Falta de bolsas de ostomia no SUS em Teresina expõe risco de infecção e lesões em pacientes

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Palavra-chave principal: bolsas de ostomia
- A quem a falta de bolsas de ostomia atinge e por que o problema persiste
- Como funciona a distribuição de bolsas de ostomia pelo SUS em Teresina
- Tipos de bolsas de ostomia e a importância da escolha correta
- Riscos clínicos ligados ao uso inadequado das bolsas
- Cronologia da crise e prazos oficiais para normalização
- Relatos dos pacientes evidenciam danos físicos e financeiros
- O papel da Associação dos Ostomizados do Piauí na mediação do conflito
- Posição oficial da Fundação Municipal de Saúde
- Consequências sociais do prolongamento da escassez
- O que deve acontecer a seguir
A quem a falta de bolsas de ostomia atinge e por que o problema persiste
Centenas de moradores de Teresina que dependem de bolsas de ostomia fornecidas pelo Sistema Único de Saúde relatam que estão há quase um ano sem receber o material adequado. Todos eles passaram por cirurgias que resultaram na exteriorização de parte dos sistemas digestório, urinário ou respiratório, situação clínica conhecida como ostomia. O abastecimento é responsabilidade da Fundação Municipal de Saúde, que afirma ter concluído o processo de licitação e aguarda a entrega pelos fornecedores contratados. Enquanto isso, usuários como Maria Iranilde Meneses precisam improvisar soluções que ampliam a dor, provocam queimaduras na pele e aumentam o risco de infecções.
Como funciona a distribuição de bolsas de ostomia pelo SUS em Teresina
A rotina normal de um paciente ostomizado inclui a retirada das bolsas na rede municipal em períodos pré-determinados. Esses insumos são considerados itens de uso contínuo e, por isso, a programação de compras deve ser constante. Conforme informações da Fundação Municipal de Saúde, o lote mais recente foi licitado, mas a chegada efetiva depende do cronograma de entrega dos fornecedores. Até que os produtos sejam distribuídos, grande parte dos usuários fica sem alternativa gratuita. A Associação dos Ostomizados do Piauí acompanha cada etapa desse processo e calcula que o desabastecimento se prolonga há mais de doze meses, contrariando prazos anteriormente fixados.
Tipos de bolsas de ostomia e a importância da escolha correta
Existem modelos distintos de bolsas para colostomia, ileostomia ou urostomia, que variam em formato, número de peças e perfil da base em contato com a pele. Entre eles estão as opções planas, convexas, de uma peça ou de duas peças. Pessoas com ileostomia, por exemplo, lidam com fezes líquidas e precisam de materiais com maior capacidade de vedação, enquanto algumas colostomias exigem sistemas convexos que se adaptam ao relevo da pele. A vice-presidente da Associação dos Ostomizados do Piauí, Rosário Sales, explica que, pela escassez no estoque municipal, muitos pacientes estão recebendo ou comprando sacos inadequados para o seu tipo de estoma. Essa troca forçada causa vazamentos, compromete a aderência e expõe a pele a substâncias irritantes.
Riscos clínicos ligados ao uso inadequado das bolsas
O coloproctologista Rafael Correia Lima reforça que a proteção cutânea ao redor do estoma é um fator decisivo para a qualidade de vida do paciente. Quando a bolsa não se ajusta corretamente ou quando é trocada com menor frequência por falta de reposição, o conteúdo do intestino ou trato urinário entra em contato direto com a pele. O resultado são queimaduras químicas, inflamações locais e, em casos mais graves, infecções secundárias. Esses quadros podem evoluir para hospitalizações, exigindo uso de antibióticos ou revisões cirúrgicas. Assim, o impacto do desabastecimento ultrapassa o desconforto: ameaça a integridade física e sobrecarrega unidades de saúde que precisam tratar complicações evitáveis.
Cronologia da crise e prazos oficiais para normalização
De acordo com a Associação dos Ostomizados, o problema começou há mais de um ano, período em que a quantidade e o tipo de bolsa disponíveis passaram a oscilar. Em 10 de fevereiro, a Fundação Municipal de Saúde recebeu um prazo de 45 dias para restabelecer o fluxo regular de distribuição. Esse limite foi estipulado após diálogo com a entidade representativa dos pacientes. Embora a FMS garanta que o processo licitatório esteja concluído, não há confirmação pública sobre a data em que os fornecedores entregarão as remessas. Sem previsibilidade, usuários como Helena Augusta afirmam que o único recurso é a compra por conta própria, um gasto que raramente cabe no orçamento familiar.
Relatos dos pacientes evidenciam danos físicos e financeiros
Maria Iranilde Meneses descreve queimaduras abdominais recorrentes porque não recebe o modelo indicado para sua cirurgia. Para fixar uma bolsa plana em um estoma que exige base convexa, ela recorre a faixas improvisadas, intensificando a dor durante a aplicação. Helena Augusta, por sua vez, calcula os custos mensais que nem sempre consegue cobrir. Cada kit específico pode ter preço elevado no varejo, variando conforme o tipo de ostomia e a quantidade de peças. A impossibilidade de escolha faz com que parte dos pacientes aceite o material que estiver disponível, ainda que inapropriado, o que gera ciclos sucessivos de lesões e troca prematura das bolsas, encarecendo ainda mais a rotina.
O papel da Associação dos Ostomizados do Piauí na mediação do conflito
A entidade acompanha diariamente a situação, consolida listas de usuários afetados e encaminha ofícios à Fundação Municipal de Saúde. Também orienta os pacientes sobre higienização, troca emergencial de curativos e identificação de sinais de infecção. Segundo sua vice-presidente, a organização mantém contato com médicos especialistas para atualizar os protocolos de cuidado, mas depende da entrega do insumo adequado para garantir que tais orientações se efetivem. O objetivo do grupo é assegurar que as esferas públicas mantenham o fornecimento regular, uma vez que a compra particular em farmácias e distribuidores representa despesa insustentável para a maioria das famílias.
Posição oficial da Fundação Municipal de Saúde
Em nota, a FMS informou que a licitação das bolsas está concluída e que o processo segue a legislação que obriga a contratação de fornecedores especializados. A autarquia municipal declara aguardar a etapa de distribuição para iniciar as entregas aos usuários cadastrados. Não foram divulgadas quantidades ou datas de chegada do lote. Entretanto, o órgão reconhece que a aquisição foi planejada para normalizar o fornecimento e salienta que todo o trâmite está sendo acompanhado pelos setores responsáveis por compras públicas.
Consequências sociais do prolongamento da escassez
O impacto do desabastecimento atinge dimensões que ultrapassam o ambiente hospitalar. A ausência de bolsas de ostomia adequadas restringe a mobilidade, afeta rotinas domiciliares e, em muitos casos, provoca isolamento social, já que os pacientes receiam vazamentos em espaços públicos. O problema também gera custos extras com pomadas, gazes e fitas para improvisar barreiras protetoras na pele. Tais gastos competem diretamente com despesas básicas, agravando a vulnerabilidade de famílias de baixa renda. Para profissionais de saúde, a continuidade da falha de suprimento poderá elevar a demanda por atendimentos de urgência para tratar infecções evitáveis.
O que deve acontecer a seguir
Terminado o prazo de 45 dias definido em fevereiro, a expectativa dos pacientes é que os fornecedores entreguem à Fundação Municipal de Saúde o lote licitado e, em seguida, seja retomada a distribuição regular de bolsas de ostomia nos postos credenciados de Teresina.

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