Filme Enzo aprofunda os dilemas da adolescência ao contrapor rebeldia, política e desejo

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Filme Enzo chega às salas de cinema como um drama franco-italo-belga que disseca as incertezas da adolescência ao entrelaçar rebeldia, sexualidade e consciência política. Inicialmente concebido pelo cineasta Laurent Cantet, falecido em abril de 2024, o projeto foi concluído por seu assistente de longa data, Robin Campillo, mantendo a data de estreia para 2025.
- Filme Enzo: a gênese de um projeto interrompido e retomado
- Quem é Enzo: perfil do protagonista e eixo dramático central
- Filme Enzo e a amizade com Vlad: sexualidade e consciência sociopolítica
- Laurent Cantet e Robin Campillo: trajetórias que sustentam o Filme Enzo
- Construção de personagens e atuações sob olhar crítico
- Aspectos formais: fotografia, som e coerência narrativa
- Filme Enzo e o diálogo com o cinema de rebeldia dos anos 1970
- Recepção antecipada e próximos passos da distribuição
Filme Enzo: a gênese de um projeto interrompido e retomado
O ponto de partida de Filme Enzo está na decisão do premiado diretor Laurent Cantet, reconhecido internacionalmente desde “Entre os Muros da Escola” (2008), de escrever e dirigir uma história sobre um jovem em crise identitária. Mesmo enfrentando um câncer agressivo, Cantet insistiu em levar o roteiro adiante. A gravidade da doença, entretanto, impediu que ele mesmo comandasse as filmagens. Antes de falecer, o diretor confiou todo o material a Robin Campillo, seu colaborador em sucessos como “120 Batimentos por Minuto” (2017). Campillo assumiu a direção com o compromisso de preservar a visão original, imprimindo ainda seu próprio rigor narrativo. O resultado exibe coesão temática e unidade estética, apesar da mudança inesperada de comando.
Quem é Enzo: perfil do protagonista e eixo dramático central
No enredo de Filme Enzo, o personagem-título, interpretado pelo estreante Eloy Pohu, é um adolescente de 16 anos que vive em uma região próspera do Sul da França. A casa luxuosa, os privilégios cotidianos e o planejamento de um futuro acadêmico bem estruturado não lhe trazem senso de pertencimento. Sentindo-se deslocado, o jovem abandona a escola e opta por trabalhar como pedreiro em um canteiro de obras — escolha vista pelos pais como mero capricho passageiro. O gesto funciona como catalisador da narrativa: ao rejeitar a trajetória profissional típica de sua classe, Enzo confronta valores familiares e põe à prova o conforto burguês que o cerca.
Essa ruptura não se resume à busca por liberdade. O roteiro revela que, por trás da aparente indiferença, existe uma investigação interna sobre identidade social e afetiva. O canteiro de obras, cenário de relações laborais árduas e predominantemente masculinas, opera como espaço de experimentação para Enzo, que testa seus próprios limites físicos e morais enquanto questiona a normalidade imposta pelo lar.
Filme Enzo e a amizade com Vlad: sexualidade e consciência sociopolítica
A virada dramática ocorre quando Enzo faz amizade com Vlad, um imigrante ucraniano que trabalha na mesma construção. Pierfrancesco Favino, ator italiano reconhecido por papéis em “Romanzo Criminale” e “Suburra”, interpreta Vlad conferindo ambiguidade entre camaradagem protetora e tensão latente. Esse vínculo suscita dois desdobramentos fundamentais:
1. Descoberta sexual – A convivência com um colega mais velho e estrangeiro desperta em Enzo fantasias homoeróticas, expostas por meio de desenhos de figuras masculinas portando armas. O filme aborda o desejo como força irracional que ultrapassa convenções sociais, sem recorrer a filtros moralizantes.
2. Despertar político – A recusa de Vlad em regressar à Ucrânia por causa da guerra contra a Rússia introduz discussões atuais sobre deslocamento forçado e conflitos geopolíticos. Ao escutar relatos do companheiro de trabalho, Enzo passa a questionar não apenas sua bolha social, mas também a própria indiferença diante de crises internacionais. Dessa forma, a intimidade nascente e a tomada de consciência política se entrelaçam, estabelecendo um eixo temático distintivo.
