Caminhada do Silêncio reúne centenas em São Paulo e reforça memória das vítimas de violência de estado

Realizada no domingo, 29 de março, a Caminhada do Silêncio mobilizou centenas de pessoas na capital paulista para relembrar vítimas de violência de estado e defender o aprofundamento da democracia brasileira. A iniciativa, em sua 6ª edição, partiu do antigo prédio do DOI-Codi na rua Tutóia e seguiu até o Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Parque Ibirapuera, reforçando a importância de manter viva a memória do período da ditadura militar (1964-1985) e dos abusos ainda presentes após a redemocratização.

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Caminhada do Silêncio: manifestação anual pela memória e pelos direitos humanos

Instituída em 2019 pelo Movimento Vozes do Silêncio — articulação do Instituto Vladimir Herzog com o Núcleo de Preservação da Memória Política —, a Caminhada do Silêncio tornou-se um evento fixo no calendário de mobilizações paulistanas voltadas à defesa dos direitos humanos. Ao longo de seis edições, a proposta permaneceu a mesma: ocupar o espaço público, em silêncio, para lembrar quem sofreu tortura, desaparecimento forçado ou execução por agentes do estado.

Em 2026, o lema central “aprender com o passado para construir o futuro” norteou as falas, os cartazes e o percurso escolhido. Segundo os organizadores, repetir o ato anualmente cria uma pedagogia coletiva: a lembrança sistemática dos abusos impede que violações sejam naturalizadas e demonstra às novas gerações que a democracia exige vigilância permanente.

Itinerário simbólico: do antigo DOI-Codi ao Parque Ibirapuera

O trajeto concentra forte valor histórico. O ponto de partida, o Departamento de Operações Internas – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi/SP), foi um dos principais centros de repressão e tortura durante a ditadura. Lá, opositores ao regime sofreram interrogatórios violentos, muitos deles resultando em mortes ou desaparecimentos. Ao selecionar esse local para a concentração, o ato resgata lembranças de violações cometidas pelo estado e destaca a urgência de reconhecê-las publicamente.

Do DOI-Codi, o cortejo silencioso avançou por ruas da zona sul paulistana, escoltado por agentes da Polícia Militar que circularam entre os manifestantes. O destino final foi o Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Parque Ibirapuera, erguido justamente para manter viva a memória das vítimas e dar visibilidade aos familiares que ainda lutam por justiça. A chegada ao monumento selou a mensagem do percurso: transformar um lugar de dor em caminhada de resistência e, em seguida, encontrar um espaço oficial de homenagem, unindo lembrança e reparação simbólica.

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Caminhada do Silêncio enfatiza memória, verdade e justiça

A coordenadora de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, Lorrane Rodrigues, destacou durante o ato que a sociedade frequentemente trata a ditadura militar como período “estanque”, isolado do presente. Para ela, discutir os impactos desse regime no cotidiano atual é indispensável à consolidação do Estado democrático de Direito. O evento, portanto, buscou criar pontes visíveis entre passado e presente: lembrar centros de tortura, propor medidas concretas contra a impunidade e alertar sobre práticas violentas que persistem.

O manifesto lido perto do encerramento reforçou a mesma linha. Sem discursos inflamados ou palavras de ordem, as frases escolhidas apontaram que o silêncio coletivo não representa ausência, e sim presença ativa de memória. As vítimas foram listadas nominalmente; a cada nome, o público respondeu “presente”, reafirmando que desaparecidos políticos e cidadãos mortos por agentes estatais continuam simbólica e moralmente entre nós.

Recomendações da Comissão Nacional da Verdade: cumprimento ainda parcial

Fundamentar o debate na agenda de memória, verdade e justiça levou os organizadores a retomar o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), entregue em 2014. O documento reuniu 49 recomendações ao estado brasileiro, abrangendo identificação de restos mortais, abertura de arquivos, responsabilização de agentes envolvidos com tortura e reformas institucionais. Conforme explicou Lorrane Rodrigues, o Instituto Vladimir Herzog realiza monitoramento bianual do atendimento a essas diretrizes e constata avanços pontuais, porém insuficientes diante da extensão das propostas.

Apontar o grau de implementação das recomendações funciona como termômetro democrático. Se dispositivos para romper a cadeia de impunidade permanecem incompletos, o risco de repetição da violência estrutural aumenta. Ao mesmo tempo, o acompanhamento periódico sinaliza que parcelas da sociedade civil mantêm atenção constante sobre o tema, pressionando por respostas efetivas.

Caminhada do Silêncio e o debate sobre a Lei da Anistia

Entre as muitas pautas levadas à 6ª Caminhada, ganhou relevo a posição, recentemente defendida no Supremo Tribunal Federal pelo ministro Flávio Dino, de afastar a aplicação da Lei da Anistia para crimes permanentes, como ocultação de cadáver. Para os participantes, tratar delitos dessa natureza como imprescritíveis pode abrir caminho à responsabilização de envolvidos em violações de direitos humanos que permanecem sem julgamento.

Essa discussão dialoga com a herança de impunidade mencionada pelo diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sotilli. Ao afirmar que a ditadura legou ausência de punição, Sotilli lembra que, sem responsabilização, a violência de estado encontra terreno fértil para se reconfigurar. A Caminhada do Silêncio, nesse sentido, não olha apenas para o passado; ela posiciona-se no debate jurídico contemporâneo e pressiona por interpretações que reafirmem o princípio de justiça.

Participação de familiares, movimentos sociais e organização do ato

Mais de 30 organizações da sociedade civil compareceram, entre elas entidades de direitos humanos, coletivos de familiares de mortos e desaparecidos, e movimentos estudantis. A diversidade de grupos atesta que a questão extrapola fronteiras ideológicas ou geracionais, envolvendo quem vivenciou diretamente o autoritarismo e quem apenas herdou suas consequências.

Durante todo o percurso, familiares carregaram fotografias de entes queridos, dando rosto a estatísticas. Outros participantes exibiram faixas com trechos do relatório da CNV, dados sobre prisões ilegais e expressões em defesa da democracia. A polícia militar acompanhou a marcha, garantindo a segurança e monitorando o fluxo de pessoas. Não houve registro de confrontos, confirmando o caráter pacífico e silencioso do protesto.

Silêncio que comunica e perspectiva futura

Ao final do ato, a leitura coletiva do manifesto e dos nomes das vítimas encerrou a programação oficial. A partir dali, os organizadores orientaram os presentes a manter a mobilização em agendas futuras, como audiências públicas sobre a Lei da Anistia ou sessões parlamentares que possam discutir projetos de reparação. Esse chamado evidencia que a Caminhada do Silêncio não se encerra em si mesma; ela serve de preparação para outras frentes de atuação, sempre ancoradas na tríade memória, verdade e justiça.

O próximo compromisso citado pelos coletivos é a atualização do monitoramento das recomendações da CNV, prevista para o biênio em curso. O relatório, esperado pelos movimentos para os próximos meses, deverá indicar onde houve avanço, quais recomendações permanecem estagnadas e que providências podem ser cobradas do poder público.

Com a 6ª edição consolidada, a Caminhada do Silêncio reafirmou seu papel como espaço de lembrança e cobrança por medidas concretas. Enquanto os nomes das vítimas continuarem a ecoar, o compromisso dos participantes será manter vivo o alerta de que a democracia exige não apenas memória, mas ação permanente contra qualquer forma de violência de estado.

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