Força do Brasil no Oscar: produtor Rodrigo Teixeira cobra continuidade para o prestígio nacional

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O produtor brasileiro Rodrigo Teixeira aproveitou sua participação na Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais, para fazer um balanço sobre a força do Brasil no Oscar. Ao revisitar marcos recentes, Teixeira celebrou o impacto de títulos como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”, mas também alertou que o prestígio conquistado pode se dissipar sem políticas públicas e planejamento industrial. A reflexão parte de uma linha histórica que começa em “Cidade de Deus”, passa por “Parasita” e desemboca nas indicações consecutivas que colocaram o audiovisual brasileiro no centro da principal premiação de Hollywood.
- Força do Brasil no Oscar: como “Parasita” abriu caminho para títulos estrangeiros
- Força do Brasil no Oscar e o legado interrompido de “Cidade de Deus”
- “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” consolidam a força do Brasil no Oscar
- Desafios para manter a força do Brasil no Oscar nos próximos anos
- Estrutura de campanha e articulação latina impulsionam a força do Brasil no Oscar
Força do Brasil no Oscar: como “Parasita” abriu caminho para títulos estrangeiros
Ao comentar a vitória de “Parasita” em 2020, Teixeira descreveu o feito como um divisor de águas para produções fora do eixo Estados Unidos-Reino Unido. O reconhecimento do filme sul-coreano impulsionou votantes internacionais a se mobilizarem de forma coordenada, criando um precedente que viabilizou a presença de obras não faladas em inglês entre os indicados a melhor filme. Para o produtor, esse episódio demonstrou que a Academia tem espaço para se tornar de fato global quando existe engajamento mútuo. Nas palavras dele, foi o momento em que todos enxergaram benefício coletivo na vitória de um representante estrangeiro, fenômeno que, por extensão, fortalece a força do Brasil no Oscar.
O raciocínio de Teixeira parte da constatação de que o sistema de voto da Academia valoriza a união de nichos específicos. Quando integrantes de diferentes nacionalidades percebem que o sucesso de um colega pode abrir portas para todos, a soma de intenções de voto cresce e altera o curso histórico das indicações. A partir desse case, o produtor entende que cada país deve estruturar redes semelhantes, capazes de articular campanhas sólidas que transcendam fronteiras linguísticas.
Força do Brasil no Oscar e o legado interrompido de “Cidade de Deus”
Antes de “Parasita”, Teixeira enxerga que “Cidade de Deus” poderia ter sido a obra pioneira nessa quebra de barreiras, mas foi prejudicada por falhas de planejamento. O longa de Fernando Meirelles foi escolhido pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) para disputar a categoria de melhor filme internacional ainda em 2002, ano de seu lançamento no Brasil. Contudo, a estreia tardia na Europa e nos Estados Unidos – só em 2003 – impossibilitou que o título conquistasse tração suficiente junto aos votantes na janela que antecede o anúncio das indicações.
Outra peça decisiva desse revés, segundo Teixeira, foi a estratégia equivocada da distribuidora norte-americana Miramax. Sem uma campanha robusta a tempo, a produção acabou ignorada na categoria que poderia consagrá-la. Somente no ano seguinte, depois de uma mudança de postura do estúdio, “Cidade de Deus” recebeu quatro nomeações em ramos técnicos e artísticos – direção, roteiro adaptado, edição e fotografia –, mas saiu sem estatuetas. Paralelamente, o Brasil enviou “Carandiru” como representante oficial, que não alcançou vaga entre os finalistas. A história ilustra como a força do Brasil no Oscar esbarrou em erros de calendário e comunicação, desperdiçando uma oportunidade de romper o teto de vidro quase duas décadas antes.
“Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” consolidam a força do Brasil no Oscar
Duas décadas depois, a consolidação brasileira veio pela mão do próprio Rodrigo Teixeira. Em 2025, “Ainda Estou Aqui” tornou-se o primeiro filme do país a conquistar a cobiçada estatueta, resultado atribuído pelo produtor a uma campanha extensa que começou nos festivais e avançou por premiações de crítica até chegar a Hollywood. Vinte e quatro meses depois, o feito se repetiu na etapa das indicações com “O Agente Secreto”, obra dirigida por Kleber Mendonça Filho e protagonizada por Wagner Moura. O projeto estreou em maio, no Festival de Cannes, e saiu de lá premiado por direção e atuação principal, sinal antecipado de seu potencial na temporada.
