Eileen Myles critica poesia feita por IA e desembarca em São Paulo para o Festival Poesia no Centro

Figura central da poesia norte-americana contemporânea, Eileen Myles chega ao Brasil pela primeira vez para participar do Festival Poesia no Centro, que ocorre de 15 a 17 de maio, no Teatro Cultura Artística e em outros espaços da região central de São Paulo. Reconhecida por uma obra marcada pela oralidade e pela experiência direta, a escritora não economiza quando o assunto é poesia produzida por inteligência artificial: para ela, essa produção “fracassa” porque apenas repete o passado, enquanto o poema humano precisa inaugurar algo novo.

Índice

Eileen Myles e a crítica à poesia gerada por IA

Ao atravessar a Quinta Avenida, em Nova York, a poeta costuma deter-se diante da fachada do Museum of Modern Art (MoMA), onde textos criados por inteligência artificial são projetados em circuito contínuo. A cada visita, o veredito se mantém: o resultado é invariavelmente “ruim”. Na avaliação de Myles, o “lugar da IA na poesia” é irrelevante porque o algoritmo constrói versos a partir de amostras preexistentes, sem alcançar a autenticidade que ela associa à tradição oral herdada da geração beat – notadamente Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Esses autores imprimiram um ritmo veloz e confessional à literatura dos anos 1950 e 1960, algo que, segundo a poeta, nenhuma máquina consegue simular de forma convincente.

Anúncio

Outro ponto de inquietação é o entusiasmo do meio artístico com essas experiências tecnológicas. Myles observa que “o mundo da arte” parece mais animado com poemas medíocres gerados por software do que com criações inovadoras de autores vivos. Mesmo assim, ela reconhece um fenômeno positivo: nos últimos dez anos, a poesia voltou a ocupar espaço de destaque, indicando que o gênero recupera fôlego depois de um período de menor visibilidade.

Eileen Myles e o retorno da poesia ao centro das artes

Para entender por que os versos reconquistam leitores, Myles aponta fatores de saturação social. Ela menciona a pressão cotidiana do tempo, do dinheiro e dos dispositivos digitais, que cria um ambiente frenético. Nesse cenário, o poema funcionaria como freio e, ao mesmo tempo, como desvio: ele “ocupa espaço onde não há espaço” e expande os limites da experiência, oferecendo ao leitor instantes de suspensão no fluxo constante de informações. A inteligência artificial, argumenta, não acompanha essa dinâmica porque “regurgita” dados pretéritos; já a poesia que interessa nasce do inédito, da quebra de expectativa e do choque criativo.

A revalorização do gênero coincide com a chegada tardia de Myles ao mercado editorial brasileiro. Apenas em 2019 seus livros ganharam tradução: “Por Qual Árvore Espero”, pela Jabuticaba, reúne poemas que evidenciam a cadência oral característica da autora; já “Chelsea Girls”, editado pela Todavia, mistura memórias e ficção para retratar a formação de uma jovem poeta queer no turbulento Lower East Side dos anos 1970.

Trajetória de Eileen Myles: dos clubes punk ao reconhecimento literário

Nascida em 1949 em Boston, numa família católica da classe operária, Eileen Myles desembarcou em Nova York em 1977 sem recursos financeiros nem grandes planos de carreira. O endereço escolhido foi o Lower East Side, então efervescente reduto da contracultura, vizinho da Factory de Andy Warhol e palco de experimentação artística interligada entre literatura, performance e música punk. Seu batismo poético ocorreu no lendário CBGB, clube que consagrou nomes como Ramones e Patti Smith, e onde a leitura de versos dividia atenção com guitarras distorcidas.

A partir daí, Myles construiu uma produção literária atravessada por sexo, drogas e cotidiano urbano, bem antes de tais elementos serem enquadrados pelo rótulo “autoficção”. Para a autora, a poesia sempre foi “permissão” e “parque psicológico de diversões”. O consumo de substâncias psicoativas, especialmente durante a juventude, integrava esse laboratório estético: ressacas alimentadas por doces para recuperar energia, anfetaminas que aceleravam o ritmo de escrita e, sobretudo, o LSD, que ela considera decisivo para expandir a consciência.

