Febre reumática: sintomas, causas e tratamento para evitar danos ao coração

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A febre reumática é uma doença inflamatória grave que pode surgir algumas semanas depois de uma infecção de garganta por Streptococcus pyogenes. Embora frequentemente subestimada, a enfermidade atinge principalmente crianças e adolescentes e tem potencial para comprometer permanentemente o coração, tornando essencial o reconhecimento precoce dos sinais e a iniciação rápida do tratamento.
- O que é febre reumática e como ela se desenvolve
- Fatores de risco para febre reumática em crianças e adolescentes
- Sintomas clássicos da febre reumática: do coração às articulações
- Critérios de diagnóstico clínico e laboratorial
- Tratamento e prevenção: antibióticos, anti-inflamatórios e profilaxia
- Complicações e prognóstico a longo prazo
O que é febre reumática e como ela se desenvolve
Diferentemente de uma infecção direta, a febre reumática representa uma resposta autoimune exagerada. Após combater o estreptococo do grupo A na faringe, o sistema de defesa do paciente pode, por engano, direcionar anticorpos contra tecidos saudáveis de articulações, pele, cérebro e, sobretudo, coração. Essa reação tardia costuma aparecer entre duas e três semanas depois da faringoamigdalite, tempo necessário para o organismo produzir anticorpos que, em pessoas suscetíveis, passam a agredir o próprio corpo.
A faixa etária mais afetada está entre 5 e 15 anos; casos antes dos 3 anos ou depois dos 21 anos são raros. Além da predisposição genética, fatores ambientais como aglomerações e moradias com ventilação precária facilitam a transmissão da bactéria e aumentam a incidência do problema. A mesma cepa bacteriana ainda pode causar escarlatina, o que torna crianças com episódios de escarlatina ou amigdalites de repetição especialmente vulneráveis.
Fatores de risco para febre reumática em crianças e adolescentes
Embora a presença do estreptococo seja condição indispensável, nem todo indivíduo infectado desenvolverá a doença. Os fatores que elevam o risco incluem:
Predisposição genética: algumas pessoas têm maior probabilidade de apresentar resposta autoimune exacerbada.
Exposição frequente ao estreptococo: convívio em escolas, creches ou residências superlotadas favorece novas infecções.
Tratamento inadequado da amigdalite: ausência de antibiótico ou interrupção precoce da medicação impede a eliminação completa da bactéria.
Histórico de escarlatina: crianças que já tiveram a doença estão na mesma cadeia de risco, pois a bactéria responsável é idêntica.
Sintomas clássicos da febre reumática: do coração às articulações
O quadro clínico é amplo, e um mesmo paciente pode apresentar várias manifestações simultaneamente. Os sinais cardinais são:
Artrite migratória: dor, calor, vermelhidão e inchaço acometem uma articulação de cada vez, movendo-se de joelhos para tornozelos, cotovelos ou pulsos de forma sequencial.
Cardite: inflamação do tecido cardíaco que pode provocar sopro, fadiga, dor no peito e, em situações severas, insuficiência cardíaca. É a complicação mais temida, pois pode deixar sequelas valvares permanentes.
Coreia de Sydenham: movimentos involuntários e abruptos de braços e pernas, fraqueza muscular e instabilidade emocional. Costuma surgir tardiamente, semanas após a artrite.
Lesões cutâneas: nódulos subcutâneos indolores e eritema marginado, caracterizado por manchas avermelhadas de borda nítida, sem prurido.
A febre propriamente dita também pode ocorrer, mas nem sempre está presente, o que faz com que alguns casos passem despercebidos até que sinais articulares ou cardíacos se manifestem com maior intensidade.
Critérios de diagnóstico clínico e laboratorial
Não existe exame único capaz de confirmar a enfermidade isoladamente. O diagnóstico é clínico, fundamentado nos Critérios de Jones, que classificam achados em maiores (artrite, cardite, coreia, nódulos subcutâneos, eritema marginado) e menores (febre, dores articulares, alterações em exames laboratoriais). Para fechar o quadro, o médico precisa ainda comprovar infecção estreptocócica prévia, obtida por:
Títulos elevados de ASLO: anticorpos anti-estreptolisina O que indicam exposição recente à bactéria.
Cultura de orofaringe: coleta de secreção da garganta que detecta a presença do microrganismo.
Profissionais que normalmente conduzem a investigação incluem pediatras, reumatologistas e cardiologistas. A combinação dos sintomas maiores e menores, somada à evidência laboratorial, determina o início imediato da terapêutica.
Tratamento e prevenção: antibióticos, anti-inflamatórios e profilaxia
O manejo clínico possui três frentes principais:
Erradicação do estreptococo: a penicilina benzatina, aplicada em dose intramuscular, é o esquema mais utilizado para eliminar a bactéria residual. Esse passo interrompe a cadeia autoimune ao remover o agente desencadeador.
Controle da inflamação: anti-inflamatórios como a aspirina reduzem dor e edema articulares. Em situações graves, corticosteroides podem ser prescritos para conter inflamação cardíaca importante.
Profilaxia secundária: para impedir novas infecções que reativem a doença, o paciente recebe injeções periódicas de penicilina, geralmente a cada 21 dias, regime que pode durar anos. A adesão rigorosa a esse calendário é crucial para evitar recaídas e complicações cardíacas tardias.
Além dessas medidas, orientação detalhada à família sobre sinais de alarme e necessidade de procurar assistência médica ao primeiro sintoma de dor de garganta é parte integrante do acompanhamento.
Complicações e prognóstico a longo prazo
Quando a febre reumática não é diagnosticada ou tratada precocemente, a inflamação do coração pode deixar sequelas irreversíveis nas válvulas cardíacas. A deformidade valvar favorece sopros crônicos, arritmias e, em última instância, insuficiência cardíaca. Diretrizes nacionais de saúde registram a doença reumática cardíaca como causa expressiva de mortalidade cardiovascular no Brasil, principalmente em áreas onde o acesso ao tratamento da amigdalite ainda é limitado.
Em cenário de cardite leve, o prognóstico costuma ser favorável, desde que a profilaxia secundária seja mantida. Já em cardite grave, o risco de óbito existe, e a insuficiência cardíaca é a principal responsável por desfechos fatais. O controle rigoroso da inflamação, a continuação ininterrupta dos antibióticos profiláticos e o acompanhamento cardiológico periódicos podem reduzir significativamente essa ameaça.
A boa notícia é que a doença é evitável. Tratar infecções de garganta pelo estreptococo com antibiótico prescrito e completar o curso indicado impedem, na maioria dos casos, que o sistema imune desenvolva a resposta inflamatória exagerada.
Em síntese, ao primeiro sinal de dor de garganta intensa acompanhada de febre em crianças e adolescentes, a avaliação médica imediata e o seguimento correto do esquema medicamentoso constituem a estratégia mais efetiva para afastar o risco de febre reumática e suas graves complicações cardíacas.

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