Laurent Cantet e Robin Campillo: trajetórias que sustentam o Filme Enzo
Para compreender a relevância de Filme Enzo, é preciso contextualizar as carreiras dos cineastas envolvidos. Laurent Cantet consolidou-se como cronista das tensões sociais francesas, colecionando prêmios internacionais, inclusive a Palma de Ouro. Sua morte interrompeu uma obra em desenvolvimento, mas o legado de criar narrativas centradas em grupos marginalizados permanece presente.
Robin Campillo, por sua vez, ganhou projeção ao roteirizar “Entre os Muros da Escola” ao lado de Cantet e, mais tarde, dirigir “120 Batimentos por Minuto”, drama sobre a militância contra a AIDS que venceu o Grande Prêmio do Júri em Cannes. Essa combinação de experiência prévia em temas sociopolíticos e parceria criativa antiga justificou a transferência de responsabilidade. Campillo manteve a estrutura dramática planejada por Cantet, porém adicionou marca pessoal, como a ênfase nos silêncios e na fisicalidade das performances, elementos perceptíveis ao longo de Filme Enzo.
Construção de personagens e atuações sob olhar crítico
Eloy Pohu, ator em início de carreira, entrega um Enzo marcado por lacônica introspecção. A ausência de maneirismos usuais de intérpretes experientes acaba contribuindo para o realismo de um adolescente confuso. A crudeza, alinhada ao perfil “pedra bruta” do personagem, faz eco ao roteiro que retrata um jovem ainda em moldagem.
Élodie Bouchez — conhecida por produções como “La Vie Rêvée des Anges” — interpreta a mãe de Enzo, figura que ilustra o desconforto da classe média ao perceber rachaduras na fachada de estabilidade. Sua atuação complementa o arco paterno, onde a culpa burguesa emerge gradativamente diante da rebeldia do filho.
O elenco de apoio, escolhido entre trabalhadores reais da construção civil, reforça autenticidade às cenas de obra. Essa decisão criativa, coerente com o cinema social praticado por Cantet e Campillo, amplia a camada documental da produção.
Aspectos formais: fotografia, som e coerência narrativa
Visceralidade e naturalismo orientam a fotografia de Filme Enzo. Planos fechados acompanham o rosto do protagonista, enfatizando contradições emocionais. Quando ele observa Vlad ou imagina cenários de conflito armado, a câmera utiliza cores dessaturadas, sugerindo mistura de fantasia e brutalidade. Já no interior da casa burguesa, a paleta quente acentua o conforto que Enzo repele.
A trilha sonora aposta em minimalismo, permitindo que ruídos de britadeiras, metálicas batidas de martelo e conversas em vários idiomas componham uma atmosfera sonora crua. Esse desenho sonoro destaca a percepção de Enzo sobre o mundo concreto e sobre seu próprio corpo em transformação.
Narrativamente, Campillo garante unidade ao entrelaçar as três frentes centrais: crise de identidade, amizade homoafetiva e conscientização política. Cada decisão estética converge para reforçar esses pilares, criando coesão até o desfecho, que mantém a aridez emocional sem recorrer a conclusões moralizadoras.
Filme Enzo e o diálogo com o cinema de rebeldia dos anos 1970
O roteiro estabelece ponte com obras que capturaram o espírito contestador da década de 1970. O paralelo mais evidente surge com “Cada Um Vive Como Quer” (1970), de Bob Rafelson, em que um homem abastado larga a vida privilegiada para trabalhar em uma plataforma de petróleo. A diferença reside no grau de radicalidade: enquanto o personagem de Jack Nicholson abraça a errância total, Enzo não dispõe ainda de elaborações filosóficas sobre liberdade; ele age antes que compreenda. Mesmo assim, o gesto de abandonar a rota escolar e carregar tijolos funciona como micro-revolta, questionando o roteiro social previsto para jovens de seu estrato econômico.
Recepção antecipada e próximos passos da distribuição
Produzido em parceria entre França, Itália e Bélgica, Filme Enzo recebeu classificação indicativa de 14 anos e foi programado para lançamento comercial em 2025. A expectativa da distribuidora é ampliar o circuito de exibição para festivais europeus no segundo semestre do mesmo ano, aproveitando a reputação de Campillo no circuito autoral. Caso a estratégia se confirme, o longa poderá disputar prêmios que valorizam temáticas sociais e abordagens de coming-of-age. Até lá, a curiosidade do público gira em torno da forma como o diretor conseguiu preservar a essência de Cantet, ao mesmo tempo em que imprimiu assinatura própria.

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