Informações de bastidores citadas por Teixeira mostram que o roteiro do thriller político gerava expectativa desde 2024, quando circulava entre leitores da indústria. A confiança ganhou reforço com a entrada da distribuidora Neon, que alavancou vencedores recentes como “Parasita” e “Anora”. A escuderia de campanhas certeiras despertou o interesse de Ryan Werner, executivo recém-alçado ao cargo de presidente de cinema global do selo. Logo após Cannes, Werner teria apontado a mesma rota premiada para “O Agente Secreto”, percepção que se confirmou com as quatro indicações que o longa conquistou na temporada 2026.
Para Teixeira, a dobradinha de nomeações em anos consecutivos comprova que o país alcançou um patamar inédito de visibilidade. A força do Brasil no Oscar, dessa vez, não se restringiu à categoria internacional, chegando ao núcleo da disputa principal. O produtor, no entanto, pondera que essa conjuntura ainda depende de talentos consolidados, geralmente com duas ou três décadas de estrada, o que gera preocupação sobre como renovar o ciclo.
Desafios para manter a força do Brasil no Oscar nos próximos anos
A despeito do sucesso recente, Teixeira manifestou ceticismo em relação ao curto prazo. Segundo ele, o pipeline de produção nacional não exibe, por ora, projetos com a mesma potência de “O Agente Secreto” ou “Ainda Estou Aqui”. Como o intervalo entre desenvolvimento, filmagem, estreia em festivais e campanha pode superar três anos, a lacuna de potenciais concorrentes torna-se visível já em 2026. O produtor admite prever um hiato até que novo título brasileiro ganhe musculatura internacional suficiente.
A análise parte de três variáveis: financiamento público, oportunidades de formação e continuidade de políticas setoriais. Sem incentivos que reduzam o risco para criadores emergentes, a indústria tende a concentrar recursos em nomes já consagrados. Teixeira menciona o caso do diretor de fotografia Adolpho Veloso, jovem indicado ao Oscar por “Sonhos de Trem”, como exemplo de renovação possível quando brechas se abrem em categorias técnicas. Para ele, ampliar esse tipo de porta de entrada é fundamental para preservar a força do Brasil no Oscar.
Outra frente apontada diz respeito à articulação dentro da própria Academia. Há dez anos, o grupo brasileiro contava com cerca de 15 votantes; atualmente soma cerca de 80, com perspectiva de ultrapassar 90 graças à exposição obtida pelos filmes recentes. Embora a fração pareça modesta diante dos 10,9 mil membros, o avanço revela que cada indicação bem-sucedida retroalimenta a presença nacional no órgão. Essa massa crítica, se coordenada com colegas de outros países latino-americanos, tende a preservar espaço para produções brasileiras.
Estrutura de campanha e articulação latina impulsionam a força do Brasil no Oscar
Nos bastidores, Teixeira enfatiza que a corrida pela estatueta funciona como um programa de televisão: a Academia busca audiência global e, nesse cenário, o Brasil representa um mercado volumoso. Ao demonstrar que o país agrega público à premiação, produtores fortalecem o argumento para incluir obras nacionais no cardápio de indicados, e isso vale tanto para categorias artísticas quanto técnicas. A campanha de “Ainda Estou Aqui” ilustra esse conceito. Iniciada em outubro de 2024, ela engajou votantes de toda a América Latina, estratégia vista pelo produtor como decisiva para a primeira vitória brasileira.
O envolvimento de distribuidoras especializadas no circuito “indie” norte-americano também se mostra decisivo. No caso de “O Agente Secreto”, a escolha da Neon garantiu acesso a uma engrenagem testada em sucessos estrangeiros, além de circuitos de exibição estratégicos que geram buzz junto à imprensa dos Estados Unidos. Esses fatores somados ampliam o raio de alcance de um filme, elemento crítico para países que não dispõem de estruturas equivalentes às majors de Hollywood.
Apesar do entusiasmo, Teixeira volta a dizer que essas vitórias não podem ser ato isolado. A manutenção do prestígio exige que incentivos públicos, treinamento de jovens profissionais e redes de distribuição continuem a operar de forma integrada. Somente dessa maneira o Brasil terá um fluxo constante de títulos capazes de chegar aos principais festivais, converter reconhecimento crítico em impulso de marketing e, finalmente, transformar esse capital simbólico em indicações.
Com as indicações de “O Agente Secreto” ainda na berlinda e a Academia prestes a divulgar os vencedores, o produtor aposta que o número de brasileiros entre os votantes aumentará na próxima renovação de membros. Esse possível crescimento, aliado à memória recente de premiações, formará o terreno para os próximos lançamentos que desejem trilhar a mesma rota. O calendário de festivais iniciado em Cannes e seguido por Veneza, Toronto e San Sebastián deverá apontar, nos próximos meses, os títulos que tentarão manter acesa a força do Brasil no Oscar.

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