Tráfico: peça solo de Robson Torinni disseca a violência urbana e estreia no centro de São Paulo

Tráfico, espetáculo solo protagonizado por Robson Torinni e escrito pelo dramaturgo uruguaio Sergio Blanco, iniciou temporada no Teatro Estúdio, no centro de São Paulo, depois de lotar sessões no Rio de Janeiro. A montagem, dirigida pelo argentino Victor Garcia Peralta, acompanha Alex, um jovem da periferia latino-americana que se divide entre a profissão de garoto de programa, o trabalho de matador de aluguel e a busca por status simbolizada por uma moto de luxo. Ao expor a violência urbana e o fascínio por bens de alto valor, a peça convida o público a confrontar causas e consequências desse ciclo brutal.

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A trama de Tráfico: violência, desejo e autoficção

No centro da narrativa está Alex, morador de um bairro periférico que encara duas frentes de sobrevivência: o sexo remunerado e os serviços para uma organização criminosa semelhante às milícias. A dramaturgia apresenta cenas de violência explícita, revelando a rotina de execuções praticadas pelo protagonista, mas também aproxima o espectador de seus anseios afetivos. Ao mesmo tempo em que mantém uma namorada, Alex se envolve com um professor universitário, característica que remete ao recurso de autoficção recorrente na obra de Blanco.

Esse triângulo afetivo amplia o debate sobre as fronteiras entre necessidade, escolha e afeto. A moto de alto padrão que o personagem deseja pilotar com virilidade materializa o sonho de mobilidade social: trocar o estigma da periferia pelas avenidas centrais da cidade. O contraste entre o cenário de abandono e o objeto de desejo costura uma reflexão sobre desigualdade econômica e sedução consumista nas grandes metrópoles.

Processo criativo e preparação corporal para Tráfico

A gênese da montagem ocorreu em 2022, quando Blanco, autor de obras encenadas em mais de uma dezena de países, convidou Torinni para viver Alex durante visita a um ensaio de Tebas Land. Naquele momento, o solo serviria como produção intermediária entre apresentações do espetáculo estrelado por Torinni e Otto Jr., também conduzido por Peralta. O trio se reencontrou para erguer o novo projeto, mas o caminho não foi simples. O ator chegou a cogitar desistir, recebeu orientações rigorosas do diretor argentino e superou o que descreve como “pitis de ator”.

Para atingir o perfil físico exigido pelo personagem, Torinni passou por intensa preparação corporal. O objetivo era ressaltar a musculatura que chama a atenção já nos minutos iniciais da sessão, quando ele convida o público a tocar seu corpo. Essa interação, além de quebrar a quarta parede, provoca confusão entre persona e intérprete: houve quem propusesse ao ator encontros amorosos pagos, misturando ficção e realidade.

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A pesquisa de campo incluiu conversas com jovens envolvidos em atividades ilícitas e leituras sobre crimes em capitais latino-americanas. O elenco de apoio invisível compôs ainda profissionais de saúde e especialistas em dependência química, fonte para que Torinni compreendesse o comportamento de quem faz uso frequente de cocaína, substância consumida por Alex em cena. O resultado pode ser medido no ritmo acelerado da fala, nos gestos agitados e na sensualidade agressiva que perpassa toda a apresentação.

Recepção do público e impacto emocional de Tráfico

As temporadas no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, registraram sessões esgotadas. Mesmo diante desse sucesso, a equipe calculava que a peça ficaria em cartaz apenas dois meses, considerando a dureza do texto. O prognóstico se revelou equivocado. A proposta de revelar o ator no centro do palco, anunciar atos e comentar a própria dramaturgia — recurso implantado por Peralta para aliviar a tensão — não suaviza totalmente o choque.

Relatos de espectadores que abandonam a plateia antes do desfecho ilustram a potência das cenas. Em determinado momento, uma mulher deixou o auditório ao presenciar uma passagem que envolve crianças, esperando o marido do lado de fora. Após o término, ela pediu desculpas e atribuiu a saída ao fato de ter filhos pequenos. Em outras ocasiões, o protagonista precisou de atendimento hospitalar por dores e exaustão, consequência da imersão física e emocional.

Segundo o diretor, uma vitória consiste em perceber que, apesar do horror aos crimes cometidos, a audiência torce pela redenção de Alex. Essa resposta revela empatia inesperada e denuncia o desconforto coletivo diante de um sistema que empurra indivíduos sem oportunidades para trajetórias violentas.

Do Rio a São Paulo: o percurso de Tráfico nos palcos

Depois de cumprir ciclos no Rio, Tráfico estreou no Teatro Estúdio, espaço localizado no centro paulistano. A agenda atual vai até 3 de maio, com sessões às sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 18h. Os ingressos custam R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada), e a classificação indicativa é de 18 anos.

O itinerário confirma o diálogo do projeto com capitais marcadas por contrastes sociais. Para o ator, a convivência com diferentes públicos ampliou sua empatia: ele afirma passar a olhar com mais cuidado para pessoas frequentemente condenadas à margem. A declaração ecoa o eixo temático proposto por Blanco, que relaciona a escalada violenta de jovens desfavorecidos à corrupção de esferas privilegiadas.

A carreira de Sergio Blanco sustenta esse discurso. O autor é conhecido por explorar narrativas que cruzam introspecção, realidade social e autoficção. Sucesso anterior da parceria Torinni-Peralta, Tebas Land acumula montagens em 12 países e serve como testemunho da força internacional do dramaturgo.

Perspectivas futuras: festivais internacionais e novos projetos

Encerrada a temporada paulista, o próximo passo é levar Tráfico a circuitos fora do país. A produção planeja ingressar, ainda este ano, na programação dos festivais de Avignon, na França, e de Edimburgo, na Escócia, dois dos eventos de artes cênicas mais reconhecidos do mundo. Caso o plano se confirme, a peça reforçará o histórico global do autor e elevará o alcance do trabalho de Torinni e Peralta.

O entrosamento entre ator e diretor não deve se limitar ao título atual. Ambos pretendem colaborar em mais duas montagens, entre elas o monólogo O Homem de Aço, do argentino Juan Francisco Dasso, que focaliza um pai aprendendo a amar o filho autista. Depois dessas iniciativas, Torinni manifesta interesse em experimentar outras direções, mas, por ora, mantém o foco no solo que o tem levado aos limites físicos e emocionais.

Diante desse calendário, a última informação concreta para o público é a permanência de Tráfico no Teatro Estúdio até 3 de maio, datas que concentram a experiência íntima, incômoda e contundente criada por Sergio Blanco, Victor Garcia Peralta e Robson Torinni.

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