Fernando de Noronha reforça vocação cultural: cinema impulsiona economia, qualificação e identidade local
No mesmo território insular que atrai visitantes pela biodiversidade marinha, Fernando de Noronha começa a consolidar um segundo cartão-postal: o da produção audiovisual. Moradores, gestores públicos e cineastas articulam parcerias para transformar cenários paradisíacos em locações, ampliar a oferta cultural da ilha e criar oportunidades de trabalho ligadas ao setor, hoje em franca expansão.
- Fernando de Noronha e o cinema: estratégia além do turismo
- Produções recentes gravadas em Fernando de Noronha engajam moradores
- Fórum Noronha2B consolida Fernando de Noronha no mapa audiovisual
- Qualificação profissional e preservação da memória local em Fernando de Noronha
- Desafios logísticos e ambientais para filmar em Fernando de Noronha
- Perspectivas: sala de cinema e estreias aguardadas em Fernando de Noronha
Fernando de Noronha e o cinema: estratégia além do turismo
O arquipélago, situado a cerca de 400 quilômetros da costa do Nordeste brasileiro, sustenta-se majoritariamente do turismo. A crescente procura de produtoras, porém, abre caminho para uma nova fonte de renda. Ao atrair filmagens, a administração local busca diversificar a economia, gerar vagas qualificadas e apresentar a comunidade para o público nacional e internacional, sem depender exclusivamente dos passeios à Praia do Sancho ou ao Morro do Pico.
Essa guinada atende a duas frentes. De um lado, produtoras enxergam a força estética das paisagens e, de outro, a população vê no audiovisual uma maneira de registrar a própria história. Ao mesmo tempo em que golfinhos-rotadores seguem povoando guias turísticos, personagens reais, como pescadores e artesãos, ganham espaço nas telas.
Produções recentes gravadas em Fernando de Noronha engajam moradores
Entre os projetos já filmados na ilha, desponta a comédia romântica “Sob o Sol de Noronha”, codirigida por Neco Tabosa e Ulisses Brandão e finalizada para estrear no serviço de streaming Globoplay. O longa contou com a participação direta de residentes, a exemplo da artista visual e fotógrafa Kelly Soares, nascida e criada no arquipélago. A experiência indicou um modelo de set em que a comunidade exerce papeis tanto na frente quanto atrás das câmeras, participando de figurino, produção e assistência de fotografia.
Além da ficção, documentários também se beneficiam da coparticipação local. “Mestre Mar” retrata a tradicional comunidade de pescadores, enquanto “Maré Viva Maré Morta” e “Seeds” nasceram em laboratório de criação sediado na primeira edição do fórum Noronha2B. Todos compartilham a premissa de deixar o protagonismo nas mãos de quem vive permanente ou temporariamente na ilha, reforçando a autenticidade do conteúdo.
Fórum Noronha2B consolida Fernando de Noronha no mapa audiovisual
A terceira edição do Noronha2B reuniu cineastas, gestores públicos e representantes internacionais, incluindo integrantes do Festival de Berlim e da Paris Film Commission. Por quatro dias, uma praça no centro histórico, a Vila dos Remédios, transformou-se em cinema ao ar livre, exibindo majoritariamente obras captadas ali mesmo. A plateia local, estimada em pouco mais de três mil habitantes, teve acesso gratuito a sessões que normalmente dependeriam de deslocamento aéreo até o Recife ou São Paulo.
O fórum debateu políticas de incentivo, tendências de turismo cinematográfico e estratégias para respeitar os limites ambientais. Ao aproximar agentes de mercado, o encontro sedimentou a imagem de Fernando de Noronha como locação viável para produções de menor escala, alinhada a práticas sustentáveis exigidas pela proteção integral que cobre metade do território.
Qualificação profissional e preservação da memória local em Fernando de Noronha
Uma das metas centrais do movimento audiovisual é capacitar os habitantes. Parceria entre o fórum e a única escola de ensino médio da ilha resultou no documentário “Olhar de Dentro”, realizado por jovens estudantes. O filme apresenta perfis de moradores históricos, como Eunice Maria de Oliveira — a dona Nice — residente em Noronha desde 1948. A iniciativa funciona como porta de entrada para carreiras técnicas, oferecendo, dentro do currículo escolar, oficinas de roteiro, captação e montagem.
Projetos socioculturais já consolidados, como o Grupo Cultural Dona Nanete, incorporam o cinema ao rol de oficinas que tradicionalmente inclui maracatu, dança e artesanato. Dessa forma, a produção audiovisual converte-se em ferramenta para registrar saberes transmitidos oralmente. Sem uma memória filmada, grande parte das histórias locais ficaria restrita a relatos informais.
Desafios logísticos e ambientais para filmar em Fernando de Noronha
Gravar em uma ilha remota impõe equações de custo, transporte e licenciamento. Metade do arquipélago integra um parque nacional, enquanto o segmento restante configura área de proteção ambiental gerida pelo governo de Pernambuco. Qualquer equipe de filmagem precisa obter autorização prévia e seguir normas estritas que limitam, por exemplo, o uso de drones em regiões de nidificação de aves marinhas. As restrições pressionam produtoras a conceber sets enxutos e tecnologias leves, estratégia defendida pela gerência de cultura local como modelo de “audiovisual sustentável”.
Outro entrave é a logística de equipamentos. Sem ligação terrestre, todo material chega por via aérea ou marítima, encarecendo cenários grandiosos. Esse cenário reforça a tendência de equipes compactas. Dados econômicos citados nos debates do Noronha2B apontam que filmagens de pequeno porte têm menor impacto ambiental e maior possibilidade de empregar mão de obra residente, reduzindo o volume de profissionais alojados temporariamente.
Perspectivas: sala de cinema e estreias aguardadas em Fernando de Noronha
Apesar da vitalidade dos projetos itinerantes, a população permanece sem um espaço de exibição permanente desde 2018, quando o Cine Mabuya encerrou atividades. O anúncio de uma sala dentro do Forte Nossa Senhora dos Remédios, feito há dois anos, ainda não se concretizou. Nesse vácuo, cineclubes e projeções ocasionais suprem a demanda, mas longas-metragens como “O Agente Secreto”, recordista de bilheteria pernambucana, só chegaram a Noronha pela via do streaming.
A expectativa agora recai sobre a estreia de “Sob o Sol de Noronha” na Globoplay. Moradores que integraram o elenco aguardam a repercussão como vitrine e argumento adicional para destravar a obra civil que abrigará a futura sala comercial. Até lá, a combinação de praças convertidas em cinemas a céu aberto e plataformas digitais segue cumprindo o papel de dar visibilidade à cultura insular.
A próxima edição do fórum Noronha2B, ainda sem data divulgada, figura como ponto focal do calendário cultural local e tende a manter o arquipélago no radar de produtoras que buscam conciliar paisagem exuberante, equipe engajada e modelo de produção ambientalmente responsável.

Conteúdo Relacionado