Cinema é político: debate entre Karim Aïnouz, Eliza Capai e Wim Wenders domina o Festival de Berlim

Cinema é político: debate entre Karim Aïnouz, Eliza Capai e Wim Wenders domina o Festival de Berlim
Getting your Trinity Audio player ready...

O Festival de Berlim, reconhecido historicamente por promover discussões artísticas e sociais, tornou-se palco de uma polêmica depois que o presidente do júri, Wim Wenders, afirmou que cineastas seriam “o oposto da política”. A declaração foi suficiente para mobilizar concorrentes brasileiros e reforçar a ideia de que, para muitos profissionais, cinema é político por essência. Entre os que reagiram estão Karim Aïnouz, selecionado ao Urso de Ouro com “Rosebush Pruning”, e Eliza Capai, que disputa o prêmio de melhor documentário com “A Fabulosa Máquina do Tempo”.

Índice

Cinema é político: o estopim da controvérsia na Berlinale

A discussão se originou em uma coletiva de imprensa. Questionada sobre a posição do governo alemão a respeito da Faixa de Gaza, a produtora polonesa Ewa Puszczynska, também jurada, classificou o tema como “pergunta injusta”. Em seguida, ao ser instado por um jornalista, Wim Wenders saiu em defesa de Puszczynska e declarou que cineastas seriam “o oposto da política”. O posicionamento surpreendeu parte do meio cinematográfico justamente por vir de um diretor com longa carreira associada a reflexões sociais, caso de “Paris, Texas” e “O Estado das Coisas”, citados posteriormente pelos entrevistados brasileiros.

Rapidamente, a resposta de Wenders ganhou repercussão entre participantes do festival. A ideia de separar arte e posicionamento público encontrou resistência, sobretudo por se tratar de um evento cuja programação costuma receber produções engajadas em pautas sociais, étnicas e de gênero. Dentro desse contexto, os diretores brasileiros ouvidos apontaram incoerência entre a fala do presidente do júri e a natureza historicamente crítica da própria obra dele.

Cinema é político: Karim Aïnouz rebate a fala de Wim Wenders

Karim Aïnouz, cineasta cearense radicado em Berlim e atualmente na disputa pelo Urso de Ouro, foi categórico ao comentar o episódio. Para ele, a declaração de Wenders foi “infeliz”, sobretudo porque o próprio realizador alemão construiu notoriedade internacional abordando relações humanas que igualmente questionam estruturas de poder. Aïnouz citou “Paris, Texas” como exemplo de filmografia que discute, a partir de histórias íntimas, um “estado de coisas” mais amplo.

O brasileiro aproveitou a ocasião para explicar por que considera que cinema é político. Em seu entendimento, cada escolha narrativa — do personagem invisibilizado até a forma como conflitos são revelados — carrega potencial de transformar percepções sobre justiça, igualdade ou marginalização. Ele lembrou que decidiu seguir carreira depois de ler “A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica”, ensaio no qual Walter Benjamin descreve o cinema como ferramenta capaz de impactar o mundo.

Durante a projeção de “Rosebush Pruning”, descrita por ele como seu segundo filme internacional, Aïnouz voltou a refletir sobre a potência da sétima arte: “É só luz batendo em uma tela, mas possui força incomum”. O comentário reforça a convicção de que cada plano, personagem e estrutura dramática pode servir para questionar desigualdades ou denunciar injustiças, ainda que de maneira não panfletária.

Cinema é político: Eliza Capai defende o ativismo através do documentário

Compartilhando visão semelhante, Eliza Capai também se declarou surpresa com o pedido de neutralidade feito indiretamente por Wim Wenders e Ewa Puszczynska. Diretora de “A Fabulosa Máquina do Tempo”, obra que acompanha alunas de uma escola no interior do Piauí, Capai centra sua narrativa no debate sobre o papel da mulher em ambiente reconhecidamente machista. O documentário observa a primeira geração totalmente inserida no programa Bolsa Família, acrescentando camada social à discussão.

Na avaliação da realizadora paulista, todo aspecto criativo é, por definição, atravessado por decisões políticas: tema, locação, escolha de elenco e, no caso do documentário, definição de quem terá voz diante da câmera. Ao argumentar que “não existe ninguém apolítico”, Capai salientou que a consciência sobre o próprio posicionamento amplia a potência do filme. Para ela, ser vista como ativista não representa problema; ao contrário, corresponde a compromisso com justiça social e com a democratização de narrativas que habitualmente não chegam ao circuito comercial.

Reação oficial do festival e repercussão entre outros artistas

Diante da repercussão negativa, a organização da Berlinale publicou carta aberta em defesa dos jurados. No texto, a diretora do evento, Tricia Tuttle, afirmou que artistas detêm plena liberdade de se expressar ou de optar pelo silêncio, sem que precisem se pronunciar sobre “todas as questões de caráter político apresentadas”. O comunicado acrescentou que os membros do júri não deveriam ser responsabilizados por “ações passadas ou presentes de um festival”, sugerindo que o barulho midiático teria exagerado a dimensão do episódio.

A polêmica não se restringiu aos brasileiros. Figuras como Michelle Yeoh, vencedora do Oscar por “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” e homenageada na mostra, também foram criticadas por evitarem comentários diretos sobre temas sensíveis, a exemplo das políticas anti-imigração associadas a Donald Trump. Rupert Grint, conhecido pela interpretação de Ron Weasley na franquia “Harry Potter”, optou por adiar manifestação a respeito do avanço de ideais considerados fascistas nos últimos anos. Esses episódios reforçaram o debate sobre a expectativa de posicionamento político imposta a celebridades em eventos internacionais.

Cinema é político: próximos passos na disputa pelo Urso de Ouro e pelo melhor documentário

Enquanto o debate sobre neutralidade ou engajamento continua, a Berlinale prossegue com a avaliação das obras concorrentes. “Rosebush Pruning”, de Karim Aïnouz, permanece entre os títulos que almejam o Urso de Ouro, principal reconhecimento do festival. Já “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, segue na corrida pelo prêmio de melhor documentário, destacando-se por registrar a vivência de jovens piauienses em diálogo lúdico sobre gênero e cidadania.

As premiações ocorrerão ao término do festival, data que reunirá novamente júri, realizadores e imprensa. Até lá, a frase cinema é político ecoa pelos corredores de Berlim, sintetizando a tensão entre liberdade artística e responsabilidade social que permeia o evento deste ano.

zairasilva

Olá! Eu sou a Zaira Silva — apaixonada por marketing digital, criação de conteúdo e tudo que envolve compartilhar conhecimento de forma simples e acessível. Gosto de transformar temas complexos em conteúdos claros, úteis e bem organizados. Se você também acredita no poder da informação bem feita, estamos no mesmo caminho. ✨📚No tempo livre, Zaira gosta de viajar e fotografar paisagens urbanas e naturais, combinando sua curiosidade tecnológica com um olhar artístico. Acompanhe suas publicações para se manter atualizado com insights práticos e interessantes sobre o mundo da tecnologia.

Conteúdo Relacionado

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Go up

Usamos cookies para garantir que oferecemos a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você está satisfeito com ele. OK