Quando o círculo de amigos começou a abandonar as drogas, a poeta revisitou seus próprios limites. Reconhecendo uma “linhagem” familiar de alcoolismo e mortes prematuras, decidiu mudar de rota. A meditação, o exercício físico e o interesse pelo budismo ofereceram novas formas de deslocamento mental, substituindo a química pela atenção plena em atividades cotidianas como caminhar, ler e trabalhar.

Sexualidade, gênero e pluralidade na visão de Eileen Myles

Identificando-se atualmente com pronomes neutros (“they/them”), Eileen Myles cresceu sob rígidas divisões de gênero dos anos 1950. Ao assumir-se lésbica na década de 1970, percebeu que persistia um componente masculino em sua identidade que não encontrava espaço nas categorias tradicionais. A metáfora que resolveu essa tensão veio de um episódio bíblico no qual o demônio se apresenta como “Legião”. Assim, a poeta compreendeu-se como figura “plural”, cujo gênero é fluido em vez de fixo.

Essa postura, porém, não se converte em militância normativa; amigos de longa data continuam usando o feminino sem reprimenda. O que importa, para Myles, é a liberdade de habitar múltiplos registros identitários sem a obrigação de escolher um único marcador.

A recusa a rótulos também alcança sua escrita. Embora críticos a associem à autoficção, a autora prefere categorizar seu próximo livro como uma “novela de poeta”, sublinhando a autonomia de criar moldes próprios. Essa independência tem custo: mesmo com mais de duas dezenas de títulos publicados e reconhecida influência na literatura americana, ela permanece à margem de grandes prêmios e instituições, situação que atribui tanto à condição queer quanto à resistência em adequar a obra a expectativas formais.

Festival Poesia no Centro trará Eileen Myles a São Paulo em maio

A presença de Eileen Myles no Festival Poesia no Centro é um dos destaques da segunda edição do evento promovido pela Livraria Megafauna e pela Associação Livros no Centro. Realizado entre 15 e 17 de maio, o encontro ocupará o Teatro Cultura Artística e outros espaços do centro paulistano com mesas de debate e performances que aproximam autores de diferentes gerações.

Além de Myles, o programa reunirá o poeta, professor, tradutor e ensaísta Paulo Henriques Britto, a pernambucana Cida Pedrosa – vencedora do Prêmio Jabuti – e Natasha Felix, voz emergente da poesia brasileira contemporânea. O formato do festival, que combina leitura, conversa e intervenção artística, ecoa a trajetória multifacetada da convidada norte-americana, cuja estreia literária ocorreu em meio a guitarras punk e performances experimentais.

Para o público brasileiro, a participação de Myles representa oportunidade de contato direto com uma autora que influenciou a literatura queer internacional e que mantém diálogo crítico com temas atuais, como o emprego de inteligência artificial na criação artística e as disputas políticas que marcam os Estados Unidos desde os anos Trump.

Com 76 anos, a poeta continua a exercer a língua como instrumento de provocação e reinvenção. O calendário do Festival Poesia no Centro, de 15 a 17 de maio, marca a data mais próxima em que leitores poderão acompanhar ao vivo esse processo criativo em expansão.

zairasilva

Olá! Eu sou a Zaira Silva — apaixonada por marketing digital, criação de conteúdo e tudo que envolve compartilhar conhecimento de forma simples e acessível. Gosto de transformar temas complexos em conteúdos claros, úteis e bem organizados. Se você também acredita no poder da informação bem feita, estamos no mesmo caminho. ✨📚 No tempo livre, Zaira gosta de viajar e fotografar paisagens urbanas e naturais, combinando sua curiosidade tecnológica com um olhar artístico. Acompanhe suas publicações para se manter atualizado com insights práticos e interessantes sobre o mundo da tecnologia.

Conteúdo Relacionado

Go up

Usamos cookies para garantir que oferecemos a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você está satisfeito com ele. OK