CPI do Crime Organizado convoca Ibaneis Rocha, Cláudio Castro e Roberto Campos Neto para explicar negócios e falhas de controle

A Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado, instalada no Senado Federal, avançou em sua agenda de apuração ao aprovar, em reunião realizada na terça-feira, 31 de março de 2026, a convocação de três figuras centrais do cenário político e financeiro nacional: os ex-governadores Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, além do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto. A decisão marca novo passo no esforço do colegiado para destrinchar possíveis relações entre agentes públicos, instituições financeiras e dinâmicas de lavagem de dinheiro vinculadas ao crime organizado.

Índice

CPI do Crime Organizado e o alcance das novas convocações

A CPI do Crime Organizado tem como objetivo rastrear mecanismos que permitam identificar, sufocar financeiramente e inibir a infiltração de organizações criminosas em estruturas estatais e privadas. A convocação de Ibaneis Rocha, Cláudio Castro e Roberto Campos Neto foi aprovada depois de cada um deles não atender a convites anteriores, o que levou os senadores a converterem o pedido em intimação formal. Com essa mudança, o comparecimento deixa de ser facultativo e passa a ser obrigatório, sob pena de enquadramento nas normas legais que regem as comissões parlamentares de inquérito.

CPI do Crime Organizado: motivos para a convocação de Ibaneis Rocha

O requerimento que chama o ex-governador do Distrito Federal foi apresentado pelo relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE). Para o parlamentar, o depoimento de Ibaneis Rocha é considerado “essencial” para que a comissão compreenda as relações comerciais do escritório de advocacia fundado pelo ex-chefe do Executivo distrital com entidades atualmente investigadas pela Polícia Federal, bem como os critérios que nortearam decisões de governo envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master.

Vieira destaca que informações preliminares apontam contratos milionários celebrados entre o escritório de Ibaneis e instituições ligadas ao Grupo Reag Investimentos, além do próprio Banco Master. Há ainda registros de transferências financeiras classificadas como atípicas, originadas do Grupo J&F para a banca de advocacia. Esses elementos, segundo o relator, tornam indispensável a oitiva do ex-governador para esclarecer como tais contratos foram firmados e qual a eventual repercussão deles nas decisões tomadas durante sua gestão.

CPI do Crime Organizado aprofunda investigação sobre contratos entre escritório e Banco Master

Um dos pontos centrais levantados pelo relator envolve a participação direta de Ibaneis Rocha, enquanto ocupava o cargo de governador, na aprovação de operação pela qual o BRB — banco público do Distrito Federal — buscou adquirir o Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro. O Banco Master já havia repassado ao BRB cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos rotulados como “questionados”, expressão que indica dúvidas quanto à qualidade ou à recuperabilidade desses ativos. A CPI pretende apurar se houve conflito de interesses, influência política ou irregularidade no processo de aprovação da aquisição.

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Ao convocar Ibaneis, a comissão também pretende decifrar a rede de relações entre o Banco Master, o Grupo Reag e outras entidades que possivelmente atuam como veículos de escoamento de recursos ilícitos. O relator argumenta que entender a lógica desses contratos possibilita revelar como operadores financeiros podem legitimar capital proveniente de atividades criminosas, tema que se enquadra diretamente no escopo da CPI do Crime Organizado.

Cláudio Castro e o panorama da “narcomilícia” segundo a CPI do Crime Organizado

O segundo ex-governador convocado é Cláudio Castro, que comandou o Estado do Rio de Janeiro. Alessandro Vieira sustenta que a presença de Castro fornecerá um “panorama macroestratégico” sobre gargalos institucionais que dificultam o combate à lavagem de dinheiro e à asfixia financeira do crime organizado. O relator ressalta que, ao longo do tempo, o território fluminense tornou-se um “laboratório” para dinâmicas sofisticadas de criminalidade, nas quais facções de narcotráfico passaram a se fundir a grupos milicianos formados por agentes ou ex-agentes de segurança pública.

Essa conjunção de interesses resultou no que Vieira denomina de “narcomilícia”. Para o senador, compreender como esse fenômeno se consolidou no Rio de Janeiro depende de avaliar não só a atuação das forças policiais, mas também a eventual cooptação de parcelas do aparato estatal. Na ótica da CPI, Cláudio Castro, como ex-chefe do Executivo do estado, detém informações sobre falhas institucionais, fluxos de dinheiro e possíveis omissões que permitiram a evolução da simbiose criminosa caracterizada pelo termo.

Ausências forçam nova convocação de Roberto Campos Neto pela CPI do Crime Organizado

Além dos dois ex-governadores, a CPI aprovou a reconvocação de Roberto Campos Neto, que presidiu o Banco Central do Brasil entre 2019 e janeiro de 2025. O ex-dirigente havia sido convidado anteriormente, mas comunicou impossibilidade de comparecimento na reunião do dia 31 de março. Diante da ausência, Alessandro Vieira propôs a conversão do convite em convocação, ressaltando que, a priori, não se atribui responsabilidade direta a Campos Neto pelos fatos investigados.

O relator afirma que procedimentos, instrumentos e práticas institucionais do Banco Central podem “contribuir de forma relevante” para os trabalhos da comissão. Na condição de testemunha qualificada, o ex-presidente do BC deverá explicar como o órgão supervisiona transações, avalia risco sistêmico e opera mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro. A CPI busca identificar se alguma falha de regulação ou fiscalização favoreceu movimentações financeiras ligadas a organizações criminosas.

CPI do Crime Organizado reforça pedidos de quebra de sigilo e amplia lista de depoentes

Na mesma sessão que aprovou as três convocações, os senadores também deram aval a outras medidas. Entre elas está o chamamento do ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central do Brasil, Renato Dias de Brito Gomes. A inclusão do ex-diretor alinha-se à estratégia da CPI de mapear a atuação de gestores que ocuparam postos-chave no BC durante o período em análise.

Além disso, o colegiado ratificou pedidos de quebra de sigilo de pessoas físicas e jurídicas já analisados anteriormente, agora adequados às exigências recentes do Supremo Tribunal Federal. Tais quebras pretendem destravar acesso a dados bancários, fiscais e telefônicos que podem confirmar ou refutar suspeitas de irregularidades nos contratos investigados.

Próximos passos da CPI do Crime Organizado após as convocações

Com a aprovação das convocações e das quebras de sigilo, a CPI do Crime Organizado volta-se agora para o agendamento das oitivas. A expectativa é que Ibaneis Rocha, Cláudio Castro e Roberto Campos Neto compareçam em datas distintas, permitindo que o relator organize os questionamentos em blocos temáticos: relações contratuais, atuação governamental e supervisão financeira. O calendário detalhado deverá ser divulgado assim que o presidente da comissão confirmar a disponibilidade dos convocados.

Paralelamente, os senadores preparam a análise do material que chegará por meio das quebras de sigilo. O cruzamento dessas informações com os depoimentos prestados em sessão aberta tende a orientar futuros requerimentos, podendo incluir novos chamamentos ou diligências externas. Até o momento, a comissão demonstra convergir para a tese de que somente o rastreamento de fluxos financeiros poderá revelar a verdadeira extensão da infiltração criminosa em órgãos públicos e instituições privadas.

O andamento da investigação será retomado na próxima reunião deliberativa da CPI do Crime Organizado, ocasião em que serão anunciadas a ordem das oitivas e eventuais novos pedidos de informação.

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