R$ 230 milhões viabiliza a retomada da maior indústria bélica do país

A greve da Avibras, que se estendeu por exatos 1.280 dias, chegou ao fim com a aprovação de um plano de pagamento de R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas. O entendimento foi referendado pelos empregados da companhia de defesa sediada em Jacareí, interior paulista, abrindo caminho para que a produção seja retomada a partir de abril, depois de quase três anos sem operação contínua.

Índice

Quem são os envolvidos na greve da Avibras e onde o impasse se instalou

A paralisação teve início em 9 de setembro de 2022 nas linhas de montagem da Avibras Indústria Aeroespacial, tradicional fabricante nacional de sistemas de lançamento de mísseis, foguetes guiados, motores-foguete para as Forças Armadas e veículos blindados. Localizada em Jacareí, a planta empregava, à época, 1,4 mil pessoas, boa parte delas filiadas ao Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região — entidade que centralizou as negociações.

Durante quase três anos, a produção permaneceu suspensa, tornando‐se o movimento paredista mais longo já registrado no setor bélico brasileiro. O período coincidiu com a tramitação do pedido de recuperação judicial da companhia e com sucessivas tentativas de equacionar salários e verbas rescisórias em atraso.

Por que a greve da Avibras durou 1.280 dias

O fator determinante para a origem e a extensão do protesto foi o acúmulo de obrigações trabalhistas não honradas. Em março de 2022, antes mesmo de o movimento começar, a Avibras ingressou com pedido de recuperação judicial, alegando um passivo total de R$ 600 milhões. A incapacidade de efetuar pagamentos regulares gerou clima de incerteza, resultando na paralisação pouco meses depois.

A manutenção da greve foi reforçada por sucessivas rodadas de negociação sem consenso sobre a quitação dos valores devidos. A ausência de capital de giro, combinada à instabilidade gerencial — que culminou na substituição do fundador João Brasil Carvalho Leite — prolongou o impasse até a apresentação de um plano considerado exequível pela categoria.

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Como funciona o acordo de R$ 230 milhões que encerra a greve da Avibras

O entendimento votado pelos trabalhadores estabelece uma quitação parcelada do débito trabalhista, cujo valor totaliza R$ 230 milhões. O parcelamento foi dividido em faixas:

De 12 a 48 parcelas, variando conforme a remuneração de cada colaborador;
Inclusão de todos os 1,4 mil empregados que acumularam créditos durante o período de paralisação.

Segundo o sindicato, a adesão foi majoritária, conferindo legitimidade ao cronograma proposto. A empresa, em nota, classificou o resultado como passo determinante para sua reestruturação financeira, etapa que ocorre sob supervisão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

Greve da Avibras: demissões, homologações e recontratações programadas

Para colocar o plano em prática, a direção da companhia adotará um processo em duas fases. Primeiro, todos os 850 trabalhadores ainda registrados serão desligados. Em seguida, ocorrerá o pagamento das verbas rescisórias conforme o parcelamento aprovado. Concluída essa etapa, a empresa procederá a 450 recontratações, número considerado suficiente para reiniciar a produção.

As homologações de desligamento e os novos contratos serão formalizados entre março e abril. O enxugamento do quadro integra o esforço de adequar a estrutura de custos ao faturamento previsto na retomada, evitando que novas dívidas sejam formadas.

Recuperação judicial, nova administração e o papel do fundo credor

Paralelamente ao acordo trabalhista, a Justiça paulista rejeitou recursos contrários à homologação do Plano de Recuperação Judicial (PRJ) da Avibras. A decisão garantiu segurança jurídica à estratégia de reestruturação.

Em julho de 2025, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo destituiu o fundador João Brasil Carvalho Leite e transferiu 99% das ações para o Brasil Crédito Gestão Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, principal credor da companhia. A entrada do fundo como controlador marca uma nova fase de governança, focada em viabilizar capital e restabelecer contratos de fornecimento ao setor de defesa.

Impacto da retomada da Avibras na cadeia de defesa brasileira

Com mais de cinco décadas de atuação, a Avibras ocupa posição estratégica na indústria bélica nacional. Seus sistemas de lançamento de mísseis e foguetes — empregados pelo Exército, Marinha e Força Aérea Brasileira — são considerados ativos de soberania tecnológica. A interrupção prolongada da produção afetou a entrega de projetos e gerou preocupação entre clientes governamentais.

A volta das atividades deve restaurar o fornecimento de componentes críticos, além de preservar conhecimento técnico altamente especializado. Empresas parceiras que integram a cadeia de suprimentos — fabricantes de ligas especiais, eletrônica embarcada e propelentes — também aguardam a regularização das operações para retomar pedidos.

Calendário de restabelecimento das operações pós-greve da Avibras

Os preparativos para religar as linhas de produção incluem teste de bancadas, revisão de maquinário e checagem de softwares de orientação balística. A programação oficial estabelece:

• Março: conclusão das homologações de desligamento;
• Março-abril: efetivação das 450 recontratações e capacitação de pessoal;
• Abril: reinício gradual da fabricação de sistemas de lançamento e motores-foguete.

Caso o cronograma seja mantido, a expectativa é que as primeiras unidades saiam da linha de montagem ainda no segundo semestre, permitindo à empresa cumprir contratos suspensos desde 2022.

O que ainda pode influenciar o futuro da Avibras após a greve

Embora o acordo trabalhista represente um passo expressivo, a sustentabilidade da Avibras dependerá da execução fiel do Plano de Recuperação Judicial. Entre os pontos críticos estão:

• Geração de caixa a partir de novos pedidos governamentais e exportações;
• Gestão de custos diante de um quadro reduzido de funcionários;
• Conformidade com prazos de pagamento a trabalhadores e demais credores.

O desempenho nos primeiros meses pós-retomada será determinante para consolidar a confiança de clientes e fornecedores. O próximo marco relevante é o encerramento do processo de recontratação em abril, quando a indústria deve voltar a produzir de forma contínua sob nova administração.

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